Jovens criam projeto “Labanta Mudjer” para levantar a autoestima das cabo-verdianas que mais precisam

Jovens criam projeto “Labanta Mudjer” para levantar a autoestima das cabo-verdianas que mais precisam

Aracy Sanches resolveu criar o projeto “Labanta Mudjer” após notar na sua infância que as mulheres da sua família priorizavam ajudar os próximos deixando de lado o autocuidado.

Natural da cidade da Praia onde reside atualmente, a jovem cabo-verdiana Aracy Sanches, mais conhecida por Kellen, de 28 anos, trabalha como maquiadora, designer de unhas e cabeleireira. Em 2023 tornou-se proprietária de um salão de estética e beleza. Em entrevista ao Balai, a jovem conta que a iniciativa de implementar o projeto “Labanta Mudjer” surgiu a partir deste salão e com a colaboração da amiga Kátia Santos.

Ao longo da sua infância, Kellen notou que na sua família constituída por mulheres batalhadoras estas estavam sempre a cuidar dos outros, mas esqueciam-se de se cuidar. “É o exemplo da minha mãe, é uma mulher muito trabalhadora, sempre a cuidar dos filhos e entes queridos mas esquecia-se de cuidar de si. Então, decidi que iria criar um projeto para ajudar as mulheres que não têm o hábito de se autocuidar”.

Kellen conta que os anos se passaram e dedicou-se a fazer estudos online na área de estética e começou a praticar em si as técnicas aprendidas e com o decorrer do tempo adquiriu experiência e habilidades sendo hoje em dia uma profissional nesta área.

“Atualmente, sou a única pessoa da minha família que está ligada a esta área e com muita dedicação e fé eu consegui realizar o meu sonho de infância de ser esteticista. No dia 10 de janeiro de 2024, apresentei oficialmente o projeto “Labanta Mudjer” ao público, nas redes sociais”, complementa.

Conforme explica, o projeto está direcionado para as mulheres cabo-verdianas trabalhadoras com o objetivo de ajudar a resgatar a autoestima destas mulheres, que passaram dificuldades ao longo das suas vidas, a partir do autocuidado com tratamentos de beleza e apoio psicológico.

A jovem lembra que antes de oficializar esta causa já tinha desenvolvido trabalhos à volta deste projeto. Há três anos, no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, Kellen levou o projeto “Labanta Mudjer” para o mercado do Platô, com o objetivo de maquilhar algumas mulheres do mercado. A iniciativa foi vista de forma positiva e acabou por maquilhar 25 vendedoras.

“Foi um momento emocionante de ver aquelas mulheres com o sorriso no rosto, foi uma grande festa naquele dia e a partir daí vi que deveria continuar e investir neste trabalho. Então, convidei a Kátia Santos para participar do projeto”, enfatiza.

Kátia Santos, mais conhecida por Katy, é filha de pai santantonense e mãe praiense. Nasceu e cresceu na cidade da Praia, onde atualmente reside e trabalha como produtora de videoclipes e faz management de artistas na produtora Harmonia.

Em entrevista ao Balai, a jovem de 31 anos conta que gosta de apoiar as pessoas e que desde há muito tempo sente que tem um dom de ajudar o próximo. “Sempre digo que a minha missão no mundo é fazer o bem para os outros conforme a minha possibilidade, mesmo sabendo que não tenho condições, sempre faço um esforço para ver o próximo com um sorriso”.

A mesma explica que quando a amiga a convidou para participar do projeto “Labanta Mudjer” aceitou sem pensar duas vezes, visto que é uma causa que gosta de praticar e anteriormente já tinha participado de outros projetos.

De acordo com Kellen, o projeto funciona a partir de inscrições nas redes sociais do “Labanta Mudjer”, em que quem esteja interessado e que conhece uma mulher com um percurso de vida merecedor, deve enviar uma mensagem para a página a contar a história daquela pessoa e depois cada caso é analisado pelas promotoras.

