Sexóloga educacional cabo-verdiana: “O problema de base é sempre o mesmo: a comunicação”

Há cerca de uma década, a cabo-verdiana Irina Marques tinha concluído o ensino superior em Portugal e resolveu apostar numa área ainda rodeada de tabus, mas que à partida iria garantir-lhe o autoemprego. Surgia assim a marca Flame Love Shop. Especialista em Sexologia Educacional e Aconselhamento para casais, Irina Marques explica em entrevista ao Balai que a comunicação e a intimidade “são algo que falta bastante aos casais hoje em dia”.

Ao concluir a sua licenciatura em Serviço Social, em Portugal, a cabo-verdiana Irina Marques cedo entendeu que provavelmente não iria encontrar emprego na sua área de formação. A trabalhar em part-time num call center e grávida, a jovem cabo-verdiana resolveu que tinha de apostar no autoemprego.

 

“Algo importante para quem quer ser empreendedor é o valor disponível para o investimento (inicial) e eu não tinha qualquer fundo de maneio”. E foi assim que Irina começou a pesquisar que apoios estatais existiam e optou por recorrer a um programa de microcrédito em Portugal.

 

Fez uma pesquisa sobre em que áreas poderiam investir com a sua formação profissional. Era 2011 e só se falava em crise em Portugal e o mercado não estava favorável, recorda.

 

Na altura, leu um artigo que falava sobre duas áreas que pouco ou nada eram afetadas pela crise: a sexualidade e a tecnologia. “Bom, a minha área de formação nada tinha a ver com tecnologia. Daí pensei: Porque não sexualidade?”

O primeiro desafio foi criar um conceito de sexualidade que não carregasse uma conotação pesada”

“Tudo o que está relacionado com a sexualidade era visto com um olhar muito crítico, como um mundo muito promíscuo. O primeiro desafio foi mesmo esse criar um conceito de sexualidade que não carregasse uma conotação pesada e pornográfica”.

 

Dava-se o pontapé de saída para a Flame Love Shop, uma loja de erotismo e sexualidade, onde a cabo-verdiana apostou numa decoração e num ambiente muito acolhedor. “É como se estivéssemos numa casa de estilo vintage”.

 

Três anos após o lançamento da marca, Irina Marques chegou a vencer um prémio na área de microcrédito como um caso de sucesso. Hoje emprega 11 pessoas (incluindo a própria) e conta com duas lojas na área metropolitana de Lisboa: em Almada e Corroios.

“Temos tido um crescimento de ano para ano e temos aguentado apesar de tudo”, diz satisfeita.

 

Com o passar do tempo, Irina entendeu que muitos clientes da loja precisavam de aconselhamento e resolveu apostar há cerca de três anos em duas pós-graduações: uma em Sexologia Educacional e outra em Aconselhamento Sexual.

 

Devido às restrições por causa da covid-19, inicialmente o atendimento era feito online, mas já existe a vertente presencial.

Começamos a refletir e a pôr em causa algumas coisas que já não fazem sentido, mesmo a nível da religião”

“Há uma mudança social. Antigamente os relacionamentos tinham de ser heterossexuais para se ter filhos, hoje em dia podemos ser o que quisermos, apesar das críticas da sociedade.  Começamos a refletir e a pôr em causa algumas coisas que já não fazem sentido, mesmo a nível da religião. (…) A maior parte das pessoas que temos em aconselhamento são pessoas que precisam de desmistificar questões como a orientação sexual, formas de estar na vida e questões de identidade de género”.

Apesar de reconhecer que a maior parte dos que procuram aconselhamento sexual estar bastante informada, reconhece que ainda persiste o medo de julgamentos. “Temos o receio de dar uma opinião sincera com o medo de sermos julgados (..) ou seja num grupo de amigos, uma pessoa acaba por dizer o que será bem aceite pelos outros”.

 

“O problema de base é sempre o mesmo: a comunicação. As pessoas têm medo de ser mal-interpretadas”, explica e acrescenta que existe ainda uma certa insegurança em falar, por exemplo, de fantasias sexuais com medo de ser mal-interpretado. “Acho que é algo que falta bastante aos casais hoje em dia: a comunicação e a intimidade”.

 

“Ainda estamos muito presos a modelos antigos e a heranças sociais muito fortes. “Se olharmos para o ser humano a nível antropológico, verificamos que não está provado que o ser humano seja monogâmico, estamos presos na tradição e na cultura que é contra o divórcio (…) apesar de pouco a pouco já se verificar menos julgamento e maior aceitação (…).

 

Mulheres mais abertas ao diálogo

 

Declara que elas estão, sem dúvida, mais abertas ao diálogo e à partilha de experiências do que o público masculino. Trabalha com grupos de mulheres e promove regularmente encontros intitulados reuniões de Tuppersex, numa alusão aos encontros do tupperware.

 

Apesar de ainda não estar presente localmente, a marca liderada por esta cabo-verdiana acaba por ter muitos clientes em Cabo Verde, todas mulheres, com as quais comunica via as redes sociais. Está inclusive a estudar uma parceria com um parceiro local para estar mais próxima do público cabo-verdiano.

 

“Sinto que as mulheres cabo-verdianas estão mais preocupadas com a sua sexualidade”, diz a especialista e salienta que é importante que as mulheres estejam mais preocupadas em explorar a sua sexualidade e em conhecer o seu próprio corpo (..) inclusive mais do que os homens.

 

Relata ainda que as mulheres quando compram algum dos produtos que vende assumem claramente para o que é, já os homens, mais recatados, “fingem” telefonemas para amigos, por exemplo.

 

Pandemia obriga a inovar e apostar no digital

 

Até agora, só fechou as lojas durante dois meses, de janeiro a março de 2021, devido à pandemia da covid-19. Os condicionalismos derivados da pandemia levaram a apostar no digital, onde tiveram um aumento das vendas online, e na respetiva entrega a domicílio. “Esta situação obrigou-nos a explorar outras alternativas”, diz e mostra-se confiante no futuro: “Acredito que iremos sair mais fortes”.

 

Depois de pesquisas de opinião, chegaram à conclusão de que o impacto da quarentena junto dos casais (em Portugal) até que pode ser considerado positivo e levou a uma aproximação de casais.

 

Já para os solteiros a situação está a ser mais complicada. A sexóloga explica que inclusive existe um novo conceito inglês para classificar o receio dos solteiros de voltar a sair – o FODA, a sigla de Fear of dating again (medo de voltar a namorar, em tradução livre). O receio de voltar a sair, de namorar e conhecer pessoas novas na sequência da pandemia da covid-19.

 

“Se vou sair com uma pessoa que não conheço, como devo agir? Tiro a máscara ou não?”, dá como exemplo de algumas das dúvidas que surgem.

 

Sugestões para se sentir mais realizado

 

Em jeito de conclusão, Irina Marques deixa algumas dicas para se sentir mais realizado sexualmente:

  • Estar bem consigo próprio e apostar na exploração sexual. Salienta que a masturbação é muito importante;
  • Comunicação e intimidade numa relação é fundamental para que haja confiança;
  • Abrir horizontes, partilhar fantasias e ter menos assuntos tabu;
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
wordpress

Agenda

wordpress