Quatro cabo-verdianas que abriram mão do convencional e traçaram novos rumos na carreira profissional

Em entrevista ao Balai, quatro mulheres partilharam as suas experiências laborais em ramos que nunca foram as suas primeiras opções, mas que as fazem sentir realizadas profissionalmente.

Graciete Varela, Hélida Gomes, Aleydita Rodrigues e Vilma Martins são mulheres que optaram por um percurso profissional distinto do que consideravam usual e do que sempre sonharam, mas hoje orgulham-se dos cargos que ocupam e das funções que desempenham.

Graciete Varela, 38 anos, é natural de Fontes de Almeida, concelho de São Domingos, interior de Santiago, e vive na cidade da Praia desde 2018. Junto da sua colega Hélida Gomes, de 28 anos, nascida e criada na zona de Milho Branco, São Domingos, onde vive até hoje, são as únicas técnicas operacionais de Manutenção de Telecomunicações, numa das mais antigas operadoras móveis do país.

Com cincos anos a atuar no ramo, Graciete, que antes trabalhava em lojas, conta que iniciou o seu percurso em 2011, quando arriscou fazer uma formação técnica em Telecomunicações, após não ter conseguido vaga para o curso de Administração, que era o que pretendia fazer.

Técnicas Alou

Numa turma composta, na altura, por vinte pessoas, dez mulheres e dez homens, hoje é uma das poucas que se manteve no ramo.

“Nunca sonhei em trabalhar nesta área, inscrevi-me para depois ver se me ia adaptar. Só que quando comecei a frequentar as aulas notei que, na verdade, a área fazia muito o meu estilo, porque sempre gostei de lidar com coisas práticas”, diz a técnica que entrou para a equipa da empresa onde trabalha desde 2018.

Três anos se passaram e mais uma mulher entrou para o grupo, aos 26 anos, Hélida foi uma das poucas candidatas mulheres entre os nove candidatos homens que concorriam à vaga para o posto que ocupa hoje.

A jovem, que já trabalhou como atendente de bar e de lojas, contou que o primeiro passo deu-se no momento em que, por estratégia, optou por entrar num centro de formações profissionais e cursar a via Técnica, ao invés da Hotelaria, que era a sua escolha inicial.

“Na época, fiquei a saber que as áreas técnicas eram as que mais tinham demanda no mercado, em comparação com a hotelaria. Então, optei por ir por esse caminho como forma de conseguir mais oportunidades”, lembra.

Mais a norte da capital, na zona industrial de Achada Grande Trás, onde se encontra instalada uma fábrica de produção de blocos e outros materiais de construção civil, encontramos Aleydita Rodrigues. Economista de 43 anos que se tornou na sócia-gerente da empresa em que começou a trabalhar desde 2011 no departamento financeiro, quando ainda atuava no ramo da comercialização de louças sanitárias.

“No início, não gostava muito do trabalho que fazia, como já é sabido, as pessoas que se formam em Ciências Económicas, idealizam trabalhar em bancos ou noutras instituições financeiras. Mas, já que na altura foi a única oportunidade que apareceu, agarrei nela e passei a gostar do meu trabalho”, recorda.

Com o passar do tempo, Aleydita passou a aplicar os conhecimentos no ramo da construção civil, contando sempre com o auxílio do chefe, que a incentivava a saber mais para além da área financeira e económica.

Em 2021, devido à doença do antigo dono da fábrica, Aleydita e mais um colega engenheiro receberam a proposta do mesmo para a compra da empresa. Ao se tornarem sócios no negócio, Aleydita e o colega decidiram dividir as funções: a economista passou a controlar a parte administrativa-financeira da empresa e o engenheiro passou a coordenar todas as questões técnicas e os processos produtivos até a saída dos produtos.

“Mesmo com as mudanças que ocorreram, nos mantivemos firmes, pusemos a insegurança de lado e embarcamos juntos no novo desafio. Sinto-me mais segura da minha posição e isso também é transparecido pelos colegas”, completa.

Do outro lado da cidade, onde atuam as duas técnicas de telecomunicações, Graciete e Hélida, ambas garantem que embora tenham apostado em áreas distintas da que sempre sonharam, durante os anos que têm de serviço na empresa onde atuam não apontaram nenhuma situação que consideram ser desafiante, já que para elas, “por ser uma área prática, tudo se torna mais fácil”.

