Histórias na primeira pessoa: Lay Sequeira

Este testemunho faz parte de um leque de histórias inspiradoras originalmente publicadas na página Sem Tabus.

Meu nome é Lay Sequeira. No início deste ano (2020) eu tentei suicídio. Vinha de uma depressão profunda, pesando 110 quilos, e sem esperança em fazer ou ser nada.

Minha tristeza, que levou a depressão, foi sendo construída ao longo dos anos, devido a um acumulo de situações as quais nunca procurei encarar e tratar. Sempre me exigi e acreditei ser exigido de mim ser forte, aguentar, superar. Tudo com um sorriso na cara. E com isso fui enterrando as mágoas. Fingindo que não existiam.

 

Fui vítima de abuso sexual dentro da minha própria casa. Minha família não assumiu essa anormalidade. Cresci num “lar” conturbado e fui desenvolvendo neuroses que nunca cuidei. Para isso usei muitas vezes as paródias, o álcool, os excessos, e também a compulsão alimentar, me entupindo de comida para fugir de minha realidade.

 

Fui navegando pela vida como pude. Em 2008 perdi minha grande referência, minha avó. 8 anos depois minha mãe falece, me deixando sem chão.

 

Pensando que estava lidando bem com essas perdas fui levando os dias, sufocando as emoções. Comendo, me afogando em mim mesma.

 

Comecei a entrar em declínio, com burnout laboral agregando mais sofrimento. Eu não estava bem, meu ambiente de trabalho estava tóxico… Comecei a comer mais, o cabelo começou a cair formando carecas em meu couro cabeludo – conhecido como alopecia. Comecei a ter vários sintomas físicos, que eu não entendia. Taquicardia, hipertensão, enxaquecas com aura que me faziam perder a visão por vezes. Ataques de pânico começaram a fazer parte da minha rotina. Sentia um medo irracional, do nada. Me paralisava.

 

Pensando ter algo grave, como cancro, me consultei e minha medica diagnosticou depressão. Entrei em baixa médica e comecei a fazer medicação pesada, que me fazia uma zombie, sem vontade própria, sem dor, sem alegria. Dormente.

 

Me vi infeliz, gorda, me afundando em minha dor cada vez mais, sem esperança. Foi aí que decidi que a única solução era a morte. E tentei contra minha vida. Era o fim.

 

Mas alguém lá de cima ainda acreditava em mim. Dentro de mim, do resto de amor que ainda lá habitava pedi socorro. Vários. Uma amiga me estendeu a mão. Era psicóloga.

 

Me disse que por me ver em desespero íamos começar a fazer sessões semanais. Mas que teria de ponderar deixar de usar remédios. Eu já estava viciada nos medicamentos há 7 meses. Drogas aditivas e que me sustentavam para não sucumbir.

 

Em Dezembro de 2019 começamos. A primeira sessão foi tão estranha e nas seguintes só queria desistir. Inventava desculpas mas ela não estava disposta a me deixar ir. Sabia que eu corria risco.

 

Já tinha voltado a trabalhar e ia mudar de departamento em Janeiro. Os meses seguintes foram incertos. Tivemos COVID a ascender, confinamento, mundo incerto. Enquanto isso continuava no meu processo doloroso! Reviver todos meus traumas… e me ajustar numa realidade toda perturbada.

 

Cada sessão falava de uma camada de mim. E minha psicóloga me ajudava a me questionar, a me ver.

 

Em Março, Abril decidi deixar a medicamentação. Então, para além de reviver minhas dores tinha que fazer também o desmame dos remédios. Significava passar por um período de abstinência com todos os efeitos físicos que isso traz.

 

A cada semana eu ganhava lucidez sobre mim mesma, vendo o porquê de meus comportamentos, minhas escolhas, mais confiança em mim e na vida ia ganhando. Eu estava a me conhecer novamente. Sob outra perspetiva. Tendo o mesmo olhar de amor que tinha só para os outros para mim mesma. Via o quanto de expectativa tinha, o quanto exigia de mim e dos outros e como isso me prejudicava. Percebi que andava sempre com as perguntas: porquê eu, o que fiz? Tinha a certeza que tudo era injusto ou que o mundo me devia algo. Esses pensamentos só me mantinham presa, agoniada. Comiam-me a alma.

 

Consegui me manter firme e me livrar dos remédios. Minhas asas começaram a se soltar. Através do poder das palavras. Falar, com verdade, comigo. Me despindo de todas minhas armadilhas mentais.

 

A terapia me fez enfrentar a mim mesma de frente. É um processo que leva seu tempo mas super necessário. O caminho nós que fazemos mas ter um guia facilita muito o raciocínio, o rumo que damos.

 

Num outro estado mental pude me abrir para outros problemas que carreguei. Me reabilitei mentalmente. E fisicamente encontrei uma ferramenta também terapêutica. Perdi 25 quilos em 4 meses. Recuperei o gosto pela vida. E o que faço agora é me questionar, o que mais posso ser? Quão alto posso voar?

 

E sigo querendo dar a mão a quem tb desacredita de si, a quem se conformou com uma única versão pálida de si mesma, mas que sabe que há um potencial enorme a ser explorado. Há um caminho para esse potencial. Há sempre solução, não desistamos de nós mesmas.

 

Grata por esta oportunidade de partilhar um pedaço de mim, fiquem à vontade para comentar, me contactar, e principalmente procurar ajuda sempre. Há quem vá nos ouvir.

 
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest

Deixe um comentário

Follow Us