Histórias na primeira pessoa: Djamila Semedo

Este testemunho faz parte de um leque de histórias inspiradoras originalmente publicadas na página Sem Tabus.

“Chamo-me Djamila Semedo, tenho 26, moro no bairro da Bela Vista – Cidade da Praia. Sou mãe solteira de um menino de 11 anos. Vim contar um “pouco” da minha história e das três doenças que se apoderaram de mim ( a depressão, a Ansiedade e uma doença rara de pele chamada Líquen Plano) e com o meu testemunho espero inspirar e ajudar outras pessoas, que no momento possam estar a passar pelo o que passei.

Como podem ver eu fui mãe muito jovem (aos 15 anos).

Infelizmente, quando o meu filho tinha 9 meses de vida, recebi a notícia de que o pai dele desapareceu em Portugal, meses de procura e nada até que ficou anunciado que ele foi sequestrado e assassinado em Portugal. Eu não queria e não acreditava no que tinha acontecido, e mesmo anos depois ainda tinha a esperança de que um dia ele iria aparecer com vida, porque na verdade o “corpo” nunca foi encontrado e a polícia nunca descobriu nada (já faz 10 anos). Era tudo especulação sobre o que realmente aconteceu.

Depois disso e tentando seguir em frente cheia de esperança, quando o meu filho ia completar dois anos de vida, descobri que ele tem uma deficiência auditiva. O meu filho é surdo/mudo. Eu ainda estudava, mas graças a Deus, tinha o apoio dos meus pais, eles sempre me ajudaram em tudo que podiam até que terminei o 12° ano.

E quando terminei, procurei um emprego, queria trabalhar para não depender só dos meus pais e queria dar o melhor para meu filho.

Consegui um emprego e depois uma formação na área de atendimento aonde fui com todo foco, sai com o diploma de melhor formanda e com um estágio num dos melhores Hotéis de Praia (Hotel VIP Praia).

Éramos nove estagiários no hotel, mas só dois iam ter uma vaga de trabalho. Dei o meu melhor sempre a pensar no meu filho e no que queria dar para ele futuramente, e então consegui uma das vagas, mas acreditem que chegar até aí não foi fácil.

A minha vida e do meu filho era idas e vindas do hospital todos os meses. Sempre fui uma mulher cheia de força e esperança, por isso não me permitia sofrer, guardava tudo. Sempre fui só sorrisos no rosto mesmo quando devia desabar, quando devia chorar, mas não me permitia, principalmente porque quando não trabalhava, estava com o meu filho e a minha família, e não podia chorar à frente deles e dos meus amigos. Estava sempre a sorrir, até para quem não sabia pensava que eu era uma miúda feliz.

Trabalhei no hotel VIP por quase 2 anos e depois fiquei doente. Por azar, apanhei uma alergia a atum devido a qual, acreditem ou não, quase fiquei cega. Tive muitas idas e vindas ao hospital e clínicas privadas até descobrir o que estava a acontecer. E quando melhorei já estava desempregada, só que como tinha dito, desde o sucedido não tinha parado para sentir nada. Guardei tudo para mim e por causa disso fiquei doente. Tive uma doença rara e crónica na pele chamada “líquen plano”.

“O líquen plano é uma doença inflamatória mucocutânea, ou seja capaz de atingir a pele, mucosas e também anexos , como cabelos e unhas. Trata-se de uma condição benigna, porém de longa duração e muito incômoda por causa de seus sintomas.”

É impossível explicar tudo o que passei e como fiquei por causa dessa doença, só para terem noção  não podia apanhar Sol. A doença tomou conta do meu corpo com exceção do rosto e da vagina. As outras partes do corpo estavam cheias dessas erupções na pele. Fui a uma dermatologista que me receitou remédios que não devia, só piorei. O líquen incomodava-me muito porque coçava e não devia coçar porque aumentava. Imaginam a angústia!??!!

Fiz todo o tipo de exames e análises para descobrir a causa dessa doença, só que essa doença não tem uma causa provável, podia ser hepatite C, exposição a produtos químicos e metais, etc. Mas comigo não foi nada disso e a única explicação possível era o stress.

Essa doença pode durar por mais de um ano, e pode se repetir, mas graças a Deus não é infeciosa. Entrei em depressão e comecei a ter crises de ansiedade. Sempre que tinha uma consulta entrava em pânico, porque via que não estava a melhorar e o pior disso tudo era não desabar em frente ao meu filho ou da minha mãe. Passava o dia dentro do meu quarto e quando encontrava uma oportunidade chorava muito. Sempre que sentia alguém a aproximar-se engolia o choro e fingia estar a dormir.

Estive meses nessa situação e ninguém sabia a gravidade do meu problema, porque não dizia o que a médica me falava e sempre tentava deixar a minha mãe tranquila. Entrava em pânico sozinha, quando podia.

Até que um dia, ouvi a minha mãe a falar com uma amiga sobre a Missa e um Santo (Nhu Santo Amaro) que a maioria das pessoas acreditam que faz milagres. Nhu Santo Amaro atende aos pedidos dos crentes ou algo do tipo , e, apesar de não frequentar a Igreja, decidi assistir a missa no Tarrafal, mesmo não podendo me expor ao sol, enchi-me de fé e fui.

Escrevi uma carta como todos faziam, a pedir para ele me curar e prometendo pagar a uma missa em nome dele todos os anos. Fiquei horas exposta ao sol, com o corpo coçando e aguentando para não coçar e assisti a missa até ao final.

Depois que voltei do Tarrafal, decidi que não ia mais ficar na cama somente à espera pelo milagre divino, me enchi de esperança, comecei a sorrir e a sair com as amigas, mas ainda só à noite.

Comecei a ler sobre a doença e a pesquisar. Descobri sobre a depressão e a crise de ansiedade e comecei entender melhor e  a lutar contra isso.

Graças a Deus e, sim, ao Nhu Santo Amaro e, também, a mim, comecei a ver melhorias na minha pele que já não coçava e as erupções começaram a desaparecer. Rapidamente, melhorei.

Hoje estou viva, feliz e linda. Orgulho-me da mulher que sou e aprendi que às vezes tudo o que precisamos é ter Fé, ter fé acima de tudo e pensar positivo, sempre, porque quando estava mal e só pensava negativo só aumentava o meu stress e a minha doença piorava, mas quando comecei a ter fé e a pensar positivo tudo começou a dar certo.

Desde então, quando aparecem obstáculos no meu caminho, rezo e mantenho o pensamento positivo de que vai passar e de que tudo vai melhorar. Hoje só tenho a agradecer.

Trabalho num restaurante e também tenho a minha própria loja de vendas online, juntamente com uma amiga e parceira. Contínuo a lutar contra a depressão e as crises de ansiedade. Vou vivendo um dia de cada Vez e sempre com muita fé.

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