Histórias na primeira pessoa: Ariana Monteiro

Este testemunho faz parte de um leque de histórias inspiradoras originalmente publicadas na página Sem Tabus.

O meu nome é Ariana Augusta Gomes Monteiro, tenho 41 anos de idade, vivo na Cidade da Praia, onde nasci e cresci.

 

Sempre fui simpática, mimada, bastante brincalhona, e nunca tive dificuldades em me relacionar. Nasci e cresci numa família católica e a minha educação foi sempre ligada à fé, ao respeito, amor ao próximo, e nunca fui de me abalar.

 

Até à minha vida adulta, nunca tive problemas de saúde, a única coisa que eu me lembro, foram problemas de alergia a marisco, ao qual o meu organismo depois se adaptou.

 

Aos trinta anos, perdi a minha mãe, uma semana após o meu divórcio, mas ter estado com ela durante 45 dias em tratamento, fortaleceu-me.

 

Sempre me inspirei no amor dos meus pais e ao vê-la forte, tocada pela fé e a lutar pela vida, permitiu-me ver muito mais do que uma mãe, uma mulher forte e batalhadora e uma guerreira que me inspirou.

 

Retomei a minha vida, iniciei um novo relacionamento, tive o meu pequeno príncipe, o meu anjo da guarda, e, em setembro de 2014, tendo ele completado, dois anos de vida, estava eu de férias, quando ele bateu com a cabeça no meu peito, onde senti como se tivesse uma placa dentro e resolvi ir a uma consulta.

 

Fui ao ginecologista, esta realizou-me exames de toques, e sentiu uma massa na mama esquerda, passou uma ecografia mamaria e PAAF (Punção Aspirativa por Agulha Fina), com resultado para doença proliferativa com atipia severa, pelo que fui recomendada a realizar uma mamografia e biopsia do nódulo.

 

Aconselhada por familiares, resolvi ir para o Senegal, onde fui submetida a uma tumorectomia e estudos histológicos da peça e o resultado foi carcinoma (cancro de mama) ductal infiltrativo triplo negativo grau III (tamanho do tumor) KI (índice de proliferação) 67,80%.

 

De regresso à cidade da Praia, infelizmente sofri uma abertura na cirurgia, tive de ser submetida a uma pequena cirurgia de urgência, passando por um processo de drenagem o que me deixou ainda mais apreensiva.

 

Após os curativos, fui encaminhada ao Hospital Agostinho Neto pelo doutor Vera Cruz, onde fui atendida pelos médicos oncologistas e apresentada à equipa médica de evacuação e fui evacuada para Lisboa – Portugal em dezembro de 2014.

 

Obter o resultado da peça foi um pouco traumático, sabendo o que a minha mãe passou. Mas ter assistido à sua luta, isso me fortaleceu.

 

Preparados, nunca estamos, mas passar por isso, sentir na pele, confesso, a força vem de DEUS. A única certeza que tinha, é que queria viver, que o meu foco era a minha cura, e que tenho uma família que eu amava muito e um filho para criar.
Levei isso comigo, minha luta era a minha força.

Passei por uns momentos complicados, fui rude com pessoas que não entendiam o que eu estava a passar, mas consegui ultrapassar”

 

Passei por uns momentos complicados, fui rude com pessoas que não entendiam o que eu estava a passar, mas consegui ultrapassar. Aconselho a pessoas amigas e familiares a nunca anteciparem a um doente, a uma dor que ainda não provou.

 

Em Lisboa – Portugal, repeti novamente novos exames (imagiologia mamográfica e ecográfica bem como Ressonância Magnética para despiste de tumor residual).

 

Durante todo o processo o que mais me afetou, foi a Ressonância Magnética, que me fez sentir muito mal, passei quarenta e cinco minutos, numa posição desconfortável, com a cara para baixo, sem poder me mexer, parecia uma eternidade e não via hora de terminar.

 

Graças a Deus o tempo passou, a equipa apoiou-me e consegui me recompor, o que só tenho a agradecer, a Deus e à equipa que me assistiu. A minha satisfação maior, foi ter saído da sala onde fui assistida, e ter encontrado uma comitiva de “guerreiras”, cabo-verdianas que passaram pelo tratamento e que queriam me encorajar e fortalecer.

 

Uma delas, é mãe de uma colega de trabalho, e uma das mulheres que também me inspirou. Neste dia também fui acompanhada por uma prima inspiradora.

 

Em janeiro de 2015, fui submetida a uma nova cirurgia – mastectomia radical esquerdo (retirada total da mama esquerda) e em março do mesmo ano, iniciei o processo de tratamento por quimioterapia, tendo terminado em agosto do referido ano.

 

De início foi doloroso, o medo do novo, do desconhecido, não era para mais. Graças a Deus tive apoio de uma amiga, familiar reformada, que trabalhava na área de oncologia que me auxiliou e me orientou.

 

Graças a Deus, não tive problemas de enjoos, bebia muita água, e em cada cinco minutos, molhava a boca, o que evitava ressecamento dos lábios, aumentava a hidratação e a possibilidade de uma maior libertação das toxinas do corpo. Fazia massas de argila e submersão em água quente o que me ajudava na recuperação.

 

O meu cabelo começou a cair, duas semanas após o primeiro tratamento. Lembro-me ainda, o susto que a minha cabeleireira teve quando começou a lavar-me o cabelo. Retirou-se para dentro assustada, e eu resolvi cortar o cabelo sozinha. Expliquei-lhe que estava informada sobre o efeito do tratamento e que por isso ela não deveria se preocupar.

