Saúde mental: As pessoas sentem-se inibidas em pedir ajuda

Em finais de setembro, a psicóloga clínica Christie Wahnon conversou com o Balai sobre o suicídio, os fatores de riscos, os sinais a ter em conta e a necessidade de se apostar na saúde mental, no geral. A especialista também diz que é preciso investir na fiabilidade dos dados para se encontrar soluções de acordo com informações reais e na necessidade de se apostar na literacia da saúde para que as pessoas estejam mais atentas e saibam quando pedir ajuda.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, OMS, 77% dos suicídios ocorre em países de baixa e média renda, onde o continente africano surge em primeiro lugar, em segundo lugar surge o continente europeu e de seguida o asiático (sudeste). Dados da OMS também apontam que em 2019 cerca de 700 mil pessoas tiram a sua própria vida, mas como existe esta subnotificação, as autoridades acreditam que o número chegue a 1 milhão por ano, explica a Christie Wahnon em entrevista ao Balai.

Formada em Psicologia Clínica e de Saúde, há nove anos que esta profissional faz atendimento nos centros de saúde do país, sendo que nos 6 últimos anos tem trabalhado na Praia.

Panorama real para uma intervenção real

 

“Cabo Verde faz parte dos países onde existe subnotificação (de casos de suicídio)”, diz a psicóloga e acrescenta que é muito importante investir na notificação real de casos, porque “não se pode intervir em qualquer problema de saúde pública, se não há um diagnóstico real”.
“Cabo Verde precisa investir na fiabilidade dos dados para poder encontrar soluções de acordo com os dados fidedignos.”

Falar sobre o suicídio é algo que ainda está envolto em tabu. Segundo Christie Wahnon, este facto prende-se com o sentimento de culpa muito grande e de vergonha que as famílias sentem por não ter reparado no que estava a acontecer.

“Quando uma pessoa se suicida significa que estava num extremo de sofrimento. De certa forma, a sociedade entende que a pessoa se suicidou porque não teve apoio, nem ajuda. Então, a família sente esse peso de não ter reparado nos sinais, de não ter tido entendido que a pessoa ia ter um comportamento tão drástico (…) por isso as pessoas têm algum bloqueio em conversar sobre isso”.

A psicóloga também tenta desmitificar a ideia de que falar sobre o tema vai estimular este ato. “Sabemos que é exatamente o contrário. É preciso conversar sobre isso, dotando as pessoas de informações para que elas possam prevenir e ir ao encontro da ajuda que existe. A maior parte dos suicídios poderia ser evitada se houvesse uma intervenção efetiva”.

No relatório sobre o Suicídio a nível mundial em 2019, a OMS também enfatiza que “os suicídios são evitáveis”. O guia LIVE LIFE de prevenção suicídio nos países (OMS, 2021) descreve quatro intervenções eficazes baseadas em evidências para prevenir suicídio: limitar o acesso aos meios de suicídio, como pesticidas e armas de fogo; sensibilizar os média para uma cobertura responsável do suicídio; promoção de habilidades sócio emocionais em adolescentes e identificação precoce, avaliação, gestão e acompanhamento de qualquer pessoa com comportamentos suicidas.

Os sinais aos quais se deve estar atento

 

“Há pessoas que já atendi e me dizem: “Mas ele (que cometeu suicídio) não deu sinais”. Mas as pessoas dão sinais, só que podemos não estar atentos, o que é normal, não é preciso ter um sentimento de culpa a cerca disso, com um ritmo de vida mais acelerado é normal não estar focado no outro, nos nossos familiares, e perceber que, por exemplo, o isolamento é um sinal proeminente nestas situações e as mudanças de comportamento (…) normalmente, os extremos de comportamento sempre querem dizer alguma coisa, a nível mental”, diz e cita exemplos como dificuldade em dormir ou dormir em demasiado, a questão do apetite, se as pessoas começam a comer demasiado ou, pelo contrário, ficam sem apetite.

“Uma pessoa que verbaliza que não está com um propósito na vida, que não sabe o que está aqui a fazer (isso também acontece), por exemplo. Muitas vezes as pessoas dizem isso, mas quem está ao lado não leva o assunto com seriedade, mas sim em tom de brincadeira. Só que quem verbaliza já começou a construir a sua ideação suicida (…) Mesmo em adolescentes é um sinal. Não quer dizer que a pessoa vá passar ao ato, mas é um sinal de sofrimento. Pode não ser consumado, mas há um risco sempre. E é nesse momento que devemos intervir”.

Como ninguém sabe o que se passa no mundo interno de cada um, é importante questionar as pessoas, perguntar ‘Como estás?’, mostrar à pessoa que a sua vida tem valor, é uma forma de prevenção, defende a interlocutora.

Quando é necessária uma intervenção de um especialista na área da saúde?

