Heidi Neves, única engenheira naval da Guarda Costeira cuja carreira decidiu-se a partir de uma visita ao “Guardião”

Heidi Neves, 27 anos, já tinha algum interesse pela vida militar, mas foi uma visita escolar ao navio patrulha Guardião que a fez decidir por conciliar a tropa com o mar, outra das suas paixões.

Natural de São Vicente e filha de pais de Santo Antão, a menina dos olhos dos pais, única menina entre sete irmãos, Heidi diz que sempre guardou a curiosidade infantil, sendo conhecida pelos colegas como “muito analista e detalhista”.

E foi com esta “ânsia de conhecer” que, aos 17 anos, numa visita de estudo ao navio-patrulha da Guarda Costeira “Guardião”, esteve muito atenta às informações dadas por militares sobre oportunidades de formação existentes nas Forças Armadas e terminou ainda “mais apaixonada” quando no mesmo dia teve a oportunidade de fazer uma pequena viagem, do Porto Grande do Mindelo até Ilhéu dos Pássaros (Djêu) no barco de apoio (Rip) do navio-patrulha.

“Então, imaginei que quando terminasse o 12º ano teria que associar a vida militar e o mar”, contou, lembrando que decidiu conciliar as duas paixões, a tropa “um tanto ou quanto” influenciada pelo irmão mais velho que já era fuzileiro, e o mar, que fizera os seus “melhores momentos” na infância, quando com os pais e os irmãos passava os finais de semana nas orlas marítimas de São Vicente.

Com essa certeza, após terminar o secundário em Abril de 2014, inscreveu-se logo no concurso de recrutamento, mesmo dividida entre a tristeza da mãe, que não queria que a única filha fosse para a tropa, e o incentivo do pai, que a estimulou a aventurar-se nessa área.

A 01 de junho do mesmo ano, Heidi Neves fazia o juramento à bandeira, e alguns meses depois submeteu-se a um concurso para frequentar o curso de ensino superior na Academia Militar, em Portugal, com a exigência de fazer provas de acesso, incluindo testes físicos, matemática e língua portuguesa, nos quais passou com distinção, em primeiro lugar.

Logo de seguida rumava para Portugal para frequentar o Mestrado Integrado em Engenharia Mecânica Naval, um curso que a princípio não tinha como primeira opção, porque antes queria Medicina Militar, mas, que escolheu muito motivada pela falta de engenheiros navais na Guarda Costeira de Cabo Verde.

Após um ano de preparação na Academia Militar de Amadora, os outros cinco anos seriam todos na Escola Naval de Alfeite, onde tornou-se na única mulher cabo-verdiana a frequentar o curso, juntamente com outras colegas portuguesas e de outros Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

“Tive muitas dificuldades ao longo dos cinco anos do curso, ainda mais por ser uma academia militar, temos que fazer esforços extra”, explicou, adiantando que mesmo assim nunca pensou em desistir, muito também devido a inter-ajuda existente entre as mulheres da sua universidade.

“Ainda depois que me disseram que seria a primeira engenheira naval da Guarda Costeira de Cabo Verde, agarrei a oportunidade com mais força para não desiludir as esperanças que tinham em mim”, sublinhou a jovem, que se permitiu “desbravar os entraves dessa área dominada por homens”.

E não é que Heidi Neves conseguiu alcançar os objetivos com mérito, foi considerada no final do curso como a melhor aluna dos PALOP na escola naval.

De volta a Cabo Verde, em novembro de 2020, integrou como adjunta do Serviço de Manutenção da Guarda Costeira, tornando-se na única engenheira, até o momento, num ramo que, como asseverou, tem de fazer “muitos sacrifícios” diários, por ser militar, mulher e engenheira, mas também por querer deixar orgulhosos aqueles que ama.

Ainda se apegando ao lema da tropa “sangue, suor e lágrimas” encara com “muito afinco” o trabalho, no qual está há três anos, de manutenção e reparação de todos os navios da corporação, inclusive, o Guardião, que foi o impulsionador de toda a trajetória.

Hoje, vendo esse percurso de quase nove anos, Heidi Neves disse que a sua vida profissional tem sido moldada “consoante as circunstâncias foram surgindo e por oportunidades que agarrou e soube aproveitar”.

“A ideia é dar o melhor de mim enquanto estiver cá, do futuro ninguém sabe, mas quero dar o meu máximo para o meu trabalho correr da melhor maneira”, afiançou a tenente, orgulhosa de si mesma por vestir a farda militar e conseguir incentivar outras mulheres a seguir os seus sonhos e estarem onde quiserem.

Por isso, às colegas militares e outras mulheres na vida marítima, duas áreas ainda dominadas pelos homens, aconselha a que “não sintam receio e mostrem as suas capacidades, enfrentando todas as dificuldades com empenho, respeito, senso de responsabilidade e partilha de ideias”.

O Dia da Mulher Cabo-verdiana é celebrado a 27 de março tendo em vista a promoção do bem-estar social, económico e cultural da mulher. A meta maior é a proteção das famílias e da sociedade cabo-verdiana em geral, através da defesa e promoção dos direitos da mulher.

A data coincide com a da fundação da Organização das Mulheres de Cabo Verde (OMCV) há 42 anos.

Inforpress

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