Sabor das Montanhas, um projeto que quer impulsionar a tradição gastronómica de Santo Antão

Projeto que junta o espírito inovador e a experiência de dois santantonenses, o designer Adelino Fortes e a doceira de há mais de 30 anos Maria Ramos “Dona Bibia”, quer dinamizar e difundir a cultura e a tradição gastronómica da ilha das montanhas.


Com o objetivo de oferecer produtos típicos, nomeadamente, doce, café e grogue com características orgânicas, bem como dinamizar e difundir a cultura e a tradição gastronómica desta ilha reconhecida pelas suas montanhas bem como pelos seus produtos agrícolas, o cabo-verdiano Adelino Fortes criou, em setembro de 2014, o projeto Sabor das Montanhas.

O projeto arrancou com uma linha de doces. Apesar de ser um apreciador dessa iguaria há muito tempo, a ideia do projeto remonta à estadia de Adelino Fortes no Brasil, país onde formou-se em Design, em 2009.

“Recebi em casa uma amiga que estava em Fortaleza e ela ofereceu-me dois frascos de doce da Docel, que eram confecionados pela Associação de Mulheres do Paul. Gostei tanto do doce que prometi que ao regressar a Cabo Verde iria mudar a imagem da Docel. O produto era de excelência, mas precisava mudar a imagem”, recorda em conversa com o Balai.

Ao regressar ao arquipélago, Adelino estagiou durante seis meses na Docel, onde conheceu Maria Ramos mais conhecida por Dona Bibia, que é a atual doceira do projeto Sabor das Montanhas, e passou a conhecer o processo da confeção de doces e derivados. Entre 2012 e 2013, a Docel acabou por fechar as portas, mas Adelino continuou a manter contacto com Dona Bibia.

Munido do seu espírito empreendedor, Adelino resolveu, em 2014, colocar em prática tudo o que tinha aprendido sobre negócios e convidou Dona Bibia para abraçar o projeto e assim nasceu a marca Sabor das Montanhas.

“Santo Antão é conhecida pelas suas montanhas e a goiaba (que é o ingrediente mais procurado) é oriunda das montanhas, então queríamos trazer essa referência para o nosso produto”, explica a escolha do nome da marca.

Da papaia à goiaba

O projeto começou com oito tipos de doce. “O peso de cada frasco era de 465g, e os nossos principais clientes – os turistas – reclamavam do mesmo e tivemos que desenvolver outra linha denominada ‘Sweet Paul’ que pesa de 260g”, explica o promotor.


Vários tipos de doce de papaia, que é uma fruta que é abundante na ilha, compõem a oferta da casa: doce de papaia em tiras com mel, papaia verde ralada com mel, papaia com sabor a figo, compota de papaia com hortelã, papaia madura com hortelã, mas também doce de leite e doce de goiaba, claro.

“O doce de goiaba é sazonal e é feito com fruta 100% orgânica. É o mais procurado e vendido no mercado. Já o de leite, por ser laticínio tem prazo de validade de 1 mês e só é feito sob encomenda”.

A pedido de alguns clientes, Adelino reduziu a quantidade de açúcar dos produtos. “Reduzimos a quantidade de açúcar do doce de leite para 28%. No geral, os nossos doces têm a redução de 23% de açúcar”, diz, mas explica que, por causa da quantidade de açúcar, vão ter de retirar o doce de papaia em tiras com mel do mercado.

Os doces encontram-se à venda apenas a nível nacional, mais precisamente, nas ilhas de Santo Antão, Santiago (Praia) e no Sal (apenas para turistas). “Em São Vicente, ainda temos problemas em encontrar um ponto de venda, antes da pandemia o produto estava à venda no aeroporto”, diz.

Os preços vão desde os 210 aos 550 escudos e variam de ilha para ilha. “O preço é uma questão que estamos a trabalhar. Infelizmente, temos que controlar o preço final, visto que, a tendência é o revendedor aumentar. O mesmo varia de ilha para ilha por causa do custo de transporte que, infelizmente, não temos como assumir”, explica e afirma que ambicionam ter um preço único.


“Para quem quer ter uma indústria de produção, a embalagem em Cabo Verde é um Calcanhar de Aquiles”

Até o ano passado, 2020, os turistas eram os seus principais clientes. “Com a chegada da pandemia e com as medidas impostas para travar a expansão da covid-19, fizemos de tudo para conquistar os cabo-verdianos e até mudamos a política de preços porque era algo que reclamavam”, diz e afirma que o feedback do público tem sido positivo.


As embalagens e os meios de transporte são os principais desafios que têm enfrentado. “Para quem quer ter uma indústria de produção, a embalagem em Cabo Verde é um Calcanhar de Aquiles. Somos uma indústria de pequeno porte, estamos a tentar fomentar a indústria e a diminuir o desemprego, e colocam uma taxa ecológica nas alfândegas?”, diz indignado e afirma que também estão a sofrer com os problemas dos meios de transportes. “É preciso tomar medidas para proteger e fomentar a indústria e a produção nacional”.

“Queremos pegar no melhor grogue e agregar-lhe valor”

Para além dos doces, o projeto Sabor das Montanhas quer valorizar o café e o grogue produzidos em Santo Antão.

Em meados do mês de dezembro pretendem lançar uma linha de grogue denominada Single Cana. “Queremos pegar no melhor grogue e agregar valor e história”, diz e afirma que já estão a fazer a degustação do produto.

Já o café, Adelino diz que é mais “complicado”. “Exige uma dinâmica que ainda não conseguimos. Mas o nosso objetivo é daqui a dois anos empacotar café orgânico de Santo Antão. Já plantamos cerca de cento e dez pés de café e a ambição é nos próximos cinco anos plantar três mil. Posteriormente, pretendemos comprar café de vários produtores da ilha”, explica.

Revela ainda que pretendem ter um terreno modelo para receberem visitantes que querem entender o processo do plantio, colheita e transporte do café. “O projeto já está em andamento e já estamos a levar pessoas para viverem esta experiência que consiste numa caminhada que termina com a degustação de um café local”, conclui.

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