Maio Furta-Cor, a campanha que recorda que as mães também necessitam de ser cuidadas

Um número crescente de mulheres que se sentem sobrecarregadas, de mães que acreditam que não estão a cumprir o papel que lhes é imposto socialmente levou com que fosse lançada uma campanha global para falar sobre a saúde mental materna. O Balai conversou com a psicóloga perinatal Maria Dias que trouxe esta iniciativa que surgiu no Brasil para Cabo Verde.

Formada em Psicologia pela Universidade Jean Piaget na Praia e pós-graduada em Psicologia Perinatal, desde 2014 que Maria Dias trocou de área dos serviços penitenciários pela Maternidade no Hospital Agostinho Neto, na Praia.

Foi devido à sua experiência clínica onde se deparou com um número cada vez maior de mães a lidar com questões emocionais que Maria Dias começou a falar mais sobre a saúde mental materna.

Com as suas pacientes trabalha várias questões que afetam a saúde mental materna como a infertilidade, o aborto, “o luto perinatal que é algo pouco falado e que a sociedade não reconhece como perda“, a adoção, entre outros.

A profissional salienta que mesmo quando se trata de uma gravidez planeada há “alguma ansiedade, medo, stress e o que chamamos de ambivalência afetiva”.

De uma forma geral, a mãe é o pilar da sociedade e da família”, diz. Questionada sobre se esta não é uma carga demasiado grande que se impõe à mulher, Maria Dias diz que é justamente por causa de todas as responsabilidades e cuidados que recaem sobre as mães que as mulheres se sentem sobrecarregadas o que causa transtornos emocionais sobre os quais as mães não falam.

“Quando começamos a falar sobre o tema, a saúde mental materna, é justamente para que as mulheres possam legitimar os seus sentimentos e para que procurem algum tipo de apoio. Não só a mulher, mas a sociedade em si. Por isso o lema da nossa campanha é “Cuidar de quem cuida de todo o mundo”. Porque as mães também necessitam de ser cuidadas”.

Na sequência da pandemia, Maria Dias que é psicóloga perinatal acredita que há mais abertura para procurar ajuda profissional na área da saúde mental até porque a própria Organização Mundial da Saúde, OMS, chamou a atenção para o agravamento da saúde mental devido à pandemia.

Maio Furta-Cor pela primeira vez em Cabo Verde

A campanha Maio Furta-Cor surgiu no Brasil em 2021 em plena pandemia. “Houve a necessidade de falar sobre estas questões que já estavam a afetar as mulheres e que durante a pandemia aumentaram. Temos a violência doméstica que aumentou, as mães trabalhadoras informais (que perderam o emprego), a falta de apoio do parceiro, tudo são questões que acabam por afetar a mulher durante a pandemia e que a OMS chamou a atenção”.

Esta é a primeira vez que a campanha Maio Furta-Cor chega a Cabo Verde. Maria Dias conta que travou conhecimento com a campanha pela primeira vez online no Instagram onde tem uma página onde aborda a saúde mental da mulher. “Esta é uma campanha global”, salienta.

Depois de abordar os promotores da iniciativa, Maria Dias tornou-se a representante local da campanha e convidou outras pessoas e instituições para abraçar a causa, sendo que além da psicóloga cerca de 15 pessoas estão envolvidas de forma ativa nesta iniciativa. Até então já foi possível realizar atividades nas ilhas da Boa Vista, Santo Antão e São Vicente, além de Santiago.

Segundo a nossa entrevistada, a ideia é dar continuidade à iniciativa de forma regular, bem como apresentar o projeto a entidades oficiais como o ministério de Saúde, por exemplo.

A ‘romantização’ da maternidade

“Existe um mito de que a maternidade tem de ter uma forma específica e então há mulheres que se sentem inadequadas para o papel de mãe. E como se sentem assim desenvolvem sintomas de ansiedade, stress, angústia, etc.”.

 

Muitas destas mulheres não conseguem sentir o tão falado lado bom da maternidade o que gera um sentimento de inadequação. “Porque há uma romantização da maternidade. Quando estas mulheres vão para a consulta, dizem que não estão a sentir o tal ‘Uau’ e acabam por desenvolver os tais sintomas de stress, angústia, etc.”.

“Por isso a nossa campanha se intitula Maio Furta-Cor porque não existe uma forma única de maternidade, existem várias formas de ser mãe”, refere.

Dados lançados no âmbito do Dia Mundial da Saúde Mental Materna, assinalado este ano a 4 de maio (existe uma petição para a institucionalização da data a nível mundial), mostram que 7 em cada 10 mulheres escondem os seus reais sintomas por causa da “crença de que a maternidade é a coisa mais bonita que existe”, avança a psicóloga perinatal.

A família que temos hoje é uma construção social“, salienta e explica que a maternidade teve mudanças ao longo da história e se antigamente todos cuidavam da criança, existindo altas taxas de mortalidade infantil, foi também com o intuito de reduzir estas taxa de mortalidade que se criou o tal conceito da família “onde a mãe que passou a ser responsável pelos cuidados com a criança e todo o peso foi posto em cima da mulher”.

Outra informação avançada por ocasião do Dia Mundial da Saúde Mental Materna é que uma em cada cinco mulheres pode ter depressão pós-parto.

