Vamos conhecer a história da Vacy Chantre, que teve uma experiência que é recorrente nos hospitais, mas muitas mulheres não têm coragem de denunciar.
Foto @Vadu Rodrigues / página Sem Tabus

Chamo-me Vacy Chantre e vou contar a minha história.  

Tive uma gravidez super saudável e sem enjoos. Fazia o controlo todos os meses como recomendado e sempre com o mesmo médico que era o ginecologista. Ele me seguia há anos. Eu era muito ativa e me sentia bem. 

O meu sonho era ter um parto natural, sentir a dor. Ninguém me avisou que eu poderia sentir uma dor pior, insuportável. 

Tudo começou a mudar quando fui fazer a última ecografia. Segundo o diagnóstico, o meu filho tinha no mínimo 4kg, e isso me causava dificuldades respiratórias. 

Realmente, eu tinha uma barriga enoooorme mas eu me sentia muito bem, estranhei aquele diagnóstico e segundo o qual, teria de fazer o parto cesariana de urgência naquela mesma noite. 

Eu tinha que escutar o médico, assim o fiz. 

Fui internada naquela tarde, fizeram todos os preparativos para o parto e aguardei.

Chegou a hora! Aquela sala estava tão fria, e logo fiquei constipada…

Deram-me uma anestesia epidural e não fez efeito nenhum, continuava a sentir o meu corpo. Resolveram me dar outra, assim o fizeram. 

Comecei a sentir parte do meu corpo dormente, mas não todo o corpo. Mesmo assim começaram a cirurgia. 

A dor era insuportável, me sentia uma “porca” naquela mesa de cirurgia, eu gritava de dor, e gritava, e gritava. Senti tudo, toda a dor, comecei a respirar muito mal e me puseram aquela máscara de oxigênio. Com a qual eu respirava pior, tive que mexer até tirar aquela máscara, e assim respirar melhor.

Dentro de mim dizia: Tenho que aguentar esta dor pela vida do meu filho. Assim tentava me acalmar até a próxima “facada”. Mais dor e que dor…

Enfim meu filho nasceu, com 3.300kg, não chorou e eu só perguntava o porquê de ele não chorar. Pediram para eu ter calma. Fizeram os procedimentos e logo que o ouvi a respirar, senti-me aliviada.

O meu filho estava a salvo, agora faltava eu ser salva. A dor continuava, sem solução deram-me uma anestesia geral, a terceira daquela noite. 

Acordei numa cama ao lado da sala de cirurgia horas depois, com o meu filho entre as pernas.

Fui para o quarto, tudo parecia tranquilo, mas não, não estava. Deram ao meu filho uma solução que fazia com que ele não sentisse fome. Isso durou dez horas, os meus seios incharam o dobro do que já estavam. Eu tinha muito leite, o que começou a causar-me dor, até que o meu filho começar a mamar, sofri. Mas como ele não mamava muito, decidi doar leite materno para o banco de leite. Fi-lo todos os dias enquanto estive no HAN.

Com o filho amamentado, a anestesia deixava de fazer efeito, comecei a ter uma tosse sem explicação, a cada vez que tossia, doía-me os pontos. 

Chamei a enfermeira e disse o que se passava. Ela respondeu que iria chamar a médica que estava de serviço. Como a médica demorou para chegar, chamei outra vez a enfermeira e ela me respondeu com um tom agressivo, que a médica não iria demorar, mas nunca mais chegava.

Levantei-me da cama, com toda aquela dor, e fui à enfermaria implorar para chamar a médica. Adivinhem? Ela estava sentada a ver a telenovela. Isso indigno-me, mas não disse mais nada. Foi uma noite difícil onde eu pensava: E se os pontos arrebentarem por causa da tosse? 

Chegou a hora da medicação, a mesma enfermeira veio me medicar e neguei-me alegando que precisava de uma profissional competente para fazer aquilo. Começou a gritar comigo que iria dizer ao médico e disse para ela:

– Eu nunca disse que não quero ser medicada, só que não será administrado pelas tuas mãos.  

Ela não respondeu e foi embora. Chegou uma outra enfermeira que me deu o medicamento. Não tardou que o meu ginecologista chegasse. Relatei o que tinha acontecido naquela noite e ele me receitou uma “bombinha” (para ajudar na respiração).

Naquela manhã passei de uma pessoa saudável para uma pessoa asmática. Mas como!?

A verdade é que ao entrar naquela sala fria fiquei constipada. Por causa das três anestesias, corri o risco de ficar paraplégica ou mesmo de morte. 

Do que pesquisei, a asma surgiu porque tenho rinite e não se deve administrar anestesia geral quando uma pessoa está constipada porque pode interferir e fechar as vias respiratórias. Fiquei viva graças a Deus, mas tenho muitas sequelas.

Dois anos depois, estive em coma por causa de uma parada respiratória causada por uma crise severa de asma. Estou viva e me cuido muito, tomo muitos medicamentos para poder estar bem e cantar, o que amo fazer. 

E adivinhem quem fez o meu parto? O meu médico ginecologista que me seguiu a gravidez inteira. Fui a última de 12 partos daquela noite. O único que não correu tão bem como os outros.

Agora depois de 8 anos, me sinto bem melhor e sei controlar aquela que se tornou uma doença crônica.  

Essa é a minha história. Não culpo ninguém pelo que aconteceu.  Aprendi a aceitar minha condição e me cuidar sempre.

Este testemunho foi publicado em agosto de 2020 e faz parte de um leque de histórias inspiradoras originalmente publicadas na página Sem Tabus.

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