Neusa Silva: “É uma grande responsabilidade ser vista como uma referência”

Natural do bairro Craveiro Lopes, na cidade da Praia, Neusa Silva formou-se em Gestão de Empresas no Brasil e fez uma especialização em Marketing e Recursos Humanos. Foi durante a estadia no Rio de Janeiro, mais precisamente em Niterói, que começou a despertar o interesse pelo mundo dos negócios.
“O interesse surgiu quando estava no Brasil. Vi uma sociedade muito dinâmica, onde os jovens trabalhavam e estudavam ao mesmo tempo. Isso chamou-me muita a atenção e comecei a questionar porquê em Cabo Verde muitos jovens só começam a trabalhar depois de concluir a licenciatura”, conta em entrevista ao Balai.
Segundo a empresária, essa experiência moldou a sua visão sobre o papel do trabalho na formação dos jovens.
“Disse para mim mesma que, no dia que tivesse a oportunidade de abrir uma empresa, gostaria de incutir esse tipo de genica nos jovens cabo-verdianos, para que não dependessem apenas dos pais”, diz, acrescentando que, enquanto universitária, estagiou em diferentes áreas, incluindo a banca e empresas de cobrança de crédito. “A ideia era trazer essa experiência para Cabo Verde.”
Surgimento da Guia de Serviços
Depois de regressar ao país, Neusa Silva chegou a trabalhar em algumas empresas, mas sentia falta de motivação e de espaço para se afirmar profissionalmente, tendo decidido, em 2007, avançar com um negócio próprio.
Com o apoio de um colega que também tinha estudado no Brasil e que a orientou na fase inicial, fundou a Guia de Serviços.
“No início trabalhava noutra empresa e dedicava-me à Guia de Serviços à noite. Mas depois percebi que não fazia sentido e, com o crescimento da empresa, optei por dedicar-me apenas a isso”, conta.
Quase duas décadas depois, a avaliação, segundo Neusa Silva, é positiva.
“Começamos com dois funcionários e atualmente estamos com cerca de duzentos. Trabalhamos a nível nacional, temos representações nas ilhas, nomeadamente em São Vicente”, avança.
Atualmente, a empresa atua em cinco áreas principais (eventos, limpeza, formação, cedência de pessoal e vigilância e segurança) e, segundo a fundadora, ao longo dos anos tem investido a nível de recursos humanos, estrutura e equipamentos.
“Temos três certificados a nível internacional nas áreas de qualidade, higiene, segurança alimentar, e saúde e higiene no trabalho, incluindo a certificação ISO 9001.”
Reconhecimento e prémios
Ao longo do percurso empresarial, Neusa Silva tem sido distinguida com vários prémios nacionais e internacionais. Em 2014, recebeu o Prémio Jovem Empresária, atribuído pela Câmara de Comércio, Indústria e Serviços de Sotavento (CCISS), em reconhecimento ao seu espírito empreendedor.
Já em 2021 foi eleita Mulher Empresária pela Associação de Mulheres Empresárias de Cabo Verde e Diáspora (AMES&CD), através da Câmara de Comércio de Sotavento. Dois anos depois foi reconhecida na Cimeira das Mulheres Empreendedoras de Cabo Verde com o prémio de Mulher Empreendedora do Ano.
“É uma grande responsabilidade ser vista como uma referência. Mas também é fruto de um trabalho árduo. (…) Em todas as áreas há problemas, (…) e a alternativa é sempre procurar soluções e estar à frente de qualquer acontecimento”, afirma, referindo que está sempre a fazer formações para se manter atualizada.
A empresa também foi distinguida pelo segundo ano consecutivo com o Prémio Empresa Excelência.
Desafios como a falta de mão de obra
Um dos maiores desafios enfrentados atualmente pelas empresas cabo-verdianas, segundo Neusa Silva, é a falta de mão de obra, agravada pela emigração dos jovens.
“Não tem sido fácil, principalmente na nossa área. Ficamos atrapalhados. Já havia pouca mão de obra e com a saída de jovens para o exterior piorou. E normalmente quem sai são os melhores”, lamenta.
A empresária sublinha também a escassez de mão de obra qualificada no país, o que obriga as empresas a investir constantemente na formação de novos trabalhadores.
“Em Cabo Verde ainda temos pouca mão de obra especializada e isso reflete-se nos serviços prestados. Temos de investir constantemente em formação e, às vezes, depois de formadas, as pessoas acabam por sair”, lamenta. “É um mal que está generalizado.”
“A Nona Filha”: um legado pessoal para inspirar
Em outubro de 2025, no âmbito das comemorações dos seus 50 anos, Neusa Silva lançou a sua primeira autobiografia intitulada “A Nona Filha”.
“Foi um projeto muito lindo. O livro retrata a história da minha vida, desde o meu nascimento, o círculo familiar, a minha formação e os desafios que enfrentei até chegar onde estou hoje. (…). Foi um presente que ofereci a mim mesma pelos meus 50 anos. Todos os amigos e colegas acolheram a ideia de forma espetacular e até agora estou a ser parabenizada por causa disso”, explica.
“Quero deixar marcas positivas para que os jovens se espelhem, se quiserem”, afirma.
O lançamento na cidade da Praia (Santiago), bem como em Lisboa (Portugal) contou com uma sala cheia, e, segundo a autora, teve uma receção bastante positiva.
“Foi espetacular (…). Na Praia foi uma enchente, tínhamos cerca de 300 convidados (…) Em Portugal a sala estava lotada com antigos funcionários, juntamente com os seus familiares (…). Foi um momento de encontro de partilha, conversas e gargalhadas”, avança com um sentimento de gratidão.
O objetivo agora é apresentar a obra nas outras ilhas, bem como nos Estados Unidos e em França.
Apesar da literatura ser uma paixão recente, Neusa Silva já pensa no lançamento de uma próxima obra dentro da área feminina. “Como por exemplo, Neusa enquanto mulher empresária (…) ou falar sobre a maternidade tardia.”
Evolução da mulher cabo-verdiana
Para Neusa Silva, a evolução da mulher cabo-verdiana nos últimos anos é “muito positiva”.
“Comparando com cinco ou dez anos atrás, houve uma grande evolução. A mulher deu uma grande reviravolta dentro da nossa sociedade. Antes a mulher era vista sobretudo como dona de casa. (…) Hoje vemos mulheres em posições de liderança – na Associação de Mulheres empresárias somos quase 100 (…). Nos eventos encontramos mulheres na sua máxima representação, os homens sempre em minoria, acho que tivemos um salto qualitativo muito grande. (…) Comparando com antigamente, não há dúvida que estamos bem cotadas a nível de África”, observa.
Ainda assim, a empresária reconhece que existem desafios, sobretudo relacionados com a insegurança e o medo de arriscar.
“Às vezes podemos ter um pouco mais de medo e insegurança. Falo muito com os jovens e muitos falam em termos de investimentos que podem não existir, mas na minha opinião penso que é o medo. (…)Acho que os desafios são tanto para os homens como para as mulheres”, avança apontando que atualmente existem mais apoios governamentais.
Para a nova geração interessada em seguir a área dos negócios, a empresária aconselha a investir no conhecimento e na responsabilidade.
“Os jovens precisam de ter firmeza, conhecimento, trazer valores, princípios e ética para o trabalho.”
Na visão de Neusa Silva, o acesso à tecnologia facilita muito o processo de aprendizagem, mas diz que a juventude está com “medo” e “um pouco desinteressada”.
“O mundo está a transformar-se muito rápido e quem ficar parado pode perder oportunidades ”, alerta.
Balai Notícias
Aline Oliveira
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