Wake Up, Queen: o movimento que há três anos procura ajudar cabo-verdianas a libertar-se de relacionamentos abusivos

“De geração em geração nos ensinaram que as mulheres têm de aguentar porque ‘as mulheres são assim: sofrem e depois vencem’. Mas podemos vencer sem sofrer, não?”. A questão é colocada pela presidente da associação Mónica Coelho.

Surgiu em julho de 2019 como um grupo nas redes sociais. Depressa cresceu e hoje o Wake Up, Queen conta com mais de 13 mil membros online. Saltou do online para o “mundo real”, transformou-se num movimento e desde janeiro de 2022 que passou a ser formalmente uma associação.

Professora de inglês de profissão e ativista social por vocação. Desde a época do liceu que Mónica Coelho, de 36 anos, recorda que já era uma jovem de causas. Em entrevista ao Balai, a mentora do grupo e agora presidente da associação Wake Up, Queen, recorda como tudo começou.

“Sempre achei que as mulheres deveriam ter uma voz mais ativa, que temos esta necessidade de ativar a nossa voz de forma a sermos também ouvidas. Considero (…) a mulher deve quebrar o silêncio para denunciar aspetos que não estão bem e que podem ser mudados, acredito que podemos influenciar de uma forma positiva. Não estamos mais numa época em que as mulheres ficavam em casa a cuidar das crianças, podemos ter uma voz ativa não só na rua, mas também em nossa casa, aí que começa a mudança (…) Acredito no potencial da mulher”.

Dez anos antes da criação do movimento Wake Up, Queen (‘Acorda, Rainha’ em português), Mónica recorda que juntamente com outras mulheres chegou a criar uma associação para a juventude, ambiente e desenvolvimento e trabalhou durante cerca de dois anos com mulheres que viviam nos litorais de Santiago e trabalhavam com a apanha de inertes.

Mesmo enquanto professora no liceu de Achada Grande Frente diz que sempre procura incentivar nos seus alunos uma cidadania mais ativa. “A escola está suja? Vamos nos reunir para limpar. A juventude está perdida? Vamos nos juntar e fazer algo”.

Em 2019, esteve nos EUA num fórum da ONU com o foco nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e onde conheceu outras mulheres africanas com um percurso inspirador. Este momento foi um dos impulsionadores para o Wake Up, Queen.

Mas o surgimento do grupo deu-se porque durante vários anos a própria Mónica também viveu um relacionamento abusivo e só nos dois últimos anos da relação começou a consciencializar-se do que estava a viver e conseguiu sair da relação. “Pensei para comigo que eu não poderia libertar-me sozinha, já que muitas mulheres estavam a viver na mesma situação e muitas não estando conscientes disso. Por isso decidi que iria partilhar o que sei para que mais mulheres possam salvar-se”.

O Wake Up, Queen começou como um grupo online porque permitia atingir vários públicos, quer a nível local, quer a nível da diáspora. “Quando despertei estava na Europa e vi que as cabo-verdianas na Europa sofriam muito, as crioulas na América também. Porque levamos a cabo-verdianidade para todo lado e os homens cabo-verdianos têm a tendência de serem criados dentro de uma teia de masculinidade tóxica e assim (que se perpetua o ciclo) e as mulheres vão sofrendo”.

Em poucos dias, o grupo tornou-se popular e os membros começaram a aumentar diariamente. “Em menos de uma semana já éramos mais de mil”, diz a mentora e acrescenta que as mulheres queriam falar sobre o tema e ao trazer o seu exemplo concreto acabou por facilitar.

“Falar na primeira pessoa ajudou. Elas sentiram-se mais à vontade, com maior abertura para falar. Elas sabem que nós falamos a mesma língua”.

“Conhecimento tem poder”, salienta Mónica e explica que foi através das suas pesquisas online e dos fóruns que foi integrando que conseguiu sair do ciclo vicioso onde estava.

Outro aspeto salientado pela professora é que um relacionamento abusivo nem sempre se traduz em violência física, mas sim em lavagem cerebral, perseguição, muitas ameaças, chantagens, que acabam com o psicológico das mulheres.

Encontrou muita informação em grupos brasileiros e foi onde conheceu a página de uma advogada brasileira, Lucy Rocha, que é especialista em Relações Tóxicas. “Aprendi muito com ela e comecei a entrar em grupos (sobre relações abusivas) de outros países como Austrália, Reino Unido, Estados Unidos, fui fazendo as minhas formações”.

Já com o grupo criado, Mónica sentiu a necessidade de fazer uma formação em coaching para fazer melhor acompanhamento no grupo.

‘Wake Up, Queen’, de grupo a movimento

 

O Wake Up, Queen conta atualmente com mais de 13 mil membros online e passou de um grupo no Facebook a um movimento devido ao engajamento dos membros. Em agosto de 2019 realizaram o seu primeiro evento no Auditório Nacional, na cidade da Praia.

 

Em 2020 promoveram a marcha ‘Mete a Colher’ que envolveu cerca de 200 pessoas, número que no entender da promotora deveria ser superior devido à quantidade de membros ativos online.

Na sua maioria, são mulheres com idades compreendidas entre os 30 e os 40 anos, com destaque para a cidade da Praia, mas existe uma boa parte que está na diáspora.

