Gordofobia: o preconceito traz mais problemas do que a obesidade

Cerca de 44% da população adulta cabo-verdiana tem sobrepeso e obesidade, sendo que 14% é obesa. Os dados constam de uma reportagem do jornal Expresso das Ilhas, que cita o II Inquérito de Doenças Não Transmissíveis (IDNT II), realizado em 2020, cujo relatório deverá ser apresentado publicamente em breve. O Balai esteve à conversa com as mentoras de duas iniciativas que visam o empoderamento de pessoas acima do peso, bem como com a nutricionista Alzerina Monteiro para desmistificar alguns conceitos associados ao peso e entender o impacto que o preconceito, a gordofobia, tem na vida das pessoas.

Se olharmos para as pinturas até o século XIX, os corpos nelas representados eram volumosos. Ser gordo era sinônimo de saúde, beleza e nobreza. Porém, a partir de 1830, surgiu um novo marco na visão estética, que privilegia a silhueta magra. Diante desse novo padrão, as pessoas gordas começaram a ser vistas pela sociedade como “preguiçosas, descuidadas e com tendência a ter mais problemas de saúde”.

A nutricionista Alzerina Monteiro, presidente da associação cabo-verdiana de nutricionistas, explica que a gordura não é sinonimo de doença e a obesidade não está ligada somente ao ter uma vida saudável, mas que há vários fatores que influenciam esta questão.

“Existe uma falsa ideia de que todas as pessoas gordas são doentes e as magras são saudáveis. A obesidade é multifatorial, muitas vezes tem uma origem genética e hormonal. Existe o falso magro, onde a pessoa tem uma alimentação desregulada, mas a sua genética não permite que ele seja gordo, se pedirmos a essa pessoa algumas análises bioquímicas, notamos que é uma pessoa doente, com colesterol, glicemia e açúcar elevado, enquanto uma pessoa gorda pode apresentar exames saudáveis”, esclarece a nutricionista.

Conforme a Alzerina Monteiro, a gordofobia é a intolerância à gordura e as pessoas que estão acima do peso.
“A gordofobia é uma discriminação ao gordo, quando tratado pelo seu aspeto físico para identifica-lo como: aquele gordinho ali, aquela senhora gorda, como consegue namorar uma pessoa gorda? Eles não veem a pessoa para além da estética”.

Os movimentos “Plus Power” e “Plus Size Life”, de São Vicente e da Praia, respetivamente, visam trabalhar a autoestima de pessoas que devido ao seu peso, sofrem bullying e preconceito, e mostrar que mesmo sendo gordo é possível ter uma vida normal.

Segundo Aldaíte Lima, representante do “Plus Power” em São Vicente, o grupo surgiu com o propósito de quebrar o padrão estético imposto pela sociedade.

“Comecei a ganhar peso na adolescência, era muito criticada pelo fato de ser gorda, nesta fase da minha vida os comentários maldosos afetavam-me muito, por isso, sempre quis lutar pela causa e ajudar quem passou ou passa pelo mesmo que eu”, afirma.

O relato é semelhante no caso de Ângela Fernandes, também ela integrante do grupo. “Desde pequena recebo críticas e piadas, pelo fato de ser gorda, mas nunca liguei. Muitas vezes, a gordofobia vem disfarçada de uma falsa preocupação, as pessoas criticam o teu peso, fazem comentários maldosos e dizem ser para o teu bem, que estão preocupadas contigo, passamos por isso diariamente, mesmo no seio familiar, às vezes as pessoas dizem-me que sou muito linda e que deveria emagrecer”.

Aldaíte que é estudante universitária, acredita que a beleza não está só no ser magro e diz que se sente realizada com o seu corpo. “Se eu tiver de emagrecer terá de ser por minha vontade/opção, ou por uma questão de saúde, e não porque a sociedade impõe-me isso”.

Nathaly Soares, mentora do “Plus Size Life” na cidade da Praia, nasceu em uma família onde todos são considerados acima do peso e desde da adolescência tem lidado com questões relacionadas com a autoestima.

A advogada revela que sofreu muito devido aos comentários relativos ao seu peso e chegou até a pensar em suicidar-se. “Tive que me resgatar, trabalhar a minha autoestima e hoje posso dizer que estou satisfeita e de bem com o meu corpo”.

“O padrão de vida é ser feliz, estar bem contigo mesmo, aí sim, consegues viver a vida, porque o padrão não deveria ser o corpo”, realça Nathaly Soares.


Texto: Rosiane Sales

Vídeo: Rosiane Sales e Emerson Almada, com colaboração de Célia Cruz

Fotos: Cedidas

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