Nereida Lobo reconhece que houve sobrecarga de atividades, mas nega maus-tratos a candidatas do Miss Cabo Verde International

A mentora do concurso disse, em entrevista ao Balai, que foi com surpresa que teve conhecimento das denúncias de ex-candidatas nas redes sociais e diz que, até ao momento das acusações, nenhuma das concorrentes havia manifestado diretamente sobre os alegados episódios de maus-tratos.

A fundadora e organizadora do Miss Cabo Verde International, Nereida Lobo, veio a público reagir às recentes acusações de maus-tratos feitas por ex-candidatas do concurso. Em uma entrevista ao Balai, Nereida reconhece que houve sobrecarga de atividades, mas nega qualquer acusação de maus-tratos às candidatas.

“(…) Houve uma sobrecarga de atividades porque tivemos duas semanas de preparação com uma rotina intensa, mas em nenhum momento foi feito com má intenção”, disse, acrescentando que nem todas as candidatas estavam preparadas mentalmente para o concurso. Na edição do ano passado, a organização contratou uma mentora internacional para dar suporte emocional às candidatas, que segundo Nereida, chegam no acampamento “emocionalmente desequilibradas” devido a traumas do passado. “Muitas vezes em Cabo Verde não se foca na saúde mental.”

Nereida esclarece que houve desmaios de uma das participantes devido a problemas de saúde pré-existentes e com a sobrecarga de atividades, a pressão e a ansiedade acabaram por afetá-la. A mentora do projeto também mencionou o caso de uma candidata que devido a um pequeno acidente teve que ser encaminhada para o hospital. “Reconheço que devíamos ter uma ambulância no acampamento. (…) A saúde sempre foi a nossa prioridade e em nenhum momento mostramos que não estávamos a importar com as candidatas ou que estávamos lá para escravizá-las.”

Segundo Nereida, por ser uma iniciativa nova, a organização enfrenta grandes desafios, especialmente ao tentar atingir um padrão internacional. Com apenas duas edições, a mentora avança que a produção do concurso exige um esforço significativo, tanto logístico quanto emocional, e que a organização está em constante aprendizagem.

“Somos uma plataforma nova e estamos a aprender a cada dia, principalmente com as candidatas que experienciam tudo. O feedback das candidatas é importante, estamos abertos a críticas construtivas. Nenhuma empresa é perfeita, ainda mais temos apenas dois anos de existência”, afirmou, reiterando que o Miss Cabo Verde International não foi criado para desmotivar os jovens, mas sim para inspirá-los.

Acusações de fome e confiscação de telemóveis

Uma das acusações mais graves feita pelas ex-candidatas nas redes sociais foi de que teriam passado fome durante o concurso. Nereida, entretanto, refutou a alegação, e explica que, embora tenha havido atrasos em servir as refeições devido a desafios logísticos e falta de recursos, em nenhum momento as candidatas passaram fome.

“Perguntei às candidatas de 2022 se tiveram 24 horas sem comer, e disseram que não. Houve sim atrasos em servir as refeições”, afirmou, apontando que enfrentou desafios financeiros, com a falta de patrocínios. 

De acordo com a fundadora, em 2022, todos os dias “tirava dinheiro do próprio bolso” para comprar alimentos para as candidatas e houve momentos em que se alimentaram na cantina da Universidade de Cabo Verde, Uni-CV, e num restaurante, tendo este ano terminado de quitar a dívida de 200 contos com o estabelecimento. “Foi um esforço que fiz porque não podiam passar fome.”

Nereida reconhece que houve um regime alimentar restritivo, com a redução de carboidratos, devido ao aumento de peso de algumas candidatas após as medidas iniciais, que foram feitas um mês antes para a confeção dos trajes de gala por um designer no Gana. Contudo, a fundadora reforçou que as candidatas não passaram fome.

“É mentira que confiscamos os telemóveis”, reage, explicando que, na primeira edição, a proibição do uso dos telemóveis durante as atividades foi uma medida implementada para evitar distrações, já que muitas candidatas estavam mais focadas nas redes sociais do que nos treinos. Nereida esclarece que os aparelhos eram devolvidos à noite às participantes.

A entrevistada também refutou as acusações de abandono das candidatas após o curso, bem como a proibição do uso do cabelo natural. “Usaram extensões de cabelo por causa dos trajes, mas na gala final a própria Stephany desfilou com o cabelo cacheado.”

Denúncias tardias e falta de comunicação

Nereida expressou surpresa com as denúncias tardias feitas pela primeira Miss Cabo Verde International, Stephany Amado, e de ex-candidatas nas redes sociais.

“Estranhei porque já se passaram três anos. Eu como fundadora da organização em nenhum momento recebi um email de alguma candidata a afirmar o que passou ou a dar sugestões de melhorias”, lamentou.

A fundadora esclareceu que quem custeou a viagem de Stephany Amado para representar o país no Japão foi a organização e não um terceiro com referiu a modelo na live. “A Stephany disse que a organização não a apoiou, mas só para ir representar o país no Japão pagamos uma taxa de 2 mil dólares (mais de 200 contos), que incluem alimentação e estadia”. Entretanto, a responsável reconheceu que houve atrasos no pagamento do prémio anual pago mensalmente à candidata.

Próximos Passos: Ação Judicial e melhorias

Diante das acusações, Nereida Lobo afirmou que vai procurar assistência jurídica para apurar as alegações feitas. “(As candidatas) disseram na live que fiquei com o dinheiro e ainda tenho dívidas por pagar. Vou entrar com um processo judicial, exijo provas”, afirmou, alegando que está a ser vista como uma criminosa perante a sociedade. “(…) Agora tenho metade do país revoltada comigo.”

Além disso, a fundadora anunciou que, para a edição deste ano, cuja gala acontece no mês de setembro na Praia, a organização está a implementar mudanças, como a contratação de um psicólogo para apoiar as candidatas no acampamento. Segundo a mesma, a organização também está a trabalhar para minimizar as despesas das candidatas, que pagam uma taxa de 10 mil escudos, estabelecendo parcerias com empresas e instituições locais.

Nereida diz estar grata pela participação de todas as candidatas e pediu desculpas por eventuais falhas que possam ter ocorrido. “Apesar da falta de patrocínios, acho que dei o meu máximo, se não foi suficiente para as candidatas, peço desculpas por isso”, conclui, afirmando que está com a consciência tranquila. 

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