Este testemunho faz parte de um leque de histórias inspiradoras originalmente publicadas na página Sem Tabus.
Foto cedida

Chamo-me Onildo Fernandes, mais conhecido por Duko e tenho 27 anos. Vou falar um pouco da minha história de vida.

Sou um rapaz com deficiência que muitos chamam de “anão”, porque tenho pouca altura, mas quem me conhece, sabe que não sou anão. Tenho uma deficiência nos braços e nas pernas, porque não tenho joelhos.

Quando nasci, a minha mãe disse que ela e todas as outras pessoas que me viam choravam porque eu não ia conseguir andar, nem comer com as minhas mãos, mas, graça a Deus, comecei a andar com apenas 8 meses.

No meu bairro ninguém me vê como uma pessoa com deficiência, o que me deixa ‘super’ tranquilo.

A minha vida nunca foi fácil por causa da minha deficiência, mas sempre tive a ajuda das pessoas próximas de mim.

Por causa da minha deficiência fiz uma pequena viagem para a Alemanha no ano 2000, porque queriam que fizesse um tratamento para colocar próteses, mas não aceitei porque já me sinto confortável. Eu nasci assim e vou morrer assim do mesmo jeito que sou.

Já sofri bastante por causa da minha deficiência e às vezes me senti muito mal.

Tudo isso aconteceu durante os primeiros anos do ensino primário e secundário, porque os alunos andavam atrás de mim a rir, faziam bullying por causa da minha altura e aspeto físico. Isso causou-me muito insegurança. Tinha muito medo de dizer para uma rapariga que gostava dela, porque sempre que isso acontecia, elas rejeitavam-me. Com muita coragem e força eu comecei a ultrapassar isso.

Mesmo com a minha deficiência, comecei a fazer coisas que todos achavam que era impossível.

Tudo começou com as aulas de Educação Física. Foi quando a minha vida na escola começou a ficar mais interessante, porque praticava todas as modalidades e todos ficavam surpreendidos.

Passei a ser o “menino bonito e querido” da turma e do liceu. Durante esse período começou a minha vida amorosa, que foi e continua a ser especial, matando curiosidade das pessoas (risos).

Terminei o ensino secundário e comecei à procura de apoios para continuar os estudos, mas nunca consegui.

Um dia, a minha mãe disse-me: “Filho, vamos para a Câmara Municipal pedir apoio”.

Quando fomos lá, eles nos disseram que para ter pensão social tinha que entregar alguns documentos. Um desses documentos era uma declaração a dizer que eu não tinha condições de trabalhar. Eu nem respondi, simplesmente sai de lá.

Ao caminhar, disse à minha mãe com  o olhar cheio de lágrimas: “Não te preocupes, ainda vou encontrar um trabalho e vou cuidar de ti, antes de morrer”, que era um dos meus sonhos.

Depois de participar numa atividade do Comité Paralímpico, conheci uma menina de nome Joana Almada e ela fez-me um convite para participar num desfile de moda inclusiva. Nem pensei duas vezes e respondi que sim.

Durante o ensaio conheci “os mancos da minha vida”: Titico, Flávio, Marco, Andreia Mauro e Neusa.

Quando desfilei pela primeira vez, senti uma pressão, mas graças a Deus deu tudo certo, e lá já vão três desfiles no Modelin.

Depois aconteceu o que eu já estava há tanto tempo à procura e o que eu já tinha prometido à minha mãe – o meu primeiro emprego.

Fui convidado pelo senhor Antero Freire para trabalhar na empresa dele (TEI), só tenho que lhe agradecer por tudo e que Deus lhe abençoe.

Comecei a trabalhar a 16/01/2019 e tive que morar na Cidade da Praia com o meu irmão, que desde sempre fez tudo por mim e continua a fazer, ele é como um pai.

Em 2020, tive o grande privilégio de entrar no grupo de dança Mon Na Roda, que só tenho a agradecer por tudo mesmo.

A pergunta que as pessoas me fazem diariamente é: Como é que eu consigo fazer tantas coisas surpreendentes e como consigo ter relações sexuais ? Consigo como a maioria das pessoas, é só ter força de vontade e para fazer sexo também basta ter vontade e a outra pessoa também. Assim como todos os “mortais”. “

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