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Em agosto deste ano, a coach e formadora Ana Fernandes foi uma das 11 oradoras da II edição do TEDx Mindelo. O tema escolhido não foi por acaso: “Crescimento pessoal, resiliência, autenticidade, autodescoberta”. Partilhou a sua caminhada e de que forma encontrou o seu propósito em São Vicente.
“Encontrei uma alternativa para conseguir fazer aquilo que gosto e de certa forma contribuir para o desenvolvimento das pessoas, mas tendo um negócio associado a isto”, avança a formadora que salienta, entre risos, que ainda não vê a sua empresa como sendo um negócio. “O que quero dizer com isto é: eu faço as coisas com tanto gosto e com um sentido de propósito tão grande que parece que, às vezes, não estou a trabalhar (…) só sinto que estou quando tenho de gerir”, começa por contar nesta entrevista ao Balai.
Natural do Porto (Portugal) e formada em Gestão e Animação Turística, até 2017 Ana Fernandes, 38 anos, trabalhava na área de marketing e publicidade em Portugal. Com um cargo de coordenação, fazia muitas viagens e reuniões e confessa que era viciada em trabalho. “Chegou uma altura que era só isso: só socializava com as pessoas do trabalho e a nível pessoal toda a gente queixava-se”.
O seu sorriso sempre foi a sua imagem de marca, mas teve uma crise e no meio de uma tempestade emocional candidatou-se para vir a Cabo Verde em 2018, no âmbito de um projeto de voluntariado.
Começou por trabalhar com crianças na Associação Espaço Jovem, na altura recém-inaugurada, mas tinha vontade de fazer algo diferente. Até que foi para as comunidades de Horta Seca, Pedra Rolada e Ribeira de Craquinha.
“Vi que em Cabo Verde havia muito por fazer e havia muita coisa que podia entregar dentro das minhas competências e habilidades”.
Outro sentimento que viria a contribuir para a vinda definitiva de Ana Fernandes para São Vicente é a aceitação. “Pela primeira vez senti-me em casa, comigo mesma, e aceite”. A ilha do Monte Cara marcou-a de forma inexplicável. “(No regresso a Portugal) Chorei durante cinco dias porque queria estar aí. Não tinha qualquer plano, a única certeza que tinha é que ia regressar.”
Resolveu organizar-se para regressar a Cabo Verde. Apesar de já ter apostado no autoconhecimento desde 2013, em 2017 recorreu a um coach para “perceber o que era esse processo de coaching e onde a poderia levar”, o que mais tarde a ajudou a concretizar os objetivos na prática”.
Depois esforçou-se para obter a sua certificação internacional em coaching. “Foi uma viagem a seguir a outra viagem”, recorda e acrescenta que também fez uma certificação em Programação Neurolinguística (PNL) e uma formação em terapia do riso.
“Investi todo o meu dinheiro e despedi-me”, recorda com humor. Apesar de já estar decidida em voltar para São Vicente, só tinha fundos para comprar a viagem de ida. Foi quando resolveu recorrer a um crowdfunding que iria servir para apoiar uma comunidade da Pedra Rolada e para poder integrar um projeto de construção de uma casa de tambor.
Pediu 600 euros, mas conseguiu mil e cem. “Quem ajudou mais nem foi a minha família ou os meus amigos próximos, foram desconhecidos que só conheciam o meu processo. Foi maravilhoso”.
De volta à ilha do Monte Cara e depois de um mês conheceu um amigo, o português Miguel Louro, com quem fundou, em 2019, o projeto de Volunturismo. “Quando vi que aquilo tinha pernas para andar, vi que tinha um propósito para voltar (definitivamente)”.
Vendeu a casa em Portugal, a sugestão partiu da mãe que já tinha entendido que Ana queria ficar em Cabo Verde, e estabeleceu-se em São Vicente.
Entretanto, em 2020, veio a pandemia da covid-19 e foi necessário repensar o projeto, do qual a coach acabou por sair. Passou por um momento de luto e acabou por ficar retida em Portugal devido às restrições nas viagens. Foi quando aproveitou para fazer uma atualização das suas certificações em coaching e PNL.
Kre Ser, de pessoas para pessoas
Em Portugal, Ana decidiu que mesmo que não fosse através do voluntariado, queria continuar a contribuir para a sociedade cabo-verdiana, mas no âmbito da sua profissão.
