Ghislene Alves, uma estilista que incorpora a customização nas criações

Dedica-se à moda há uma década. Começou na customização e em finais de 2020 criou uma marca de roupa denominada “House of Onix”, onde não quis deixar de lado a arte de customizar, que segundo diz cria um padrão diferencial nas suas criações.

Ghislene Sofia Lima Alves nasceu em São Vicente e cresceu no interior da ilha de Santiago (Assomada), tendo mais tarde se fixado na cidade da Praia, onde tem-se dedicado à moda há uma década.

“Sempre estive ligada à moda. Recentemente, descobri que uma tia, que já faleceu, costurava em casa e quando era pequena a minha mãe deixava-me com ela para ir trabalhar. Então, é provável que, desde essa altura tive esse contacto que depois viria a despertar-se”, conta e afirma que não tem uma formação na área de corte e costura. “O que sei aprendi sozinha e no YouTube. Tenho alguns colegas e amigos costureiros com os quais acabei por passar algum tempo a ganhar experiência.”

Começou na customização, mas sempre almejou criar uma marca de roupa. “Adoro customizar, mas o meu sonho sempre foi criar a minha marca de roupa e ser estilista. Levei muito tempo para me sentir estilista. (…) Atualmente, já não me dedico muito à customização. Criei a marca House of Onix em finais de 2020, durante a quarentena imposta para travar a pandemia da Covid-19, e estou a trabalhar na criação de peças próprias, mas a customização continua presente, coloco sempre um detalhe a mais para criar um padrão diferente. Misturo a costura em si com a customização.”

Apesar de atualmente não se dedicar tanto à customização como outrora, Ghislene diz que recicla o máximo de materiais que pode. “Reciclo cerca de 80% dos resíduos que produzo. Os tecidos que restam dificilmente vão para o lixo. Sempre há uma forma de os aproveitar, seja na construção de uma outra peça ou de pequenos acessórios como elásticos e bolsas pequenas. (…) Então, continua a ser uma forma sustentável de trabalho.”

Recorda que a primeira peça que criou foi um vestido de cetim, que fez com restos de materiais que tinha em casa. “Fotografei e divulguei a peça na internet e, apesar de estarmos fechados em casa, começaram a surgir vários pedidos”, diz e conta que até ao momento já lançou duas coleções da marca.

A maioria dos seus clientes são mulheres da cidade da Praia. “O meu trabalho, as minhas coleções e a minha promoção são direcionadas paras as mulheres. (…). Embora trabalhe para todos os tipos de clientes”, diz e revela que tem recebido pedidos de outras ilhas, principalmente de São Vicente e do Sal, bem como de países como Portugal, Luxemburgo, França, Estados Unidos da América e Senegal.

Os vestidos e os conjuntos (camisa e calças) de cetim são as peças da House Of Onix que têm mais saída. Os preços variam consoante o pedido do cliente. “Uma peça pronta para a venda custa entre 1000 a 1500 escudos. Os pedidos por encomenda são a partir de 2000 escudos. Não há limite, depende da peça que o cliente quer, do material e do tempo que gasto.”

De acordo com a estilista de 32 anos, o feedback do público tem sido excelente. “Todos os meus clientes dizem que gostam do meu trabalho. (…) Não gosto de desagradar as pessoas. É um defeito, mas quero que o cliente saia daqui o mais satisfeito possível. (…) Já tive clientes que ficaram encantados e que não queriam tirar a roupa do corpo naquele momento. (…) Pessoalmente, sou muito crítica, mas acho que estou a fazer um bom trabalho”, frisa e realça que já trabalhou com vários artistas como Djam Neguin, Neuza de Pina, Eneida Moniz e Ruben Teixeira. “Tudo indica que vamos fazer um trabalho bastante interessante com a Elida Almeida no seu novo disco.”

Em setembro do ano passado, Ghislene foi galardoada pela organização do Miss Cabo Verde International com o troféu “Swimwear Designer Of The Year”.

“Podiam ter escolhido qualquer estilista nacional e fui escolhida. Não quero dizer que sou especial de alguma forma, mas estou a conseguir criar e posicionar-me no mercado de forma a ser uma referência. (…) Fiquei muito contente e orgulhosa de mim. Esse tipo de reconhecimento é uma valorização. Foi um marco no meu trabalho.”

Moda, um terreno bastante inexplorado em Cabo Verde

“Acho que Cabo Verde tem muito a dar, mas é tipo um terreno bastante inexplorado. Limitamos muito quando o assunto é moda. (…) Cabo verde poderia estar a fazer coisas incríveis nesta área. Temos vários carapates – cujas fibras são utilizadas na moda sustentável – babosa, algodão e temos terreno para fazer esses tipos de plantações. Quem sabe não crio um projeto nessa direção.”

A falta de matéria-prima não é um problema para a estilista. “Tenho a parte de customização que me dá a aptidão para adaptar e recriar, gosto de trabalhar com a reciclagem, logo, se uma pessoa quer algo específico consigo criar com o material que o cliente deseja com o que temos no país. Houve um artista que me pediu um casaco de pele para usar num videoclip e não temos esse material no país e transformei um tapete de dois metros num casaco. Então acho que isso que é um dos meus superpoderes, consigo adaptar aquilo que temos no mercado. (…) Recuso-me a ver as coisas como um desafio.”

Questionada sobre se é sustentável ter uma carreira nessa área no país, a estilista diz que sim. “Dedico-me apenas a isso. Quando criei a marca não foi fácil, mas hoje trabalho tranquilamente e tenho um rendimento fixo.”

No futuro, Ghislene ambiciona alargar a marca e “dominar o mercado nacional “. “Trabalho muito com casamentos, batizados e decoração e sempre surgem pedidos em grande quantidade. (…) Sozinha não consigo dar vazão, tenho estado a terceirizar, mas um dos meus planos para 2023 é abrir uma confeção”, conclui.

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