Vamos conhecer a história da Fátima Tavares Mendes que teve uma gravidez precoce, mas continuou a lutar pelos seus sonhos.
Foto @Vadu Rodrigues

O meu nome é Maria de Fátima Tavares Mendes, 31 anos de idade. Sou natural de Praia Baixo, mas há cinco anos resido em São Pedro, na Praia.

Bom, a minha história se resume a uma gravidez precoce, seis anos depois uma gravidez conturbada pelo relacionamento e o nascimento de uma filha com necessidades especiais.

Sobre a gravidez precoce: engravidei aos 15 anos de idade na altura e sim, a gravidez era um tabu em minha casa, mesmo a minha mãe sendo liberal em muitos aspetos. Quando a minha mãe soube da minha gravidez, chorou muito e queixava-se a todas as pessoas sobre o meu estado.

Muitos deram-lhe maus conselhos. Um dia uma amiga mandou bater-me dizendo: “Se fosse nha filha nta fogal te ki minino sai pa boca”. Isso sim foi uma das piores coisas que ouvi naquela altura. A minha mãe apoiou-me em tudo e o pai da minha filha também nunca esteve ausente, tive todo apoio. Na altura tive que deixar os estudos, porque todos olhavam para mim de “cara virada”.

A minha filha nasceu e três meses depois que abandonei os estudos, mas logo depois quando as aulas começaram, dei continuidade. Entreguei a criança para os cuidados de uma amiga que atualmente é a madrinha da minha filha e, posteriormente, para a minha mãe (elas não tinham obrigação nenhuma em me ajudar, afinal a responsabilidade era minha). Mas nunca vi os meus sonhos parados, sempre tive a certeza que alcançaria os meus objetivos, pois sonhava ser psicóloga.

A segunda gravidez foi seis anos depois. Nasceu a Raquel Semedo, agora com 10 anos de idade. Foi uma gravidez conturbada e conflituosa com o pai dela. Sofri muito durante a gravidez e a minha filha nasceu prematura. Devido à minha fragilidade de saúde, tive muitas complicações durante o parto, foi esforçado o que causou a minha filha um traumatismo craniano.

Três dias depois da alta hospitalar, as nossas vidas tiveram um rumo totalmente diferente, pois vi que a minha filha tinha comportamentos estranhos. Não chorava e nem abria os olhos durante dois meses.

A Raquel começou a ter febre e apareceram manchas vermelhas em todo o corpo. Fomos ao hospital onde ela foi internada e na sequência disso foi descoberto que ela tinha um princípio de meningite bacteriana.

E assim, no decorrer do seu desenvolvimento, ela foi diagnosticada com paralisia cerebral. As sequelas hoje são visíveis, ela tem problemas motores e muitas outras limitações. Ela tem uma certa independência, mas está sempre sob cuidados de todos na casa.

Até aos 6 anos de vida, nunca deixamos as camas e as portas do hospital, a minha rotina se resumia ao hospital, só ia à casa da minha mãe dormir, mas o resto do dia era no Hospital Agostinho Neto (HAN).

A minha filha abriu os olhos pela primeira vez com 8 meses e sorriu aos dois anos e meio.
Abandonei os estudos mais uma vez, mesmo tendo concluído o ensino secundário. Dois anos depois, dentro de grandes dificuldades, muitas portas se fecharam e o pai dela nos abandonou com todas barreiras.
Querendo dar a volta por cima, fui matricular-me no IEFP para formação profissional e tive de adaptar a minha vida à uma nova realidade.

Imaginem uma mãe aos 22 anos sem emprego, sem o apoio do pai da filha, contando somente com a minha mãe e algumas pessoas da minha família. Que vida?!!
Minhas lutas eram diárias, procurei ajudas sem sucesso, mas sempre persistente.
Nunca desisti de ser uma mãe vencedora.

Cada progresso da minha menina, fortalecia a minha vontade de lutar e lutar por ela. Trabalhei três anos num restaurante em Praia Baixo, o meu primeiro passo. E não é que consegui?!

Há cinco anos fomos beneficiadas com uma Casa para Todos e há três anos trabalho no HAN.
Hoje sinto sou uma mãe que mesmo sozinha, não fracassou. Lutei, chorei, me humilhei, mas não entreguei os pontos, sempre estive de pé pelas minhas filhas. Hoje elas são a minha maior fonte de inspiração e luta.

Apelo às mães lutadoras, com filh@s com necessidades especiais: sejamos fortes diante das dificuldades da vida. Tenhamos fé em Deus e na vida, é das batalhas que se vence na vida, nunca deixem de tentar.

Às meninas, estudem, tenham uma profissão e só depois pensem em filhos. Ter uma criança na adolescência vai limitar os vossos sonhos e tornar a vida bem mais complicada em todos os aspetos.

Hoje minha filha está com 16 anos e eu converso muito com ela para que a história não se repita. Cada coisa no seu tempo.”

Este testemunho foi publicado em junho de 2020 e faz parte de um leque de histórias inspiradoras originalmente publicadas na página Sem Tabus.

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