Embora não haja desafios e a presença feminina nas equipas tornou-se habitual, no terreno a história é diferente e as reações são diversas. Como um exemplo citado por ambas, que em algumas situações os clientes mostram-se surpresos ao se depararem com uma técnica, quando estão habituados com homens.

“Houve uma ou outra situação em que estava com um colega no terreno e a nossa viatura estava estacionada em frente a um outro carro, e foi quando o motorista desse carro pediu-me para chamar o meu colega para manobrar a viatura, porque estava a dificultar a passagem, só que ele não contava que não era ‘o motorista’, mas sim, ‘a motorista’, pois eu é que estava ao volante e o meu colega nem tinha a carta de condução”, recorda Graciete.

Ao fazerem uma análise do primeiro dia de trabalho até hoje, um aspeto destacado pelas duas é a questão do “respeito mútuo entre os colegas de equipa e a não distinção de género nas tarefas diárias”.

“Todos fazemos o mesmo tipo de trabalho, até porque, as coisas que fazemos implicam a separação entre a dupla de técnicos que se deslocam ao terreno, para que possam fazer testes de sinais de um ponto para o outro”, realçam.

No caso de Aleydita, que está à frente de uma empresa que conta com cerca de 33 funcionários (27 homens nos setores técnico e de produção e 6 mulheres entre os setores administrativo, financeiro, técnico e produção), a mesma considera que as atividades no ramo da construção, principalmente nas pistas de produção, na sua maioria, costumam ter poucas mulheres.

É o caso de Vilma Martins, uma senhora de 43 anos, residente no bairro de Achadinha, cidade da Praia, vendedora de roupas, aos domingos, e que nos restantes dias da semana trabalha na fábrica, onde faz a rega dos blocos e outras atividades na pista de produção, caso seja necessária mais mão de obra.

Às vezes, as pessoas questionam-me do porquê de estar a trabalhar num lugar cheio de homens, eu não ligo para isso, estou cá por mim, porque quero e preciso”, diz a trabalhadora que desde os 10 anos começou a vender junto com a mãe para ajudar a família.

“Pessoalmente, gosto de trabalhar e não tenho medo de trabalho algum, independentemente da área. Acredito que uma pessoa, quer homem ou mulher, se tiver boa vontade para fazer e aprender, consegue dar conta do recado”, considera Vilma.

No quotidiano agitado da cidade da Praia, das sete da manhã às seis da tarde, entre instalações e suportes de avaria nas redes, conjugadas as responsabilidades do lar, as técnicas de telecomunicações, Graciete Varela e Hélida Gomes, seguem satisfeitas com a rotina diária e destacam os impactos da profissão nas suas vidas.

O meu trabalho deu-me mais autoestima, depois que comecei a atuar na área passei a conhecer mais coisas que antes não tinha a mínima ideia de como funcionavam. Se formos ver do início até agora, surpreendemos com a quantidade de coisas que já fizemos e que antes nem imaginávamos ser capazes”, diz Hélida.

Para as técnicas, serem das poucas mulheres na área, a nível nacional, é motivo de orgulho, já que sentem que estão a representar a classe e que são um incentivo para que outras mulheres invistam na área.

O trabalho da mulher é onde ela quiser e onde ela mostrar que sabe estar, não basta só querer estar e não saber fazer. Se queres fazer algo e sabes fazê-lo bem, quer dizer que é esse o lugar, independentemente do nosso ambiente de trabalho”, concluem.

Para Adeylita e Vilma, embora a presença masculina seja maior do que a feminina nos postos de trabalho, “o respeito mútuo pelo trabalho de cada pessoa tem sido o ponto forte na fábrica”.

Com a disposição de se manterem sempre firmes nas responsabilidades do trabalho, tanto a funcionária quanto a chefe, realçam a figura das mães como exemplo e inspiração em suas vidas.

Hoje eu gostaria que a minha mãe estivesse cá para ver que me tornei exatamente naquilo que ela me ensinou e sonhou para mim – uma mulher que também toma decisões”, conta Aleydita.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest

Deixe um comentário