De volta à ilha, foi incentivada pelo ativista e amigo Alveno Soares a fazer formações e workshops e começou a colaborar em regime de pro bono com diferentes instituições nacionais.
Aos poucos, Ana foi abrindo as portas e começou a prestar serviço a diferentes empresas e instituições em São Vicente. Fundou assim a Kre Ser, uma empresa de Coaching & Training – Desenvolvimento Pessoal e Profissional que formalizou em 2021. “Posso dizer que já trabalhei com cerca de 20 empresas (no país)”, diz a formadora que já esteve em cinco ilhas do arquipélago.
“Embora seja uma empresa unipessoal, a nível legal, a Kre Ser é uma empresa de pessoas para pessoas. Acredito que só assim seja possível o crescimento mais sustentável e exponencial”.
Reconhece que é muito desafiante ter uma microempresa para os empreendedores em Cabo Verde e “em São Vicente ainda mais”.

“A minha empresa é a única que faz aquilo que fazemos no Barlavento”, afirma e assume que foi enfrentando alguns desafios: um deles é ser vista como a portuguesa que veio fazer algo e ser questionada porque é que não é uma cabo-verdiana a fazer.
“Eu também questiono (…) é uma questão abordada: porque é que as mulheres procuram a Ana Fernandes por causa da autoestima. E não dizem procuram a Kre Ser, dizem procuram a Ana Fernandes. Não, as pessoas procuram a Kre Ser, só que é a Ana Fernandes que está aqui, podia ser outra pessoa. Elas conectam-se comigo e por isso é que procuram porque eu também sou mulher e porque apesar de tudo eu gosto de falar sobre vulnerabilidades, mas a verdade é que isso ainda é muito questionado. Porque é que a cabo-verdiana, que é uma mulher que inspira auto estima, supostamente, inspira empoderamento, a nível cultural é vista assim, mas e a parte emocional e mental? E os desafios do dia-a-dia? (…) Portanto é perfeitamente normal acontecer uma mulher ou um homem procurarem ajuda. Só que hoje em dia a mulher é muito mais aberta (a procurar ajuda) e mais disposta. É muito mais fácil uma empresa como a Kre Ser, com uma equipa de mulheres, chegar nessas pessoas”.
Tem tido a preocupação de trabalhar com outras cabo-verdianas em áreas como o team building, entre as quais a socióloga e profissional do teatro Patrícia Silva, e na área de empreendedorismo com a Rosalina Lima.
Outro grande desafio e um problema grave, no entender da coach, é a falta de compromisso por parte de alguns profissionais, bem como a falta de pontualidade, que é uma questão cultural.
Numa empresa deste ramo a instabilidade é grande, reconhece, até porque a atividade é sazonal e durante a época de verão, por exemplo, não há procura. “Ana aproveita o verão para descansar”, diz a si própria porque o verão é para a festa. “Parece que São Vicente fecha (durante o verão). Isso é tudo muito cultural. Não queiras mexer com a cultura, sozinho.”, diz e explica que procura que os seus serviços sejam solicitados nas restantes épocas do ano.
A vida em Cabo Verde foi acontecendo com perdas e conquistas. “Perdeu um bebé”, abriu um restaurante, com um sócio, em abril de 2021 e fechou nove meses depois, separou-se do companheiro. Do resto, 2022 foi um ano “muito difícil”, nas palavras da entrevistada, mas foi o que lhe deu mais força para chegar onde chegou.
Existe a crença de que se deve separar o lado pessoal do profissional, mas é muito difícil, argumenta, e no caso dos empreendedores não se consegue. Por isso, viu-se obrigada a aplicar as ferramentas que usa nas suas sessões consigo. “Tive de parar e fazer os meus lutos. E depois tive de fazer coisas por mim”.
Segundo a coach, para ser empreendedor é preciso muita resiliência principalmente num país “ que não é o teu” onde estás num processo de conhecimento da cultura, das pessoas. Neste contexto, a língua pode ser uma barreira à aceitação porque na mesma língua é mais fácil relacionar-se com os outros. É uma barreira a ser rompida, confessa a entrevistada que diz “ estar no processo” de tentar falar crioulo. “Sou muito mais autêntica quando falo a minha língua do que quando estou a falar uma língua que não é”.
Questionada sobre o impacto que tem tido o trabalho que está a desenvolver, Ana Fernandes argumenta que o processo de mudança não se consegue quantificar em Excel, com números.
