Após escapar à morte e um passado de privações, jovem mindelense dá volta por cima ao apostar na entrega de refeições

Michel Lima trabalha como entregador de comida na cidade de Mindelo, onde é conhecido pelo seu negócio, Marmita Kent. Para trás ficou uma infância marcada pelas dificuldades financeiras, uma adolescência conturbada e um incêndio que quase lhe tirou a vida.

Quem vê Michel Lima a fazer entregas de moto não imagina o trajeto que este jovem de 23 anos teve de percorrer antes de apostar no autoemprego. Em entrevista ao Balai, Michel conta como conseguiu superar os momentos delicados da vida e as batalhas que travou durante a infância e a adolescência, um período marcado pela ausência do pai e pela falta de recursos financeiros na família.

Uma infância comprometida

Nascido em 2000, na cidade da Praia, Michel foi levado pela mãe para a ilha de São Vicente quando tinha apenas um ano de idade. Foi no bairro de Ribeira de Julião que o menino cresceu e passou parte de sua infância sob os cuidados da mãe e a realidade de uma família de poucos recursos que vivia perto da lixeira.

“Quando era pequeno, passávamos por muitas dificuldades em casa, o que levou com que eu e a minha mãe frequentássemos a lixeira. Isso tornou-se um hábito, pois víamos aquilo como uma forma de encontrar comida ou algo para vender”, revela e diz que vivenciou esta situação por sete anos.

Apesar de sempre contar com a presença da mãe na vida, Michel lamenta o facto de não ter a oportunidade de ser registado pelo pai e muito menos de ter crescido sob os cuidados do mesmo. Facto que, segundo conta, fez com que tivesse problemas ao longo do ensino básico devido à falta de documentos necessários para regularizar a sua situação perante o sistema educativo, na época.

“Na escola primária, sempre aconteciam situações em que frequentava as aulas durante um ano inteiro e quando chegava o momento de renovar a matrícula, o processo sempre era barrado por conta dos documentos, o que me obrigava a ficar um bom tempo longe do recinto escolar e cada vez mais perto da realidade da lixeira”, conta.

“Na altura, não tinha nenhuma expectativa em relação ao meu futuro, a única realidade existente era aquela. Sequer sonhava com a possibilidade de viver uma vida fora da lixeira”, completa.

Com a questão dos documentos solucionada, Michel só conseguiu prosseguir com o ensino básico aos 10 anos e, após um tempo, conseguiu completar o sexto ano de escolaridade.

Adolescência e drogas

O que antes parecia ser uma batalha vencida, foi logo substituída por uma nova: o ingresso no ensino secundário, mas não pôde fazê-lo porque tinha de custear os estudos, já que não estava dentro do limite de idade exigido para frequentar o ensino público.

“A partir daí, sem poder frequentar o liceu, passei a ficar de vez na lixeira. Onde comecei a juntar sucatas, ferro e cobre para vender, e logo fiz daquilo um trabalho”.

Foi nesta época que teve o seu primeiro contato com as drogas. “A situação ficou mais grave quando me enturmei com um grupo de rapazes que conheci na lixeira. Além do uso de drogas, também cometíamos algumas delinquências, como roubar casas, agredir pessoas e tantas outras coisas que hoje me arrependo”, recorda.

Para o jovem, os acontecimentos da adolescência estavam mais relacionados com o “estado de espírito e o abalo emocional” do que qualquer outro motivo – tudo era uma forma de fugir ao contexto em que vivia com a família.

“Nascer de novo”

Mas a vida de Michel teve uma reviravolta. Tudo começou na noite de Natal de 2018, quando regressou de uma festa e decidiu descansar na antiga casa da família, uma casa improvisada dentro de um autocarro velho, onde vivia com a mãe e outros irmãos.

Por conta das condições da estrutura, a família não tinha como fazer uma instalação elétrica no local, por isso, a iluminação era feita a partir da luz de velas. Naquele dia, Michel encontrava-se sozinho em casa e, quando adormeceu, uma vela que iluminava o espaço acabou por originar um incêndio.

