Preocupadas com número de casos de gravidez precoce, enfermeiras criam projeto comunitário Clínica Jovem

Segundo dados da VerdeFam, doze em cada 100 adolescentes dos 15 aos 19 anos em Cabo Verde tem pelo menos um filho. Preocupadas com esses números, as enfermeiras Vera Barros e Neusa Leal idealizaram a Clínica Jovem, um projeto de intervenção que visa reduzir o índice da gravidez precoce nas suas comunidades, bem como no país.

As amigas e colegas de profissão, Vera Barros e Neusa Leal são de dois bairros vizinhos da cidade da Praia – Safende e Calabaceira. Os seus caminhos cruzaram-se nos estabelecimentos de ensino. Estudaram Enfermagem juntas na Universidade Jean Piaget de Cabo Verde, na cidade da Praia, e agora estão a trabalhar em prol do desenvolvimento comunitário.

Preocupadas com o aumento de casos de gravidez na adolescência em Cabo Verde, principalmente nas suas comunidades, em dezembro de 2021, as atuais enfermeiras criaram a Clínica Jovem, que foi um dos 10 projetos de impacto social selecionados pela iniciativa Youth Challenge For SDG promovido pelo IDJ, PNUD, UNFPA e UNICEF Cabo Verde.

“A ideia da criação do projeto surgiu na tentativa de mostrar que a Enfermagem tem outro potencial e que os enfermeiros podem contribuir de uma forma diferente. Com isso o nosso objetivo é reduzir os casos de gravidez precoce, incentivar os jovens a usar métodos contracetivos a fim de evitar também infeções sexualmente transmissíveis e orientá-los a terem uma vida sexual mais responsável”, salienta Vera Barros.

Inicialmente, a Clínica Jovem foi idealizada como um trabalho de conclusão do curso de Enfermagem, mas devido à escassez de tempo, o projeto tomou outro rumo.

“Tínhamos apenas seis meses para entregar o trabalho de conclusão do curso, era insuficiente, acabamos por desistir, e cada uma desenvolveu um tema para a defesa da monografia. Depois, através da UniPiaget, tivemos conhecimento do programa Youth Challenge For SDG e vimos que era a oportunidade que estávamos a precisar. Inscrevemo-nos de imediato e a Clínica Jovem foi um dos projetos vencedores”, conta a mesma fonte.

As jovens receberam um montante de 300 contos para implementarem o projeto.

“Na área da saúde, trabalhamos muito com a parte social, logo sem fins lucrativos. Então, o prémio é uma alavanca para iniciarmos o projeto com muita garra e só assim tentar sustentá-lo e com o tempo alargá-lo ainda mais”, diz Neusa Leal e reforça que estão à procura de outros parceiros.

De acordo com as mentoras, a Clínica Jovem é subdividida em duas partes: “A social, onde queremos implementar um gabinete de orientação sexual para os adolescentes e uma outra parte que é mais relacionada com a prática de Enfermagem, onde vamos criar um posto clínico para dar consultas para grávidas, adolescentes, entre outros”, explicam.

…durante o nosso processo escolar nunca tivemos um acompanhamento na área da saúde sexual e reprodutiva

As enfermeiras pretendem também dar formação de curta e longa duração com a finalidade de ter uma população mais informada a nível de saúde.

Neste momento, estão na fase de implementação do gabinete de orientação sexual na Escola Secundária Manuel Lopes, na Calabaceira.

“Estudámos neste estabelecimento de ensino e durante o nosso processo escolar nunca tivemos um acompanhamento na área da saúde sexual e reprodutiva. (…) Vimos esse défice e sabendo que é uma escola que abrange várias zonas como por exemplo, Calabaceira, Safende, Pensamento e Vila Nova, onde encontramos meninas em risco e com pouca informação.(…) A escola disponibilizou-nos um espaço e agora estamos à procura de parcerias. Já temos alguns materiais e pretendemos iniciar no próximo ano letivo com uma feira de saúde”, explica Neuza Leal que trabalha há cinco meses na Delegacia de Saúde da Praia.

Futuramente, as mentoras pretendem expandir a Clínica Jovem a nível nacional, bem como criar mecanismos para chegar aos adolescentes que estão fora das escolas. O projeto também inclui prestação de cuidados às grávidas.

… Adolescentes não estão preparados nem física, nem mentalmente para serem pais

Vera Barros trabalha há quatro meses no serviço de Puerpério, da Maternidade do Hospital Agostinho Neto, e tem-se deparado com vários casos de gravidez precoce.

“Aumentou consideravelmente. E os adolescentes não estão preparados nem fisicamente, nem mentalmente (para serem pais). Para terem a noção, a maioria dos bebês nasce prematuramente e muitos desses adolescentes não têm a noção de como cuidar de um recém-nascido. Por serem bebês prematuros exigem mais cuidados e nem sempre as mães têm condições psicológicas”, conta e afirma que é sempre uma luta.

A consulta de Planeamento Familiar é importante na prevenção de gravidez e de doenças sexualmente transmissíveis, no entanto, segundo a enfermeira Neusa Leal, a adesão dos jovens tem sido fraca.

…Não vemos rapazes nas consultas de Planeamento Familiar, logo é algo complicado

“Os números de gravidez na adolescência não param de aumentar porque os jovens fogem dos centros de saúde que disponibilizam consultas de Planeamento Familiar, devido à vergonha ou medo de encontrar alguém conhecido. Se os jovens não se deslocarem aos centros de saúde temos que encontrar uma estratégia para chegar até eles. Por isso tivemos a ideia de criar o gabinete da Clínica Jovem dentro da escola”.

Neusa ainda realça que as consultas de saúde sexual e reprodutiva não são apenas para as mulheres.

“Não vemos rapazes nas consultas de Planeamento Familiar, logo é algo complicado. Muitas mães solteiras, pais ainda menores, o que traz mais sobrecarga para os pais. Então, se instruirmos os nossos jovens, meninas e, principalmente, os rapazes de forma a incluí-los no Planeamento Familiar, acredito que a Clínica Jovem pode vir a ser um sucesso”, conclui.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest

Deixe um comentário

Follow Us