Analistas cabo-verdianos alertam para riscos do sistema informal ‘totocaixa’

Analistas cabo-verdianos alertam para riscos do sistema informal ‘totocaixa’

Analistas da área económica e financeira em Cabo Verde ouvidos pela Lusa, alertaram hoje para os riscos do sistema informal de poupança 'totocaixa', apesar de reconhecerem algumas virtudes práticas.

Segundo referiram, quem pensa em poupar ou recorrer a crédito tem vantagens em aceder ao sistema formal, ou seja, à banca comercial.

O presidente da Associação para a Promoção da Educação Financeira em Cabo Verde considerou mesmo que deve existir uma forma facilitada de guardar o dinheiro nos bancos.

“Eu não defenderia a continuidade da ‘totocaixa’. Acho que deveria existir um lugar, algum mecanismo de formalidade, onde as ‘rabidantes’ (vendedoras) possam fazer o depósito”, disse António Batista.

O analista recorreu ao exemplo de vendedoras, ouvidas numa reportagem divulgada hoje pela agência Lusa.

Segundo o economista e de acordo com testemunhos, um dos motivos que levam as vendedoras a recorrer à ‘totocaixa’ é a falta de tempo para filas nos bancos, por isso, há que criar um lugar de fácil acesso, ou um intermediário, para que possam guardar dinheiro em segurança e sem perder a venda dos produtos, defendeu.

O analista considerou que a ‘totocaixa’ não é justa e faz com que o dinheiro fique “empatado”, sem que se possam aproveitar promoções, por exemplo.

Por outro lado, por se basear num sistema rotativo de saque (semanalmente, todos depositam, mas só um recolhe o valor total), implica riscos.

“A ‘totocaixa’ é uma forma solidária de entreajuda, mas tem duas dimensões: para quem toma o dinheiro é crédito, do melhor que existe, porque não paga juros. Fica isento de todo o risco. Quem fica para o fim, assume os riscos de inflação” e de incumprimentos de quem não paga.

António Batista reconheceu ainda que a ‘totocaixa’ tem ajudado as vendedoras a construírem os seus negócios, mas apontou a falta da educação financeira como fator que as leva a ver esse meio informal como “única alternativa” e insistiu: o banco é a melhor forma de poupar dinheiro.

Batista acredita que a digitalização poderá facilitar a poupança no banco, através de pagamentos eletrónicos, e por essa via ajudar o público a transitar para um mecanismo formal “com menos riscos”.

A analista de política monetária Evandra Martins Neves disse que não vê nada de errado quando alguém leva a ‘totocaixa’ “muito a sério” – sejam vendedoras ou outros trabalhadores -, mas deixou claro que é um mecanismo informal.

“Não é poupança, é crédito, porque o dinheiro passa para a mão de outra pessoa, que faz uso dele como bem entender, e depois devolve, sem pagar por isso. É informal, porque o dinheiro não passa por nenhuma instituição financeira”, salientou.

Evandra Neves afirmou que a ‘totocaixa’ é também uma forma de realizar sonhos, objetivos financeiros e garantir a resiliência dos comerciantes informais em caso de queda inesperada nas suas vendas.

Mas um dos riscos deste sistema informal é a dificuldade no acesso ao crédito formal.

“Já que o dinheiro não é depositado em nenhuma instituição de crédito, os membros ficam sem historial de movimentação financeira, critério fundamental na análise e aprovação de um crédito”, sustentou

Para a analista de política monetária, a melhor forma de poupança é aquela que se adapta aos seus sonhos ou de acordo com os objetivos pretendidos.

“Para um objetivo de curto prazo, uma forma de poupança pode ser simplesmente depositar ou transferir mensalmente uma certa quantia para uma conta à ordem num banco. Mas cada pessoa pode escolher uma instituição financeira ou outro produto”, exemplificou Evandra Neves, apontando que “a poupança não deve ser feita à toa”.

 

Lusa

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