“O calor e a fumaça que faziam no local incomodaram-me ao ponto de me acordar, quando vi que a casa estava em chamas a única coisa que me passou pela cabeça era que ia morrer. Apesar de já ter tentado suicídio antes, não queria morrer daquela forma”, relata.

“O lugar estava tão quente que não conseguia abrir a porta para sair. Suava muito e parte das minhas costas também começou a queimar. Estava prestes a render-me e a aceitar aquele destino, quando de repente recuperei a esperança e decidi levantar-me para tentar puxar a porta novamente e finalmente consegui abri-la e sair dali”, explica. Segundos depois explodia a botija de gás.

Após o episódio, a família que antes vivia com pouco, passou a não ter nada. Uma situação que aos poucos começou a mudar, graças às contribuições dadas por pessoas que se solidarizaram com a história.

Aposta no autoemprego

Com a ajuda recebida, Michel e a família começaram a se reerguer. Para o jovem, uma “ajuda em especial” foi responsável pela mudança. Por convite da mãe, o rapaz começou a frequentar uma igreja e travou amizade com alguns fiéis que começaram a dar-lhe oportunidades.

Depois de algum tempo a frequentar a igreja, Michel conheceu a Dona Dacruz que lhe propôs uma parceria: a senhora fazia cachupas guisadas e o jovem ia para as ruas vendê-las.

“Isso foi em 2019 e vendíamos as cachupas a pé. Com o passar do tempo, ganhamos uma bicicleta e passamos a vender assim, mas com a chegada da pandemia (covid-19), em 2020, as vendas diminuíram e nós paramos”, fala sobre o primeiro trabalho de entregador, que originou na criação de uma página nas redes sociais denominada “Cachupa guisod”.

Marmita Kent

Em 2021, após a pausa no negócio de entregas, o jovem mindelense conheceu uma outra senhora, com quem trabalha atualmente, e juntos retomaram o negócio, que além da cachupa, inclui outras refeições, como cafés, almoços e lanches. O que fez com que mudassem de nome de “Cachupa guisod” para Marmita Kent. O sistema manteve-se: a senhora executava as refeições e o jovem as entregas.

“Embora a página esteja focada nas entregas, temos um espaço físico onde as pessoas podem se dirigir para fazer as refeições no local. Por isso, também colaboro na cozinha a organizar os pratos”, explica.

Com o avanço do negócio, Michel celebra as conquistas feitas, principalmente a aquisição de uma moto que substituiu a bicicleta nas entregas. Futuramente, o jovem tem a intenção de adquirir um carro.

Recuperar o tempo perdido


Além das refeições, Michel também se arrisca na entrega de outros produtos, inclusive os que são vendidos online. Uma iniciativa que, conforme conta, ainda se encontra em fase experimental.

À medida que está a conseguir conquistar a sua autonomia, o jovem entregador compartilha um sonho maior – conseguir uma casa própria para a mãe.

“Nunca tivemos a sensação de viver numa casa em que possamos chamar de nossa, por isso, sigo este sonho com fé para conseguir conquistar tudo aos poucos e sem muita pressão” partilha.

Ao analisar toda trajetória feita e os momentos delicados pelos quais passou, Michel diz que deseja mudar a vida de outros jovens que passam pela mesma situação, principalmente os que vivem na lixeira, sendo que ainda está a pensar na melhor forma de o fazer, “sem expor a imagem destas pessoas”.

Aos 23 anos, Michel ambiciona igualmente concluir o ensino secundário. Quanto às lições tiradas da fase mais dura da vida, destaca a importância de “dedicar parte do tempo a coisas que realmente agregam valores a nós mesmos”.

Às vezes um segundo ou uma hora podem fazer toda a diferença nas nossas vidas, por isso digo que não devemos perder o nosso tempo com o que não tem prioridade e muito menos em coisas para surpreender os outros, enquanto prejudicamos a nós mesmos”, conclui.

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