“Isto não é um conto de fadas e nunca será”, diz modelo de origem cabo-verdiana Carla Pereira

Entrou no mundo da moda por acaso há oito anos e hoje tem um portfólio onde constam trabalhos para marcas de renome e com passagens pelas grandes semanas europeias da moda. Em entrevista ao Balai, a jovem de 23 anos, que em 2023 foi eleita Modelo do Ano em Portugal, diz que “o mundo da moda é de rejeições, ilusões e aparências.”

Apesar de ter um corpo esbelto e medir 1.80m, a moda nunca foi sequer uma opção para Carla Pereira, uma modelo filha de pais santiaguenses nascida e radicada em Portugal, onde começou a sua carreira aos 15 anos.

“Entrei para a moda há oito anos após um amigo desafiar-me a participar do concurso Karacter Model Tour. Participei sem muitas expectativas até porque eu era maria-rapaz e na minha cabeça uma modelo tinha que ser feminina”, conta e acrescenta que na altura tinha a autoestima baixa.

Apesar de ter entrado no concurso de última hora, Carla ganhou um passe direto para a final, venceu e permanece na agência até hoje. “Como prémio ganhei uma viagem para Milão.”

Segundo a modelo, o concurso foi uma mais-valia na sua vida, uma vez que teve acesso a ferramentas fundamentais. “Eu era uma pessoa tímida e tinha dificuldade para desenvolver um tema com outras pessoas. O concurso foi uma mais-valia para mim porque quando fiz o bootcamp consegui testar os meus limites e as minhas capacidades.”

De Portugal saltou para as grandes capitais europeias da moda e diz que “foi um pouco difícil” conciliar os estudos com as passarelas. “(…) estudava em aviões e hotéis, consegui terminar o 12.º ano, mas houve momentos em que pensei em desistir. Foi muito trabalho e na altura era uma adolescente e não tinha a maturidade que tenho agora.”

Com um interregno que já se prolonga há seis anos, Carla ainda sonha em regressar aos estudos e licenciar-se em Psicologia, uma área que gosta. “Vejo-me a fazer mais coisas para além da moda. Tenho outros objetivos em mente e isso depende de como a moda fluir, como as coisas acontecerem. (…) Mas gostava muito de voltar a estudar e ir para a universidade.”

Moda, um mundo de aparências

Ao longo desses oito anos de carreira, Carla Pereira já trabalhou para várias marcas como Givenchy Beauty, Lancôme, Adidas, Zara, H&M, Massimo Dutti, MAC e Sephora.

Em 2023, a manequim foi escolhida para ser o rosto mundial da marca Dior Haute e em novembro foi eleita a Modelo do Ano em Portugal, um prémio que, segundo diz, representa o seu esforço, dedicação, todas as noites mal dormidas, as viagens, os trabalhos e as coisas que teve que abdicar. Mas o percurso nem sempre foi fácil.

Já presenciei e já fui vítima de racismo. (…) Eu sei que tenho um ‘privilégio’ que muitos não têm, as pessoas acham que sou mestiça e não sou, os meus pais são ambos pretos. (…) Por várias vezes já escutei que por ser preta até sou bonita. Nem sempre foi fácil lidar com o nosso tipo de cabelo, mas agora está melhor. Às vezes não temos acesso aos mesmos tratamentos que os outros, e é triste”, conta e acrescenta que na altura não falava do assunto porque tinha receio de prejudicar a sua imagem.

De acordo com Carla, o racismo ainda é frequente na indústria da moda, só que não é falado com tanta frequência.

“Não está como quando comecei, mas ainda há um caminho longo. (…) Agora estamos na era da inclusividade, mas ainda há muito por fazer. Não adianta só pôr pessoas negras nas campanhas, nós continuamos a sofrer na parte de trás”, diz e acrescenta que é preciso falar mais sobre o assunto e ser empático.

A modelo também chama a atenção para a saúde mental. “O mundo da moda é de rejeições, ilusões e aparências. Parece que está tudo bem, mas nem sempre está. É bom questionar os outros se está tudo bem. (…) Nunca sabemos o que o outro está a passar. Isto não é um conto de fadas e nunca será. É muito relevante sermos humanos acima de tudo. Eu acho que às vezes falta essa parte, ter essa dose de empatia.”

A manequim aconselha à nova geração a ser fiel a si própria e a deixar as comparações de lado. “Nós somos únicos da forma que somos, a nossa vocação está dentro de nós e é o que nos distingue do outro. Acho que somos especiais e é importante não fazer comparações. Como disse a moda é um mundo de aparências, tenham orgulho da pessoa que são. E o resto vem depois desde que trabalhem e deem o vosso melhor.”

Questionada sobre ambições para o futuro, a modelo diz que em termos profissionais sonha em ir mais longe na carreira, mas frisa que não há uma marca em específico que pretenda trabalhar. “Quero o que a vida tem para me oferecer.”

A nível pessoal a modelo diz que está a trabalhar para ser uma pessoa melhor no futuro. “Quero olhar-me no espelho e dizer que estou orgulhosa da pessoa que vejo porque cumpriu com todos os objetivos.”

Este ano a manequim pretende visitar Cabo Verde, país que diz que está sempre presente na sua vida. “Quando era mais nova tive uma crise existencial, não sabia o que eu era portuguesa ou cabo-verdiana. (…) Cabo Verde é a minha identidade”, diz e acrescenta que a sua comida preferida é o feijão congo e adora a música cabo-verdiana.

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