No decorrer do seu trabalho, a psicóloga diz que constatou que há falta de dados específicos sobre a saúde mental materna em Cabo Verde, mas salienta que atualmente há estudantes universitários de Medicina e de Psicologia em Cabo Verde que estão a fazer estudos sobre o tema.

Estudos e dados específicos podem ajudar igualmente na adoção de leis que promovam a proteção da maternidade. Inclusive, Maria Dias auspicia que para o ano esta campanha tenha impacto a nível de políticas públicas.

“Há um dado que não bate certo, dizem-nos que são seis meses de aleitamento exclusivo, mas em Cabo Verde temos dois meses de licença de maternidade… É uma questão altamente prejudicial para a saúde mental materna, quando a mãe vai deixar o bebé para ir para o trabalho, mas sabe que precisa completar seis meses de aleitamento exclusivo. É uma pressão enorme”, afirma além de salientar que a amamentação também é um processo muito romantizado.

A mulher é mais propensa a ter algum transtorno emocional do que o próprio homem, inclusive a depressão, por várias questões não só pela questão hormonal e biológica, pela questão da violência, por causa da ambivalência afetiva quando se descobre a gravidez. Uma das questões também é a gravidez não planeada”.

Daí que a especialista é a favor do aumento da licença de maternidade e congratula-se com as promessas de alteração da lei (Proposta da Nova Lei de Bases do Emprego Público) com o aumento para os três meses e da licença de paternidade para 10 dias.

Mesmo ressalvando que há países com outro tipo de leis que visam incentivar a natalidade, o que não é o caso de Cabo Verde, Maria Dias salienta que licença de paternidade também legitima a exclusão do pai do processo.

“A parentalidade é uma construção. A mãe e o pai são parceiros, os dois devem estar envolvidos no processo. Quando se dá ao pai três dias de licença de paternidade é como se dissesses que o pai pode estar presente nesses dias e legitimasses que ele pode estar ausente nos restantes. A mulher e o homem têm de ser cuidados nesse momento e ambos têm de estar presentes, pelo menos, nos três primeiros meses para cuidar do bebé que exige muito”.

Outro ponto salientado pela psicóloga é que “o pai não é rede de apoio, mas sim está lá para desempenhar o seu papel paterno (…) ele é um parceiro nessa tríade: mãe, pai e bebé”.

Questionada o motivo pelo qual este papel que deveria caber ao pai é muitas vezes delegado às avós, por exemplo, Maria Dias explica que “a parentalidade é uma construção desde a terna idade” e se as meninas são ensinadas a cuidar, os rapazes são educados para o lazer e para serem provedores.

“Muitas mulheres preferem a ajuda das mães porque dizem que os homens não têm jeito, mas eles podem aprender e têm o seu jeito próprio para cuidar do seu bebé (…) da mesma forma como a mãe está a aprender sobre o bebé, o pai também tem essa necessidade e de ter essa abertura para interagir nessa tríade”.

De uma forma geral, a especialista adverte que a mãe é muito julgada e criticada e recebe muitos palpites o que gera insegurança que por sua vez gera ansiedade, insónias e outras questões.

Mas quais os sinais aos quais se deve estar atento?

Segundo Maria Dias, 50 a 85 por cento das mulheres podem ter o que se apelida de disforia puerperal (normalmente conhecido como baby blues), um período em que a recém mãe pode chorar sem motivo aparente, sentir-se mais triste e insegura e que dura cerca de 14 dias. “Já nessa altura a família tem de estar alerta se os sintomas não passarem”.

Outros sinais como insónia constante ou pelo contrário sono em demasia, muita fome ou falta de apetite, uma mãe que não fala com o bebé, a falta de foco.

Maria Dias salienta que é importante não deixar estas situações chegar a um ponto crónico apesar de saber que “muitas mães não falam para não serem julgadas”, daí que aconselha a família a estar atenta e as mulheres a procurarem ajuda sempre que necessário. “Todos os centros de saúde, as maternidades, todos os hospitais do país têm psicólogos, também pode-se falar com o médico ginecologista, com o pediatra, com uma pessoa de confiança”.

A psicóloga explica que antecedentes de depressão na recém mãe ou na família elevam o risco de desenvolver depressão perinatal (durante a gravidez ou no pós-parto), mas há outros fatores como a violência e a falta de suporte familiar que podem contribuir para um quadro de depressão.

Maria Dias explica que à semelhança do pré-natal, uma consulta de psicologia perinatal serve para prevenir possíveis distúrbios emocionais durante o ciclo (gravidez e pós-parto).

A especialista lamenta que exista ainda muito tabu à volta da doença mental e quando se fala da depressão perinatal é ainda pior, sendo muitas das críticas vêm das próprias mulheres.

“Como diz o nosso lema, só é possível mudar o mundo, cuidando de quem cuida de todo o mundo”.

Em jeito de conclusão, Maria Dias esclarece que a saúde mental da mulher afeta também o feto e que as consequências no bebé podem ser para a vida. “Por isso devemos cuidar porque quando colocamos um ser no mundo é uma sociedade que estamos a construir e queremos que sejam seres saudáveis, em todos os sentidos”.

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