Faby da Silva e a importância de ser autêntico mesmo diante das adversidades

Fábio da Silva é um jovem que começou a perceber a sua orientação sexual ainda durante a infância. Apesar das adversidades da vida, enfrentou o processo de aceitação da sociedade e hoje está satisfeito com o caminho que trilhou.

Natural do bairro de Achada Grande Frente da cidade da Praia, Fábio da Silva, conhecido por Faby, é um jovem de 25 anos que começou a ganhar consciência da sua orientação sexual ainda durante a infância. Criado pelas tias devido à ausência do pai emigrante e às dificuldades financeiras da mãe, cresceu junto dos primos e vizinhos, numa comunidade onde aprendeu desde cedo a importância de ser autêntico, mesmo diante das adversidades.

Em entrevista ao Balai, Faby conta que desde a infância começou a se interessar por pessoas do mesmo sexo e a sua família logo percebeu que se comportava de forma diferente dos outros meninos. Apesar de algumas desavenças iniciais com sua mãe devido à sua sexualidade acabou por encontrar apoio e compreensão por parte dos familiares e amigos.

Após assumir a sua orientação sexual, foi orientado por algumas pessoas da comunidade LGBTQA+ do seu bairro a lidar com possíveis situações desafiadoras. “Ensinaram-me como me comportar na sociedade e que não precisava chamar atenção de ninguém para mostrar que sou gay, mas sim agir como um cidadão normal. Enfrentei muitos desafios durante este percurso e hoje sou aceite em todos os lugares que frequento”.

Faby diz que inicialmente não sofreu preconceito porque soube lidar com os comentários homofóbicos e saber estar nos lugares que frequentava. Sempre esteve consciente de que não ia ser aceite por algumas pessoas devido à sua orientação sexual, mas que hoje vive feliz por trilhar este caminho sem obrigar as pessoas a incluí-lo nas suas vidas.

“Hoje considero que amadureci cedo devido às circunstâncias de vida. Comecei a trabalhar desde a minha adolescência, fazia pasteis, fresquinhas, entre outras iguarias e vendia. Com 17 anos fui trabalhar numa discoteca porque as minhas tias tinham outras responsabilidades e não conseguiam satisfazer todas as minhas necessidades”, adiantou.

Durante a pandemia da covid-19, como tinha habilidades como barman decidiu apostar na área e fazer diferentes tipos de bebidas para vender no seu bairro. O mesmo diz que tem sido um sucesso e tem recebido clientes de várias zonas da cidade da Praia e da diáspora. Para além desta profissão, Faby presta serviços na organização MORABI.

Questionado sobre as mudanças atuais da inclusão das pessoas da comunidade LGBTQA+ na sociedade, Faby diz que atualmente a sociedade cabo-verdiana está mais aberta e dá espaço às pessoas homossexuais, principalmente no bairro em Achada Grande Frente onde todos respeitam e acolhem a comunidade LGBTQA+.

Em Cabo Verde as pessoas LGBTQA+ são aceites ou criticadas de acordo com os seus comportamentos, defende Faby e acrescenta que no seu caso recebe muitos elogios devido ao seu posicionamento em diversas situações. “Conheço vários gays que são julgados pelos seus comportamentos negativos na sociedade e defendem que sofrem homofobia, mas não aceitam que em várias vezes estão a ser criticados pelos seus atos”.

“O meu objetivo é ser identificado na sociedade como um homem gay e não me sinto à vontade quando uso roupas femininas porque não quero ser uma mulher. Quero ser um um homem que gosta de outros homens”, acrescentou

Atualmente, Faby não pertence a nenhuma associação de LGBTQA+ de Cabo Verde. Justifica que até agora não viu nenhum projeto criado por uma associação para ajudar as pessoas homossexuais que passam por dificuldades. “Os membros da associação viajam por várias partes do mundo, mas até agora não trouxeram uma solução para a comunidade. A única atividade que fazem todos os anos é a marcha, parada gay, que sempre termina em conflitos. Decidi não participar deste movimento que não trabalha para criar uma história diferente e ganhar mais espaço na sociedade”.

Popularidade na internet

Para além de empreendedor, Faby tornou-se uma figura popular na Internet. Conta que desde a infância gostava de gravar vídeos e sonhava um dia ser digital influencer, mas não tinha condições financeiras para ter acesso aos equipamentos para criar conteúdos.

“Comecei a gravar conteúdos motivacionais e de humor, mesmo sem um telemóvel de qualidade, postava os vídeos nas redes sociais. Para além de criar conteúdos fazia papel de comentador em publicações e viralizei em várias plataformas digitais”, conta.

Faby tornou-se conhecido não apenas pelos seus conteúdos digitais, mas também pela sua “autenticidade” ao compartilhar o seu dia a dia. Atualmente é conhecido como digital influencer com cerca de 30 mil seguidores no Instagram e mais de 5 mil na plataforma TikTok. Segundo o mesmo, a sua fama na internet começou em 2023 quando várias pessoas começaram a fazer dublagens dos seus vídeos.

“O que me motiva a estar sempre ativo na Internet mesmo sabendo que em Cabo Verde não se pode monetizar um perfil na internet para ter uma remuneração, são os meus seguidores”. O jovem adiantou que recebe vários elogios e que quer continuar a utilizar a Internet para fazer o bem e inspirar os próximos.

Para além disso, Faby diz que tem estado a apostar nesta área para colher frutos no futuro. “Se tiver um número razoável de seguidores e no futuro estiver fora de Cabo Verde isso vai me ajudar a trabalhar e a ganhar com a Internet”.

Com planos de emigrar, Faby diz que não tem medo de as pessoas não gostarem mais dos seus conteúdos por estar distante das suas origens. Acrescentou que vai continuar determinado em manter a essência e a inspirar os seguidores, independentemente do país que esteja a viver.

Atualmente, o influencer tem parcerias com algumas empresas nacionais e internacionais em que tem estado a fazer divulgação dos seus produtos e serviços, entre produtos de cabelo, área de odontologia, entre outros.

Questionado se não tem planos de usar as redes sociais para promover os direitos da comunidade LGBTQA+, justificou que este era um dos seus objetivos, mas que a sociedade e alguns homosexuais tem que ter uma mente mais madura para receber críticas construtivas e respeitar as opiniões de cada um, mas diz que talvez com uma sociedade mais empática e inclusiva, possa investir nessa causa.

Faby que já enfrentou o processo de aceitação aconselha às pessoas que estão na fase de descobrir as suas orientações sexuais para não se esforçarem, mas para irem com calma porque a vida é feita de etapas.

Devem respeitar a sociedade que da mesma forma vão ser respeitados. Não precisam “fazer escândalos” para chamar a atenção de que são homossexuais, mas sim ser um cidadão comum como os outros. Independentemente da orientação sexual que escolheram não se esqueçam que são seres humanos e tem que seguir e respeitar as regras da sociedade”.

“Mesmo se a família não vos aceitar não se revoltem, respeitam o momento e o processo de aceitação deles e cabe a vocês fazê-los entender a orientação sexual que escolheram”, finalizou Faby.

Cidália Semedo/Estagiária

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