CUFA do Complexo da Penha: um exemplo do que o investimento social pode fazer

Conhecer o Complexo da Penha implica ir além das perceções externas e aproximar-se da vida quotidiana de um território marcado por uma forte identidade própria. Percorrer as suas ruas, observar a dinâmica local e escutar as pessoas que ali vivem permite compreender a favela como um espaço de desafios, mas também de enorme potencial humano, criatividade e resiliência.

No alto do complexo, num miradouro com uma vista ampla sobre a região, torna-se visível a dimensão territorial e populacional deste conjunto de comunidades, integrado numa dinâmica urbana intensa e rodeado por outras favelas da zona norte do Rio de Janeiro. É neste contexto que se encontra uma das maiores e mais estruturadas sedes da Central Única das Favelas (CUFA) no Brasil.

No coração do Complexo da Penha, a CUFA construiu um espaço de referência para a transformação social. A sua sede, com três pisos, integra um campo de futebol, uma piscina, um estúdio de música e diversas salas de formação. Trata-se de uma infraestrutura estratégica, pensada para responder às necessidades reais da população local, sejam eles crianças, jovens ou idosos.

A atuação da CUFA no território baseia-se na convicção de que a mudança sustentável tem de nascer no interior desses territórios. Através de programas nas áreas da educação, cultura, desporto, formação profissional e empreendedorismo, a organização cria oportunidades concretas para o desenvolvimento de competências, descoberta de talentos e construção de novos projetos de vida.

“É possível mudar de vida, sim. Aqui conhecemos muitos jovens que encontraram novos caminhos através do trabalho, da educação e da formação”, refere Sandra Vieira, coordenadora da CUFA no Complexo da Penha.

Para além dos programas regulares, a CUFA no Complexo da Penha tem desempenhado um papel fundamental no apoio à população em momentos críticos, atuando como ponto de acolhimento, articulação local e ligação com instituições públicas e privadas. O seu trabalho vai além da resposta imediata, apostando na construção de autonomia, dignidade e cidadania a médio e longo prazo.

Algumas semanas antes, este mesmo local foi vítima daquele que foi denominado do pior massacre policial da história do Brasil, onde morreram mais de uma centena de pessoas. A CUFA do Complexo da Penha foi a organização que recebeu os imensos familiares à procura do paradeiro dos seus filhos e em pedido de apoio à realização de enterros.

Fomos um grupo de mais de 40 países a fazer a visita em dezembro de 2025 ao espaço da nossa organização mãe, a Central Única das Favelas. Em 1996, Celso Athayde, fundador da organização, começou o trabalho de posicionar a “Favela” no mundo, o espaço onde vivem pessoas em desvantagem social. Foi precisa muita teimosia, mas essa é uma característica que nós empreendedores sociais nos orgulhamos de ter.

Trinta anos depois, os mais de 70 países que representam a CUFA no mundo, têm a oportunidade de uma vez por ano participar o World Forum of Favelas no Rio de Janeiro e ter trocas a nível mundial sobre o que são as suas prioridades e necessidades de agenda, garantindo a representação alargada de diversas populações que nunca são tidas nem achadas nos processos de decisão que vão influenciar fortemente as suas vidas.

Artigo atualizado a 14 de janeiro

Susana Duarte

Susana Duarte

Gestora da Comunidade WeCare, Presidente da associação Social Development Hub – SDH e da CUFA Cabo Verde, empreendedora social e criadora de narrativas. A WeCare é uma empresa social que colabora com Organizações não Governamentais como forma de encontrar financiamento para as suas atividades dedicadas ao impacto social e formação para a obtenção dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável. A Social Development Hub é uma organização sem fins lucrativos com o objectivo de criar e promover redes de desenvolvimento humano. A Central Única das Favelas, é uma das redes internacionais que promovem o empreendedorismo social e são representadas em Cabo Verde.

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