Vamos conhecer a história da Jamira Dias, que relata o percurso de superação depois de um acidente que lhe tirou a mobilidade aos 10 anos.
Foto cedida

Até aos meus 10 anos, tive uma infância super normal. Até que, no dia 25/11/1995, brincando em cima do passeio, veio um carro para cima de mim. Lembro-me muito bem que nesse dia eu tentei lutar pela minha vida, subindo as rochas que lá se encontravam, mas o carro foi mais rápido, amputou minhas pernas.

Era apenas uma criança de 10 anos. Fiquei 1 semana no Hospital Batista de Sousa, depois fui evacuada para Portugal. Chegando lá vi que não tinha as pernas, mas a dor era tanta que sendo criança nem me apercebi da real situação.

Fiquei meses internada, após feito todos os tratamentos, comecei outra etapa, uso das próteses …tudo era novo! Próteses?! Foi um processo super difícil. Mas criança acostuma rápido! Dizem…até hoje estou em fase de adaptação!

Cresci e, com o meu crescimento veio também o preconceito, meu próprio preconceito.

Ir à praia, piscina, viagem de finalistas, nem pensar, o que os meus amigos iriam pensar se me vissem sem as pernas? Não queria ver olhares de piedade sobre mim, nunca, jamais. Deixei de fazer tudo o que eu queria, porque tinha preconceito sobre a minha deficiência. Porque dava-me medo o que os outros iam pensar.

Entrei para a faculdade, consegui uma bolsa de estudos, estava indo tudo tão bem, até que em Julho de 2009, fui submetida à uma nova uma cirurgia as pernas e parei os estudos.

Voltar ao passado, deu cabo de mim, voltar a estar numa cama de hospital depois de tantos anos, deu cabo do meu psicológico. Agora tudo era diferente, já era uma adulta.

Da cirurgia até à adaptação das próteses foi a pior coisa que me aconteceu. Ficaria meses sem usar as próteses, meses confinada em casa, meses sem ver ninguém, e se fossem lá em casa, metia-me no quarto. Comecei a entrar em depressão, tinha pensamentos que hoje tenho até vergonha de lembrar.

Em agosto de 2010, decidi regressar a Cabo Verde, simplesmente porque queria.
quando meto uma coisa na cabeça… Jesus Cristinho! Assim fiz, sem nenhuma expectativa de vida, sem trabalho e sem terminar o curso.

Passei 1 ano em São Vicente procurando trabalho para dar continuidade aos estudos, tudo em vão, porque o nosso físico é para os empregadores o nosso “Curriculum Vitae”, que a qualquer momento irá falhar. Não queria redondamente regressar para Portugal.

Tentei a Cidade da Praia, pedi boleia num barco (não tinha dinheiro para o bilhete), fiquei em casa do meu primo/irmão Manú. Chegando lá, já no outro dia conheci a Joana Almada, que me convidou a ir ver os ensaios do Grupo MON NA RODA.

Gente do céu…mancos a dançar, meu queixo, tudo em mim caiu. Espera lá mas, não lhes vou dizer qual é a minha deficiência, e se gozarem comigo como estão a fazer um com o outro ( no grupo existe essa brincadeira).

Religiosamente, eu assisti a todos os ensaios por três semanas. O convite era constante para entrar para o grupo. Mas como dançar? O grupo fez um espectáculo na Rua Pedonal e na hora disse “sim” à Miriam e ao Flávio.

Comecei os ensaios, tirava as próteses, só quando ficava com o meu par o Flávio. Os nossos ensaios eram assim, com portas fechadas. Quando dei por mim, ele já tinha as portas todas abertas. Gente eu estava feliz da vida. Dançando!! Pode isso?! Sentia-me leve. Sorrisos para todo lado. São coisas normais, eu sei disso (escrevendo até choro).

Entrei também para o Comité Paralímpico de Cabo Verde, ganhei muitos prémios, inclusive fui à primeira mulher cadeirante a ganhar a corrida São Silvestre, organizada pelo o Grande Orlandinho Mascarenhas.

Gente quase que esquecia, e aquele banho de mar?? 16 anos depois entrei no mar, com roupa e tudo junto com Idélio Mendes. Lembro-me que gritei-lhe: Idélio, a agua é salgadaaaaa. Calma pessoal, sei que a água do mar é salgada… foi apenas o efeito da felicidade.

Estudei, comecei a trabalhar, fui morar sozinha. Em 2017, apaixonei-me pelo amor da minha vida, temos uma filha linda, hoje com 15 meses.

Apaixonei-me pela dança, pela vida, pelos prazeres que ela nos dá, coisas simples, tudo através do Grupo MON NA RODA. A dança provoca uma sensação de liberdade, permitindo-nos soltar de sensações negativas.

Este testemunho foi publicado em novembro de 2020 e faz parte de um leque de histórias inspiradoras originalmente publicadas na página Sem Tabus.

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