Vamos conhecer a história da Geraldina de Tavares, que sofreu com uma doença que têm sido uma preocupação mundial - a depressão.
Foto cedida

A depressão é frescura (…)? A depressão é uma doença que pode afetar todas as pessoas, homens e mulheres, de qualquer faixa etária, e são múltiplas as causas da mesma.

Quando comecei a ficar deprimida, nem sabia o que era a depressão, para ser sincera, nunca tinha antes ouvido falar desse mal. Só sei que fiquei mal, mal de mim e comigo, mal de e com tudo e todos. Desliguei-me de tudo e de todos, inclusive da minha própria filha (ainda me corta o coração só de lembrar deste triste episódio).
Gritava com ela, por tudo e por nada, na maioria dos casos, por nada mesmo.

Meu Deus, como ainda me dói!! A minha filha, o meu único rebento, vivia assustada.

Se hoje me perguntarem o que levou à minha depressão, certamente não saberei responder ao certo. Foi algo silencioso que, de repente entrou pela porta adentro, sem bater e muito menos pedir licença. Entrou com tanta força que, da noite para o dia, perdi 14kg (e olha que não tenho lá muitos kilos para estar a perdê-los à toa), razão pela qual, mais parecia um esqueleto humano, os meus olhos pareciam maiores que o meu corpo todo.

Procurei uma psicóloga, mas a mesma “transferiu-me” imediatamente para o consultório de um psiquiatra, devido ao alto nível de ansiedade e de medo.

Trancava-me em casa, receber chamadas de amigos era um pesadelo para mim, receber visitas então, nem pensar, era uma afronta autêntica. O escritório que considerava a minha segunda casa, no fundo passou a ser a primeira, queria tudo lá fazer, inclusive dormir ali, era o meu refúgio maior, passou a ser o meu habitat, e muitas vezes ficava no escritório até altas horas da noite. A minha cadela Pitbull que já era a minha melhor amiga, passou a ser a minha psicóloga e a minha confidente. Acredito que, ela sentia a minha dor pela feição que apresentava, sempre que me aproximava dela e ela de mim.

De todos os pesadelos, o maior era o facto de não conseguir dormir se não tomasse os comprimidos (diazepam, lorazepam… etc.) que me “obrigassem” a dormir. A minha casa tinha uma ‘mini farmácia’. Ainda me lembro de me ter terminado os comprimidos, e fui ter com a minha médica para conseguir uma receita, por infeliz sorte, a mesma não se encontrava de serviço. Fui a várias farmácias, (mesmo sabendo que esse tipo de comprimido não se vende sem uma receita médica) pedir, ou melhor, implorar, chorando que me vendessem os comprimidos, sem os quais não conseguia dormir, mas não me venderam porque tinha de apresentar uma receita médica, como é obvio. Dito e feito, essa noite passei, literalmente em claro, não dormi nada.

Mas como diz o velho adágio, há males que vêm por bem e a minha depressão veio por bem. De uma mulher frágil, que tremia por tudo e por nada, tornei-me numa mulher forte e ‘balenti’. Eliminei do meu dicionário tudo e todos que possam tirar a minha paz. Prometi a mim mesma, nada de estar cabisbaixa, nada de reclamar e muito menos murmurar.

Passei a frequentar o ginásio e, no meu primeiro dia, não conseguia levantar uma barra (sem peso, kkakakak), os meus amigos que me apoiaram nesse processo, ainda gozam comigo: Gé bu sta lembra quando bu binha li, magraaaaaaaaaaaaa, nem barra bu ka podia labantaba?

Inscrevi-me num curso de mestrado, para ocupar o meu tempo, deixando de pensar em asneiras, e resultou.

Deixei de engolir os comprimidos e passei a “mastigar”, deliciosamente e com prazer, as palavras sagradas. Como sempre digo, eu sou a ovelha número 100, (parábola da ovelha perdida -Lucas 15). O meu Deus que fez os céus e a terra, escalou montanhas e removeu todas as barreiras só para me resgatar. Tirou-me as amarras, e deu-me asas de liberdade. Encheu-me de esperança e de forças. Tirou-me das trevas e levou-me para luz. O Altíssimo abriu-me as portas e alcancei a liberdade, liberdade que tanto almejava.

Não, a depressão não é e nem pode ser uma frescura. Como pode ser frescura o facto de não cuidarmos de nós? Como pode ser frescura, não querer ficar bonita/apresentável? Como pode ser frescura pegar no primeiro trapo que nos estiver à frente e cobrir o corpo? Comer só por comer, as minhas refeições já não tinham mais sabor. Com muito ou pouco sal, pouco me importava, o meu paladar já não funcionava, logo eu que adoro degustar… O meu olfato deixou de reagir, logo eu, uma pessoa que consegue sentir, ao longe, os aromas da vida.

Será frescura a dor que assola o peito, assim do nada? Será frescura chorar por tudo e por nada? Será frescura abandonar o seu lar, abandonar a sua filha e dormir em casa de alguém? Não, não é, de todo.

Suicídio é uma das maiores causas de mortalidade em todo o mundo. Segundo a OMS (2014), a cada 45 segundos ocorre um suicídio em algum lugar do planeta e a depressão configura-se como fator de risco para a prática de atentar-se contra a própria vida. A depressão é um problema gravíssimo e que, infelizmente não tem merecido a devida atenção. Focamos muito nas políticas de combate e prevenção ao suicídio (muitas vezes, nem isso) quando devíamos era cortar o mal pela raiz, dado que a depressão se encontra-se na base de larga maioria dos casos de suicídio.

Não te esqueças, a força de vontade move montanhas. Não há comprimidos que possam substituir a tua força de vontade.

Se estás a passar por um mau momento, acredita em ti, mais do que em comprimidos, mas sobretudo entrega todas as tuas preocupações, todo o peso ao Poderoso que, ele vai te fazer descansar. Afinal, tudo passa debaixo do Sol, já dizia o rei Salomão”.

Este testemunho faz parte de um leque de histórias inspiradoras originalmente publicadas na página Sem Tabus.

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