Com a pandemia a regularidade dos eventos teve de passar essencialmente para o online.

Desde janeiro de 2022 que são uma associação formalmente constituída com 12 membros, de várias ilhas do país, e a instituição é presidida pela Mónica Coelho. Tem núcleos em quase todas as ilhas, com exceção de Fogo e Brava.

Em 2023 ambicionam fazer um périplo pelas ilhas para levar o “despertar” às mulheres de Cabo Verde.

Uma mulher que já ganhou coragem para expor nas redes sociais a sua situação é porque está mesmo aflita. O nosso dever é acolhe-la. E quando vejo, fora do grupo, homens a posicionar-se a favor destas mulheres, e outras mulheres não, isso é triste (…)”, explica a ativista.

Por isso, em março deste ano, por ocasião do Dia da Mulher Cabo-verdiana, o grupo promoveu um evento em Santa Cruz em prol da união feminina já que Mónica acredita que muita da rivalidade feminina é instigada desde terna idade em que as mulheres são educadas para estar em constante competição com outras mulheres. “Acredito que se trabalharmos este aspeto, estaremos a dar largos passos”.

Uma das questões que mais procura salvaguardar no grupo é a privacidade, mesmo nos testemunhos anónimos, atualmente pede às utilizadoras para alterar os dados nos testemunhos já que houve casos de relatos aos quais foram feitos ‘prints’ e levaram à saída de algumas mulheres.

Pessoalmente, Mónica já foi alvo de ameaças (por ocasião da Marcha de 2020) e chegou a recorrer à polícia para denunciar o caso. “Sinto que sou uma pessoa non grata para os homens, como se fosse uma ‘desviadora’ de mulheres”.

Defende que o primeiro trabalho se prende com o defender da consciência feminina. De um modo geral, a ativista acredita que existe uma falta de cidadania ativa no país, o que também condiciona a participação das pessoas.

Não sou anti relacionamentos. Sou casada, sou mãe de rapazes”, esclarece e acrescenta: “Não posso ser contra os homens. Estou a fazer um trabalho junto das mulheres para que possamos nos posicionar quando as coisas não estão bem (…) É isso que não nos ensinaram. De geração em geração nos ensinaram que as mulheres têm de aguentar porque “as mulheres são assim: sofrem e depois vencem”. Mas podemos vencer sem sofrer, não?”

Por sugestão de uma das integrantes do grupo, uma cabo-verdiana que vive na Suíça, Mónica criou um grupo de autoajuda para mulheres vítimas de violência – Flor de Lótus – onde cerca de 10 mulheres se reuniam aos sábados para conversar. Apesar de atualmente o grupo estar inativo por causa da pandemia, Mónica explica que duas das integrantes conseguiram sair dos respetivos relacionamentos.

“Já ouvi que não adianta falar destes temas, mas não concordo, nem que seja por causa de uma só mulher (que saiu do relacionamento abusivo) já valeu a pena”, diz e explica que é frequentemente contactada por Ex vítimas de relacionamentos abusivos e violentos.

Por outro lado, também recebe chamadas de vítimas a dizer estão aflitas ou então a reclamar da morosidade da justiça. Nestes casos encaminha para a esquadra onde há mulheres polícias com as quais as vítimas sentem-se mais à vontade, para fazer a queixa. “A queixa é uma prova, não devemos subestimar o poder disso”. Também aconselha às mulheres para sair de casa em caso de ameaças que diz que não devem ser desvalorizadas.

Paralelamente, criou o Instituto Metamorfose que funciona online e é nesses moldes que também promove formações e sessões de mentoria, muitas vezes gratuitas, e quando não se sente capaz de ajudar aconselha a procurar ajuda de um psicólogo, por exemplo, mas muitas mulheres negam-se a ir, na maioria dos casos por vergonha.

“Muitas mulheres acham que podem mudar os homens, mas as pessoas só mudam se quiserem”.

A professora ativista

 

Questionada sobre como concilia a vida de professora com o ativismo, Mónica Coelho explica que o que torna as coisas mais fáceis é o facto de as atividades acontecerem online. “As lives (diretos online) ajudam muito”.

Chegou a convidar a jurista brasileira Lucy Rocha, cujas as palestras assistiu no início do seu processo, para participar num direto nas redes sociais. Outro direto que foi popular abordou as subtilezas de um relacionamento abusivo.

Também promove palestras e sessões de mentoria com o marido sob o lema “Nos Dos”, com o qual desde 2021 tem trabalhado com casais cabo-verdianos e onde tem trabalhado vários aspetos como a comunicação no relacionamento. E apesar de vários homens terem participado nas iniciativas, a ativista salienta que eles ainda são mais resistentes à mudança e têm alguma dificuldade em expressar os sentimentos.

Sede da associação

“A nossa principal ambição é ter uma sede própria”, afirma a presidente da associação Wake Up, Queen e apesar de já terem identificado o local, a falta de fundos tem dificultado a conclusão deste sonho.

Mónica Coelho explica que já tem também vários profissionais com disponibilidade de fazer voluntariado para a associação. Tendo um espaço a ideia é depois criar no local um banco alimentar e uma loja solidária.

Foto cedida
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