“Os serviços que oferecemos são manicure, pedicure, maquilhagem e penteados, e se encontrarmos um outro salão que possa disponibilizar serviços de estética corporal, limpeza de pele, tratamento capilar, depilação, entre outros, seria ótimo porque, às vezes deparamos com casos em que a pessoa precisa mais do que os serviços que oferecemos”, explica Katy.

Ambas acrescentam que os serviços são prestados na cidade da Praia e no interior de Santiago mas futuramente gostariam de levar o projeto para as outras ilhas e para a diáspora.

Uma mulher beneficiada por mês

Katy adianta que o projeto começou no mês de janeiro e que até agora conseguiram abranger apenas duas mulheres. “O nosso plano é ajudar uma mulher a cada mês. A nossa primeira participante foi em janeiro, uma senhora da zona de Ponta d’Água conhecida por Zelda, que levamos para o programa Show da Manhã e depois no mês de fevereiro foi a vez da senhora Maria, da zona de Paiol”.

Por outro lado, Kellen celebra que estão a receber vários feedback positivos, tanto nas redes sociais como pessoalmente. “Estamos a receber muitas mensagens de ajuda, uma delas é a história mais emocionante de todas, que é uma jovem que está a passar por muitas necessidades e precisa atualmente de ajuda para fazer um tratamento de saúde fora do país”.

Devido ao excesso de mensagens recebidas, neste mês de março o projeto vai ajudar duas mulheres, uma delas vai ser no dia 27, que é o dia da Mulher Cabo-verdiana.

“Ainda o nosso público-alvo são só mulheres, principalmente as mulheres cabo-verdianas porque nós somos sofridas e carentes esteticamente e muitas vezes não temos tempo nem condições financeiras para cuidar de nós”, disse Kellen.

O projeto tem preferência pelas mulheres cabo-verdianas, já que como Katy explica as cabo-verdianas são batalhadoras e dedicam-se mais ao bem-estar dos outros e esquecem de cuidar de si, “mas abrangem mulheres de todas as origens”.

Quanto à faixa etária, as promotoras dizem que é dos 15 anos para cima.

“Temos várias expectativas, mas queremos realizá-los com calma, porque o nosso projeto ainda não tem nenhum financiamento, nós é que arcamos com todas as despesas. Decidimos ir com calma para não arriscarmos fazer promessas e não conseguirmos alcançá-las para depois podermos ser vistas pelo público como uma fraude”, afirmou Kellen.

Esperançosa, Katy salienta que planeiam conseguir patrocínios de lojas para oferecer roupas, calçados e acessórios. “Temos planos de ter mais colaborações de parceiros, porque quando estamos a fazer a transformação da pessoa sentimos que faltam ainda muitas coisas”.

A mesma espera que o projeto evolua e que consigam parcerias diversas, na área da saúde oral, por exemplo. “Também queremos fechar uma parceria com uma psicóloga para acompanhar de perto os problemas mentais que a pessoa já teve ou pode ter”.

Segundo Kellen e Katy, já conseguiram um novo parceiro para abraçar a causa que é o projeto “Cleu Brindes” em que vai acompanhá-las para entregar cestas e brindes de surpresa.

Kellen relata que este projeto é muito interessante, desafiador e sem ganhos financeiros, mas que ambas estão a “lucrar emocionalmente” ao ver a felicidade das pessoas que o projeto ajuda.

“Podemos sentir como é gratificante este trabalho a partir da última pessoa que ajudamos que foi a senhora Maria, que depois do dia de beleza, ficou tão feliz que nos agradeceu com um sorriso no rosto e um grande abraço”, afirma Kellen e salienta que o feedback do público motiva-as a continuar com este trabalho.

A mesma salienta que o objetivo das duas é ver as mulheres felizes porque uma boa parte das mulheres já sofreram muito na vida.

“Quando se celebra o Dia das Mulheres sempre nos oferecem flores, mas por trás destas flores existe muito sofrimento e, várias vezes, não conseguimos expressá-lo por vergonha, por medo ou devido a críticas da sociedade. Sempre somos culpadas pelo que acontece, por isso onde houver mulheres que passam por estas situações, o projeto “Labanta Mudjer” vai estar presente para ajudar”, conclui.

 

Cidália Semedo/ Estagiária

 

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