Este testemunho faz parte de um leque de histórias inspiradoras originalmente publicadas na página Sem Tabus.
Histórias na primeira pessoa: Patrícia Silva
Foto cedida

O meu nome é Patrícia Silva, sou Socióloga e Professora. A ‘peste’ da Miriam anda a perseguir-me para que eu fale da minha relação com o meu cabelo. E eu agradeço, por este bullying pois é sempre bom falar das coisas como elas realmente são.

Desde pequena a minha relação com o meu cabelo foi sempre muito conflituosa. Algo que só terminou quando fiz 30 anos e decidi que nunca mais iria colocar químicos no meu coro cabeludo.

A minha infância decorreu durante os anos 80 e nessa altura as famílias cabo-verdianas não sabiam como lidar com o cabelo crespo. Atenção crespo. Cuscuz. Cabelo bedje hein! Não cabelo cacheado, minha gente. E a minha família não era exceção.

Por isso ouvi estas expressões referindo-se ao meu cabelo desde cedo e sei que não era por maldade pois eu era o “xodó” lá de casa. E ainda sou.

Mas infelizmente a minha família não sabia como lidar com um cabelo tão rebelde! Então, era um sofrimento e um momento nada agradável para me pentear. Até hoje sinto dor no coro cabeludo se me tocarem com o mínimo de força.

Aos 8 anos, fui viver nos Estados Unidos e realizaram o meu sonho: alisaram o meu cabelo. Cheguei em casa e quase que ficava com o pescoço torto quando os meus irmãos me chamavam.

À medida que fui crescendo e de tanto ouvir expressões negativas acerca do meu cabelo, acabei incorporando as mesmas no meu discurso. Assim, quando as pessoas elogiavam o meu cabelo, sabotava-me logo de seguida respondendo: “Não! O meu cabelo é “mau cabelo”! Está assim porque está alisado”.

Assim vivi até aos 29 anos. Alisando o cabelo 1 vez por ano. Depois de 6 em 6 meses. De 3 em 3. Até chegar ao ponto de alisá-lo 1 vez por mês. Pois não podia nem pensar ver cabelo “crutxu”/bedjo! Era como cometer um crime!

Já alisei mesmo desconfiando que o produto estava com uma cor estranha e ele caiu logo de seguida. Coloquei todo o tipo de desfrizante da moda!

Uma pressão social e autoimposta que culminou em enxaquecas horríveis e num cabelo estragado, podre e sem vida.

Um dia acordei decidida! Fui a uma cabeleireira e “deitei tudo no chão”. Ela ficou tão contente porque já não aguentava andar a tapar os buracos que eu tinha no coro cabeludo.

Ganhei coragem e resolvi fazer o meu locks. Agora que as coisas complicaram. Para os outros, claro!

As pessoas perguntavam-me se era porque eu não gostava de pentear e eu respondia: sim, nunca gostei de pente!

Ou se estava a seguir a cultura rastafári. E eu respondia a brincar: eu adoro carne!

Se eu não tinha medo de piolhos? Se o teu cabelo não tem piolhos é porque o meu não tem também, pois piolhos são altamente contagiosos!!

Se eu não tinha medo de perder o emprego… se eu não queria alisar uma parte do meu dread enfim … mas eu estava tão feliz com a minha libertação que finalmente não me importava com aquilo que os outros pensavam!

E é assim que deve ser a nossa relação com o nosso corpo, com aquilo que pensamos, com o nosso cabelo, testa grande, “polpa”, “cadera” grande, pés e seios grandes, nariz e lábios grossos ….etc. e tal… uma relação de liberdade. De aceitação daquilo que é nosso. Do nosso lar. Uma relação de amor.

Durante todo aquele tempo eu estava tentando me enquadrar num ideal, ou padrão de beleza que não me incluía. Eu estava a passar por aquilo que os antropólogos chamam de processo de branqueamento. Processo esse muito contraditório no nosso país. Pois vamos à praia para ficar com a pele morena. E eu sempre fui chamada de branca aqui em Cabo Verde até descobrir que era “preta de merda” quando fui estudar em Portugal.

No dia em que começarmos a estudar estas contradições vamos nos surpreender.

Hoje tenho saudades do meu dread. Resolvi cortá-lo porque acredito em energias, precisava renovar e deixar uma grande perda no passado.

Mas cá entre nós foi porque o dread estava a enfraquecer a minha raiz, ou seja, estava a ficar careca!

Hoje tenho orgulho das minhas raízes e do meu cabelo, pois representam aquilo que eu sou: africana de cabelo ‘cuscuz/bedjo’.

Obrigada à pagina Sem.tabus por partilhar este bocadinho da minha história”

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