 

Os extremos de comportamento já são um sinal, mas também o isolamento, a desesperança, o desanimo, quando uma pessoa que não se sente encaixada nem encontra ânimo em nada, são motivos para procurar ajuda profissional.

“Como referi, a maioria dos suicídios poderia ser evitada se pudéssemos intervir e ajudar a procurar ajuda. Porque, muitas vezes, a pessoa está num tamanho estado de apatia que não consegue dar esse passo. Portanto, é preciso que alguém o faça, a pessoa que está lá para te ouvir e para perceber o teu momento (…) validar os sentimentos e nunca desdenhar ou fazer pouco do que a pessoa está a sentir”.

Sinais a estar atento na adolescência

 

O isolamento é um sinal a estar atento também nos adolescentes, alerta a profissional que é pós-graduada em Saúde Pública e Promoção da Saúde, e cita o exemplo de jovens e adolescentes que passam muito tempo nos telemóveis e tablets afastados do mundo.

“Há vários fatores de risco na adolescência, principalmente, nesta fase que vivemos da covid-19, que é um fator de risco. Temos de pensar que a adolescência é o que chamamos na psicologia a idade dos pares, é a idade que tu gostas de estar com as pessoas, a idade de sair e conhecer o outro, a idade de “tu e os outros”. Na pandemia quase todos os adolescentes do mundo foram privados desta fase bonita e que é tão natural.”.

Além desta privação, houve uma mudança nas dinâmicas familiares e a exposição dos jovens a situações extremas. O isolamento, as aulas online, os novos formatos onde as famílias estiveram todas confinadas em casa, o que gerou mais conflitos e onde as crianças e os adolescentes acabaram por ter também mais contacto com os pais que têm problemas com álcool e drogas e tiveram de lidar mais de perto com a questão da violência doméstica e dos conflitos, que sabemos que aumentaram (durante a covid-19), podem ter levado ao aumento de tentativas e a ter um comportamento extremo.

“A família esteve muito mais tempo junta nesta época e sabemos que a nossa sociedade tem várias questões pesadas de alcoolismo, de VBG, de abuso sexual, psicológico e físico e isso despoleta um aumento de tentativas não só em adolescentes como nas mulheres, acredito até de suicídio”.

“A OMS quando fizer um novo relatório pós-covid penso que vai confirmar esses dados.”

Mulheres tentam mais, mas homens são as principais vítimas de suicídio

 

Dados apontam que em 2019, que o suicídio foi a principal causa de óbito por causas externas em Cabo Verde. Nesse ano, 71 pessoas cometeram suicídio no país, segundo o relatório da OMS citado anteriormente, sendo que 12 são mulheres. A maioria dos casos aconteceu nas ilhas de Santiago, São Vicente e Fogo (ordem decrescente).

Da sua experiência clínica que vai ao encontro dos dados disponibilizados pela OMS, a maior parte dos suicídios acontece em pessoas com menos de 50 anos e a maior prevalência está na faixa entre os 15 aos 35 anos.

A nível de sexo, os homens cometem duas vezes mais suicídios, mas as mulheres fazem mais tentativas. Algo que é apelidado de paradoxo do suicídio, diz Christie Wahnon.

“É algo interessante, entre aspas, porque permite entender as nuances sociais do que é a mulher e o homem. Porque é que os homens se suicidam mais? Temos muitas teorias que podem explicar. Os homens falam muito menos e é esperado socialmente dos homens que sejam provedores, por isso, são mais pressionados, não podem chorar, não podem falar e isso tudo resulta numa bomba relógio e quando têm problemas, eles acabam por cometer esse ato de forma mais firme porque são coisas que estão lá há muito tempo. Eles também acabam por usar métodos mais efetivos (…)

Já as mulheres têm outro mindset. Falam mais e têm menos propensão a consumar o ato porque procuram mais ajuda e os métodos utilizados são menos efetivos (…) o que mostram que de alguma forma não era uma decisão tão efetiva (…) mas é algo importante a ter em conta. Elas acabam por “ser salvas” mais vezes (…) a questão do género é muito real no suicídio e dá muito pano para mangas para muita discussão (…)”.

Falta de seguimento 

“Nos hospitais em Cabo Verde temos constantemente mulheres a chegar por intoxicação de fármacos em tentativas de suicídios”, afirma a profissional.

Contudo, mesmo depois das tentativas o seguimento nem sempre acontece. Christie Wahnon explica que o acompanhamento é outro handicap do país já que devido a outros fatores como muita demanda, poucos técnicos, etc. não há um seguimento efetivo.

“Normalmente, a pessoa recebe um papel para marcar uma consulta de psicologia no centro de saúde, mas depois não se sabe se a pessoa marcou ou não, se fez ou não o seguimento, como foi a absorção da pessoa no sistema. E acaba-se por perder estas pessoas e realmente, acredito, que há uma parte de pessoas que se suicidaram e que estiveram perto do sistema mas o sistema não conseguiu segui-las ou “salva-las” porque elas se perderam (no processo)”.

