Fanny Martins. Falar de saúde mental não deve ser tabu

“O crescimento é desconfortável” é o lema de Fanny Martins, uma médica cabo-verdiana de 31 anos que elegeu a saúde mental, o empoderamento feminino e a aceitação corporal como algumas das suas pautas preferenciais nas redes sociais, nomeadamente no programa Falar Tabu que promove regularmente online.

Por experiência pessoal, Fanny Martins entendeu que falar sobre saúde mental é extremamente necessário, pertinente, principalmente com os mais jovens, e acima de tudo não precisa de ser tabu.

Depois de terminar a sua formação em Medicina na China, em 2016, Fanny decidiu explorar outras áreas antes de exercer na área de saúde.

“Não estava mentalmente preparada para entrar nesta trajetória da Medicina, então decidi fazer outras coisas. Já fui cabeleireira, maquilhadora, trabalhei num ginásio, trabalhei como tradutora e também como professora durante muito tempo. Decidi experimentar cada uma das profissões para ver o que realmente queria da minha vida”, conta entre risos.

A sua busca não terminou por aí. Casou-se e mudou-se para as Bahamas, país de onde o ex-marido é natural e onde foi mãe de uma menina.

Decidi desde esse dia que queria viver e se fosse viver iria fazê-lo por inteiro, não ia esconder o que era, nem os meus traumas “

“Foi aí (nas Bahamas) que começou o meu processo de transformação. Entrei em depressão. Aliás acho que sempre estive deprimida, mas durante toda a minha vida tinha coisas para me abstrair disso. Só que quando cheguei nas Bahamas fiquei totalmente isolada. Só podia falar com o meu marido e a família dele. Entrei numa fase muito escura, em depressão e tive pensamentos suicidas. Houve momentos em que imaginei como seria o fim da minha vida. Não foram momentos fáceis porque me senti isolada, sozinha e tinha vergonha de falar disso. O meu marido queria ajudar, mas não conseguia. Comecei a pensar na minha mãe que já não via há seis anos. E decidi que a minha mãe já tinha sofrido bastante e que eu não queria ser mais uma fonte de sofrimento para ela. Decidi desde esse dia que queria viver e se fosse viver iria fazê-lo por inteiro, não ia esconder o que era, nem os meus traumas”.

Falar de saúde mental não precisa ser tabu

 

Essa experiência foi o mote para Fanny arriscar em realizar o projeto Falar Tabu. O programa foi para o ar pela primeira vez online em 2018, na página de Instagram da plataforma Nos é Criolas.

Mais tarde, a jovem resolveu criar uma página dedicada apenas ao projeto Falar Tabu e começou a fazer lives e a abordar vários temas. O programa permitiu a Fanny realizar uma série de atividades, inclusive um encontro de mulheres em Boston, nos EUA, e conhecer várias mulheres inspiradoras.

A trabalhar nessa altura como supervisora num ginásio, com o início da pandemia em 2020, a cabo-verdiana que tinha sido mãe há pouco tempo, perdeu o emprego e a sua relação também não estava bem. Assim, em setembro de 2020 Fanny resolveu voltar à cidade da Praia.

Depois de 11 anos fora, regressar a Cabo Verde “foi um choque”. “Acho que foi toda a experiência que estava a passar”, recorda Fanny e explica que no verão antes do regresso ao país partilhou um dos seus maiores segredos no Falar Tabu, num episódio em que falou sobre abuso sexual.

“Partilhei um dos meus maiores segredos – o meu processo de abuso sexual e depois o meu processo de cura e perdão, o que acabou por me trazer muita ansiedade. Depois de partilhar a minha experiência, parei com o Falar Tabu. Houve dias em que não conseguia levantar-me da cama a pensar na minha família (…)”.

Mas Fanny decidiu dar uma volta por cima, rapou o cabelo, encheu-se de coragem, pegou na filha e regressou a Cabo Verde.

“Foram muitos anos sem viver com os meus pais, o que acabou por causar muito atrito entre nós. Também a minha relação de 8 anos não deu certo, agora sou mãe solteira”, recorda e explica que apesar das tentativas não foi possível salvar o casamento.

Nessa altura, não se sentiu acolhida em casa dos pais e acabou por partir para Assomada, no interior de Santiago, onde ficou duas semanas em casa de uma amiga que lhe cedeu o espaço. Foi durante esse período que conheceu Ivanilza Sanches, uma mãe solteira de três filhos que trabalhava como empregada doméstica na casa onde Fanny estava. A história desta mãe que mora em Achada Lém e que sempre quis terminar o liceu, mas que não conseguiu porque a família não tinha condições acabou por inspirar Fanny que voltou a gravar o Falar Tabu.

Depois de uma interrupção, o programa estava de volta em novembro de 2020 com Ivanilza como protagonista e teve uma repercussão tão grande que permitiu fazer um gofundme (angariação de fundos online) para Ivanilza e os filhos.

