Kesia Lima: ” Nada é mais satisfatório do que ver as coisas saltarem do imaginário para a realidade”

Este testemunho faz parte de um leque de histórias inspiradoras originalmente publicadas na página D’Alma Kriola.

Kesia Lima é uma jovem arquitecta que reside na Cidade da Praia, Santiago. Em entrevista ao D’ Alma Kriola conta sobre as suas inspirações, anseios e sonhos.

“Identifico-me mais como uma pessoa criativa no geral, a curiosidade e a constante vontade de explorar o que eu consigo fazer com as minhas mãos é o que me leva a estar constantemente a testar na arquitectura e não só. A arquitectura acabou por ser um dos caminhos para aprender ferramentas que me ajudam no processo criativo, muito cedo percebi que não queria ser simplesmente uma arquitecta que projeta edifícios, mas sim, uma arquitecta que desenvolve projectos que transmitem identidade e que proporcionam experiências únicas seja um projecto para uma casa, um espaço para um negócio/instituição ou mesmo um candeeiro, uma tote bag ou um cartaz para um evento”.

1. Como defines a tua alma?

Inquieta… sempre em busca
 de… A minha alma não para, mesmo que fisicamente esteja parada, espiritualmente
estou sempre em algum lugar ou a fazer alguma coisa, quem convive comigo sabe
que facilmente desconecto-me: olhos bem abertos e olhar profundo, claramente estou
em modo “corpo presente”, nestas situações é a minha alma que decidiu pegar
 numa palavra ou numa situação do mundo real e viajar para um mundo
 completamente paralelo.

2. O que te torna autêntica?

Para mim o que me torna autêntica  é a minha curiosidade, vontade de explorar o
desconhecido e o facto de não ser muito fã da palavra “impossível”.
Na arquitectura por exemplo, testei no meu último projecto tudo o que me
 disseram que não iria funcionar, mas foi uma forma de explorar materiais nossos locais menos custosos, mas, também, de perceber as suas fragilidades e investigar
como ultrapassá-las. Faz-me impressão a expressão “porque sempre foi feito
assim” ou “porque todos fazem assim”, e contradizer estes conceitos no meu
dia-a-dia permite-me construir a minha identidade e descobrir todo um mundo
novo de possibilidades.

3. Como defines uma crioula?

Eu acho que o que mais define uma criola é o fazer, é pôr as mãos na massa e fazer acontecer. Ela sai para trabalhar, busca sustento, quer e consegue crescer profissionalmente, mas em casa também é o maior pilar, a maior responsável de todos (ou quase todos) os aspectos que dizem respeito ao lar, pelo menos mentalmente, porque como dizem por aí, ela sempre pode pedir “ajuda” 🙂 . Uma criola não para … pelo menos a maioria das que conheço! Culturalmente sinto que isto é visto como algo positivo e heróico, mas pessoalmente vejo como uma carga física e mental enorme e admiro as que conseguem parar genuinamente sem qualquer peso na consciência e ignorando qualquer tipo de julgamento social.

4. És grata. Porquê?

Eu sou extremamente grata por tudo, desde a minha estrutura familiar que me construiu como pessoa ao meu percurso até hoje a nível pessoal e profissional. Sou grata de desde muito pequenina estar a conceber no meu imaginário o que eu queria ser, fazer e ir esboçando inúmeros caminhos para lá chegar. Nada é mais satisfatório do que ver as coisas saltarem do imaginário para a realidade (e vice-versa).

5. O que te faz feliz?

Cumprir um desafio e fazer algo que nunca tinha feito antes são as coisas que mais me dão satisfação, por mais pequenas que estas coisas sejam.

6. E uma fragilidade?

Na minha opinião, uma fragilidade é ser impaciente e aborrecer-me com facilidade quando as coisas/experiências deixam de ser desafiantes e tornam-se monótonas, tendo alguma tendência em perder o interesse nelas e a mudar o meu rumo. Talvez seja por isso que os meus projectos Kumon sejam tão diferentes uns dos outros e tenho alguma dificuldade em repetir coleções ou mesmo no âmbito profissional onde, após pouco mais de um ano, ter a tendência de mudar de trabalho, excepto na empresa onde me encontro agora onde existe mais dinâmica e uma possibilidade de crescimento maior.

7. Qual é o teu próximo sonho que queres realizar?

O próximo sonho que queria realizar é conhecer o continente Africano! Não me orgulho de dizer que Cabo Verde é o único país em África que conheço e menos ainda quando penso no número de países e continentes que já tive a oportunidade de conhecer pelo mundo afora. Sempre pareceu mais fácil viajar para outros países…Posso dizer que o sonho mais ambicioso é fazer um mochilão pelo continente todo, mas visitar qualquer um dos países por conta própria ou por questões profissionais já me iria deixar super realizada.

Conectar-me com o meu continente parece-me crucial para abrir o meu horizonte e o meu leque de referências e a diversidade cultural será sem dúvidas um boost à minha criatividade, em todos os sentidos mas também na construção da minha identidade.

 

8. Quais são os benefícios que vem trazer para Cabo Verde o teu projeto?

Não posso dizer que tenho um projecto, mas sim, que estou envolvida em vários projectos e o que todos eles têm em comum são as premissas. Em todos os projectos que me envolvo, sozinha ou em colaboração busco contribuir na criação de uma identidade e em criar experiências únicas. Por isso de um modo mais geral quero que estes projetos contribuam para a construção da identidade cabo-verdiana como única, tentando fugir da tendência que muitos temos de ambicionar e querer ser como o outro, utilizando exemplos e referências que pouco tem a ver connosco.  Quero contribuir não só para construção da nossa identidade arquitectónica, mas também contribuir para que esta identidade transpareça no nosso modus operandis e nas experiências que, como cabo-verdianos, proporcionamos cá dentro e lá fora.

 

 

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