Saúde mental: as pessoas sentem-se inibidas em pedir ajuda 

Assinala-se a 10 de outubro o Dia Mundial da Saúde Mental, este ano sob o lema “Tornar a saúde mental e o bem-estar uma prioridade global”. Num país onde a saúde mental ainda carece de maior atenção, a especialista salienta que a pandemia teve este aspeto positivo que foi fazer com que a saúde mental ganhasse destaque.

“As pessoas sofreram muito a nível psicológico (durante a pandemia) por isso começaram a dar mais valor. Desde que a pandemia começou, foi possível sentir que houve uma enorme procura de pessoas porque elas realmente perceberam a importância de cuidar da saúde mental”.

Apesar das melhorias, o caminho ainda é longo, defende, e as pessoas ainda têm muito tabu em Cabo Verde e tendem a negligenciar a área mental em relação às especialidades físicas.

“As pessoas sentem-se inibidas em pedir ajuda o que pode levar ao extremo de cometer o suicídio exatamente porque a pessoa não se sentiu à vontade, devido às pressões sociais de procurar ajuda (…)”.

Educar para a saúde

Christie Wahnon defende que é preciso trabalhar a literacia de saúde em Cabo Verde, porque a falta desta condiciona a procura de ajuda. “As pessoas nem percebem que têm um problema psicológico, mesmo quando os profissionais as abordam sobre isso”, diz e cita o exemplo de pessoas que têm crises de pânico com sintomas como falta de ar e não tem noção do que é, pois desconhecem o que é a ansiedade, a depressão, etc.

Atualmente a maior parte das escolas secundárias do país já tem psicólogos, mas geralmente é apenas um profissional para toda a escola onde há todo o tipo de problemas.

“Sempre quando falo com colegas digo-lhes que mais do que fazer atendimentos é focarem-se na educação para a saúde, fazer palestras, empoderar estas crianças e adolescentes desde cedo para a importância da saúde e do reconhecer quando as coisas não estão bem. Isto não vai diminuir a probabilidade destes jovens de terem transtornos mentais, mas pelo menos eles vão ter a noção do que é e poderão reconhecer os sintomas para pedir ajuda”.

Como agir em casos concretos?

“Ser empático e nunca fazer pouco, ter uma escuta ativa. Eu respeito o teu momento, valorizar o que a pessoa está a sentir”.

E em casos de adolescentes, o que é um comportamento normal e quando se deve estar alerta?

“Para já o ser antissocial já não é normal, devemos olhar para isso, estamos numa sociedade em que achamos que estar um dia inteiro no quarto no tablet é normal, mas não é. Os pais também devem ter essa capacidade de os tirar do quarto. Hoje é um sábado, vamos fazer uma caminhada, para uma praia, para um parque. É importante termos essa noção de que isso já é uma prevenção (…) mostrar que a sua vida tem um valor para os pais. Muitas vezes estamos preocupados com as coisas do dia-a-dia em conseguir pôr um prato de comida na mesa e a vida dos filhos vai passando em branco. Eles não são adultos, não têm os problemas que os adultos têm, então sentem-se negligenciados e precisam de validação. “Ok, os meus pais estão a ver-me”. Hoje em dia, os filhos sentem que os pais não os veem (…) mas na adolescência, principalmente, eles têm de sentir que há interesse na vida deles e que a vida deles tem valor”. 

E se achamos que a vida da pessoa está em perigo, sendo que não existe internamento compulsivo nestes casos o que é possível fazer?

“Se ficarmos ao lado dessa pessoa, todos os dias, mostrando que estamos lá, que respeitamos a pessoa, geralmente essa pessoa vai-se abrindo, naturalmente. E chega um momento que podemos dizer: ‘Acho que deves marcar uma consulta com uma pessoa’ e, normalmente, a pessoa aceita, depois de sentir essa confiança, ela ouve”.

Que questões de saúde mental são fatores de risco?

Segundo Christie Wahnon, há realmente alguns fatores de risco, a nível de saúde mental, associados ao suicídio como a depressão, a ansiedade, a esquizofrenia, o transtorno bipolar, mas também o abuso de substâncias (álcool e droga), a baixa resiliência é um fator de risco da personalidade mesmo, a agressividade e a impulsividade, pessoas muito reativas, por ex.

Há outros aspetos sociais que influenciam como o desemprego, ter sofrido violência física na infância, perdas de familiares, ter doenças crónicas, a confusão de identidade sexual. “Outro fator interessante é ser solteiro já que as pessoas casadas têm menos risco de suicídio”.

E em contrapartida existem os fatores de proteção que são aspetos como a família e os filhos, emprego, o apoio social, a religião e a espiritualidade, a resiliência e a autoestima em alta também ajudam a diminuir o risco.

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