A estadia em Assomada acabou por trazer outros frutos para Fanny que aproveitou para fazer uma parceria com uma empresa jovem, a Rural Tours, vocacionada para o turismo rural. Surgia assim o projeto Caminhadas Terra Terra, cujos objetivos são criar networking, contribuir para a economia local e praticar exercício físico. As caminhadas tiveram lugar até agosto deste ano.

Ainda no âmbito do Falar Tabu, Fanny sentiu a necessidade de sair das redes sociais e se conectar com outras mulheres. Foi desta forma que surgiu o Kriolas Who Brunch, um encontro mensal de mulheres onde se fala sobre saúde mental.

Fanny Martins

Especialidade na área de Psiquiatria

 

“Desde 2020 que dei entrada nos documentos no ministério da Saúde, só que ainda estou à espera (de ser integrada)”, explica Fanny. No entretanto, a jovem fez dois estágios profissionais:  um de cerca de um mês na Delegacia de Saúde em São Domingos e outro estágio de quatro meses no Centro de Saúde de Achada S. António.

Um dos aspetos para as quais o programa Falar Tabu contribuiu foi despertar a atenção de Fanny para a área da Psiquiatria. “Comecei a ver uma conexão grande entre a medicina, o Falar Tabu e a saúde mental e cheguei na Psiquiatria”.

A jovem médica está decidida em fazer, a partir de março de 2022, uma especialidade na área de Psiquiatria no Brasil. Ainda não sabe como vai financiar os estudos, mas adianta que não vai desistir, “nem que seja através de uma angariação de fundos”.

Para Fanny é absolutamente indispensável ‘quebrar o tabu’ no que diz respeito às doenças mentais em Cabo Verde

“O meu sonho é trazer o Falar Tabu para as comunidades e começar a ter um maior engajamento com as pessoas, no interior de Santiago, por exemplo (…)  Quero quebrar esse estigma em que os doentes mentais são considerados como ‘loucos’ (em Cabo Verde). Não, não são loucos, são doentes que é possível tratar”.

E especializar-se em Psiquiatria é mais um passo para concretizar esse objetivo. “Quero aprender mais nessa área”.

Depressão pós-parto

 

Questionada sobre se acredita que é preciso falar mais sobre a depressão pós-parto em Cabo Verde, Fanny diz que claramente que sim até porque entendeu que os problemas a nível de saúde mental são encarados com alguma ligeireza por muitos. “É frescura”.

“Parece que por vezes as pessoas não têm empatia, mas por outro lado não têm conhecimento para entender que ninguém se suicida porque quer, é um desequilíbrio no teu cérebro, é algo químico, mesmo”.

A jovem médica refere que ainda há dias falava sobre o tema com outra colega médica que sonha em trazer o parto humanizado para Cabo Verde. “(Tudo) Começa com o parto e continua quando a mãe regressa a casa. Ser mãe é um trabalho árduo que as pessoas romantizam muito. Levantar duas em duas horas, ter o peito inchado, o cansaço, o útero, as hormonas, o cabelo a cair e ao mesmo tempo às vezes falha a rede de apoio”, descreve.

Daí que defende a necessidade de uma intervenção urgente porque este aspeto está a impactar as próximas gerações, nomeadamente nos bebés e nas crianças. “Os bebés também sentem a energia que as mães transmitem. O meu sonho é ajudar a quebrar o ciclo. Falando com a minha mãe vejo que há coisas que ela passou que eu também passei, mas eu não quero que a minha filha passe por isso. O meu foco é a próxima geração. Já não posso mudar os meus pais, mas a minha filha tem uma grande oportunidade de viver numa sociedade melhor e de ser mais forte do que eu mentalmente. Esse é o meu sonho, quebrar estes ciclos”.

Fanny defende que os jovens não devem ficar à espera pelas autoridades e precisam mudar a mentalidade: “Não esperes pelo governo, não reclames, faz o que consegues e vamos mudar o nosso país. É possível, basta querermos”.

“Tudo nesta vida tem uma solução”, é algo que gostaria de ter ouvido quando passou pelos momentos difíceis. Hoje consegue olhar para a sua trajectoria e aceitar que este percurso foi necessário para ser voz de outras mulheres. “Tudo o que passei foi necessário para estar aqui hoje, deu-me oportunidade de conectar com outras pessoas”.

Outro ponto salientando por Fanny é não se isolar do mundo. “A solidão, apesar de ser essa a vontade na maior parte dos casos, é o pior que podes fazer porque aí ficas sozinho com o teu cérebro que mente”. E Fanny aconselha sempre a procurar ajuda e a falar com alguém, mesmo que seja online.

Há alguns anos, Fanny recorreu à ajuda profissional e começou a fazer terapia, contudo explica que há várias formas de fazer terapia nomeadamente fazer o que te faz feliz.

“Foca em ti. Sé livre (…) Sempre que te chamarem de louco quer dizer que estás fora do padrão (…) as pessoas acabam por projetar em ti as suas próprias inseguranças”.

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