“Os resultados são pessoais mas obviamente se manifestam no lado profissional. Eu trabalho a pessoa e quando se trabalha aquilo que se é, obviamente altera-se aquilo que se faz. A mudança que noto é nisso: aquilo que as pessoas conseguem alcançar quando se consciencializam que têm de mudar alguma coisa nelas. Noto que aqui as pessoas se preocupam muito mais com o exterior do que com elas próprias (…) também é muito mais fácil responsabilizar o outro do que responsabilizar-se a si próprio”. Salienta que a auto responsabilização é importante para a mudança.
Quanto às características mais comuns que encontra nas pessoas que acompanha localmente diz que de um lado há a criatividade e a resiliência e do outro, a falta de compromisso e pouca consistência. “Há um desafio que é que por muito que exista criatividade é muito difícil haver consistência e ação, proatividade”, algo que no entender de Ana está relacionado com a autoconfiança.

Candidatou-se para ser oradora no TEDx Mindelo nessa altura complicada a nível pessoal mas disse a si mesma que não ia perder a oportunidade afinal falar num TEDx era um sonho a alcançar.
“Escolhi falar sobre autenticidade porque é nisso que tenho estado a lutar ao longo da minha vida, aceitar-me como eu era”. Também foi a busca pela autenticidade que a trouxe até Mindelo. “Quanto mais autêntica eu era, mais colhia frutos e percebi que a maior parte das pessoas que recorriam a mim estavam também nesse processo.”
Acrescenta que procura agora colocar a sua voz ao serviço do mundo através da autenticidade.
“Quanto mais te conheces mais autêntico és naquilo que fazes. E por isso muito dessa talk foi baseada na minha história”.
Ana teve muitos desafios este ano que, acredita, só conseguiu contornar e resolver por causa da pessoa que se tornou e por ter continuado a trabalhar de segunda a sexta-feira. “Dentro daquilo que faço na Kre Ser, digo sempre: “Sejam autênticos no que fazem”.
Por outro lado, enfatiza que o processo de perceber o que é importante é um algo contínuo tanto a nível individual como da comunidade. E por isso fala disso na sua talk e cita Jim Rohn: “Nós somos a média das cinco pessoas com as quais mais convivemos”.
Sente-se segura em afirmar: “sinto que estou a viver o meu propósito em Cabo Verde. É o que me interessa. Isso é o que me faz acordar feliz todos os dias mesmo quando não estou”.
Como a entrevista foi gravada em setembro, também se abordou a questão do suicídio e da saúde mental. Ana Fernandes defende que as questões de saúde mental precisam ser faladas sempre para gerar mais consciencialização sobre as mesmas.
No seu entender, “as pessoas não querem acabar com a vida, elas querem acabar com a dor (…) é uma questão interna em que a pessoa precisa de ajuda para ir buscar o positivo da sua vida.”
“Por exemplo, uma pessoa que está com depressão, só sente tristeza e frustração e só alimenta estas emoções, entra-se num hábito (…) a pessoa precisa entender que precisa sair dali, mas precisa querer e acreditar que há algo melhor fora deste ciclo”.
Da sua experiência profissional, os homens lidam com estas questões de forma diferente, porque foi-lhes incutido que falar de vulnerabilidades e emoções é sinal de fraqueza. “A sociedade sempre incutiu que chorar é sinal de fraqueza mas quando não choram o choro vai para dentro”.
Daí que Ana defende que se fala tanto do empoderamento feminino e de igualdade, mas não se pode apenas empoderar as mulheres. “No que toca a igualdade de direitos e oportunidades sim, (falar) mais no contexto feminino, só que no que toca ao resto, temos de abordar no geral como sociedade, para que os homens também sigam esse crescimento e evolução da mulher. É importante também envolver os homens nestas questões e nos debates faltam homens”.
Apesar de salientar que a vida está sempre em mudança, no futuro próximo, Ana imagina-se ainda a viver em São Vicente e com uma família.
Quanto à Kre Ser, espera que a empresa seja reconhecida pelo seu profissionalismo e que tenha muitas parcerias com a mesma linha de objetivos e com muitas pessoas a procurar os seus serviços.
Quanto ao país, vê Cabo Verde em crescimento mas salienta que este deve ser em várias áreas.
“Imagino-me mesmo rodeada de pessoas interessantes”, diz. “Cabo Verde é muito do dia a dia e do presente e não estar sempre a pensar no dia de amanhã”.





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