 

Ficou desorientada, e resolveu me oferecer um brinde. Fui à associação do IPO (Instituto Português de Oncologia de Lisboa) e outras guerreiras (senhoras distintas aposentadas), cortaram-me cabelo, colocaram-me peruca e cuidaram de mim nesse dia.

 

Mudei os meus hábitos alimentares, tracei novos planos de cuidados e aos poucos fui-me adaptando. Os médicos não aconselham sobre o tipo de alimentação, mas os meus familiares, mais concretamente, o meu pai, também meu anjo da guarda, me orientava com o tipo de alimentação e fortalecimento espiritual. Mandava-me textos lindos, quando terminei o tratamento ele partilhou-me o livro e vi as passagens que ele me orientou.

Tive pessoas amigas que me ofereceram livros inspiradoras, o que me fez sentir amada e protegida, nunca me deixando abalar.

Tive pessoas amigas que me ofereceram livros inspiradoras, o que me fez sentir amada e protegida, nunca me deixando abalar. Passava os meus dias de tratamento, acompanhada de familiares e pessoas amigas, e com a chegada do meu filho e do meu marido só tenho a agradecer.

 

Tive visitas e gestos lindos de pessoas amigas e familiares, que embora hoje sou ingrata, mas elas sabem da minha gratidão.

 

Tive visita de uma grande inspiradora, aquela que até hoje considero uma grande batalhadora, lutou e continua a lutar, deram-lhe um ano de vida e graças a deus já passaram mais de dez. Esta sim é uma mulher lutadora e inspiradora que nos ajudam a fortalecer, a acreditar, a aumentar a fé e a lutar todos os dias.

 

Posteriormente fiz Rádio Terapia, de setembro a outubro, com boa tolerância.

 

Infelizmente (pela minha vontade de regressar a minha terra natal) ou felizmente (pela possibilidade de agir na prevenção), no momento em que considerava decisivo, em avaliação, na Consulta de Genética, foram detetadas, alterações que originam uma suscetibilidade aumentada para cancro da mama e ovário pelo que fui aconselhada a considerar medidas a ponderar a realização de mastectomia contra lateral e salpingo-ooforectomia profilática.

 

Considerei as medidas, e em junho 2016, optei pela prevenção. Fui operada novamente – mastectomia contralateral profilática (retirada da outra mama e a reconstrução), decorreu sem complicações, mas durante o período de curativos e recuperação, sofri uma pequena infeção e tive de ser submetida a uma nova cirurgia.

Sofri perdas de pessoas amigas e muito próximas, a minha fé foi posta à prova, mas não deixei me abalar

Sentir eu senti, confesso que gostaria que fosse tudo mais tranquilo, foi assim, mas graças a Deus a minha força, a minha fé e a vontade de viver foram maiores, e consegui ultrapassar. Sofri perdas de pessoas amigas e muito próximas, a minha fé foi posta à prova, mas não deixei me abalar.

 

Assisti as lutas que elas travaram, fomos companheiras, cúmplices e guerreiras, mas infelizmente não conseguiram vencer. É uma luta de fortalecimento e aprovações, e a meta é a cura e o sobreviver. Rezo todos os dias por elas e as considero meus anjos da guarda a me acompanhar. Tive pessoas guerreiras e inspiradoras, o que sempre me fortificou. Hoje transmito o mesmo, ser uma pessoa inspiradora, para que juntas com outras guerreiras possamos vencer.

É uma luta de todos: minha, tua, das outras guerreiras, dos amigos e, principalmente, dos familiares, é com o amor e apoio destes que conseguimos vencer.

 

Aproveito para agradecer a minha família, os meus amigos, os meus tios e primos, meus irmãos sempre presentes, meus cunhados, sobrinhos, sogra, ao meu filho que mesmo sem entender, soube aprovar, as minhas ausências e minhas presenças, fez-me sempre fortalecer.

 

Ao meu marido e meu grande amigo, pelo pai e mãe que foi durante a minha ausência, preparou o meu filho para o nosso reencontro e minha aceitação. O meu muito obrigado por aquilo que continuam a ser e a fazer parte da minha vida e das minhas aprovações.

 

Retomei a normalidade, casa, trabalho, família e lazer, após três anos de tratamento. Continuo a fazer o acompanhamento, aqui em Cabo Verde e em Portugal. Com a atual situação de saúde pública, sendo uma pessoa de risco tenho cuidados a dobrar.

 

Levo uma vida tranquila, evitando stress e contradições, tento uma alimentação equilibrada e rico em ferro e vitaminas, sempre pensando no fortalecimento da imunidade.

 

Pratico iogaterapia, privo minutos de contato ao sol (vitamina D), faço meditações diárias e evito pessoas negativas, mantendo a minha boa disposição.

 

O meu pai partiu a 2 de outubro, o meu mentor, uma das pessoas que mais me apoiou, mesmo na sua forma discreta de ser, ele foi completo quando mais precisei. O seu corpo físico partiu poucas horas de eu viajar, para consultas de acompanhamento em Lisboa onde faço o seguimento. A sua preocupação até as últimas eram comigo, se ia bem. TE AMO MEU PAI, o teu corpo físico partiu, mas continuas presente como meu mentor espiritual e a minha MÃE guerreira que também faz 12 anos, também nestes mês, fizeram de mim aquilo o que eu sou, e a vontade de também cumprir a minha missão. Vos amo para além da morte.

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