Ascensão da extrema-direita na França preocupa africanos?

A extrema-direita lidera as legislativas francesas com 33,5% dos votos. À DW, analista fala da preocupação, especialmente entre africanos em França, sobre a possível ascensão do Rassemblement National ao Governo.

Desfrutando da glória de uma vitória projetada de 33,5% na primeira volta das eleições parlamentares francesas no domingo à noite, o jovem presidente do partido de extrema-direita — Rassemblement National (RN), Jordan Bardella, utilizou o seu primeiro discurso para se apresentar como um estadista sério, mais do que apenas o rosto da campanha de extrema-direita em França.

“No próximo domingo (07.07), se o povo francês nos der uma maioria absolutapara pôr o país de pé, pretendo ser o primeiro-ministro de todos os franceses, ouvindo a cada um deles, respeitando a oposição e atento à unidade nacional,” disse o jovem de 28 anos a uma multidão em Paris.

A extrema-direita parece mais próxima do poder do que em qualquer outro momento desde a ocupação nazi da França durante a Segunda Guerra Mundial, com Bardella a posicionar-se para servir como primeiro-ministro numa desconfortável “coabitação” com o presidente centrista de longa data, Emmanuel Macron, até ao fim do seu mandato em 2027.

Em segundo lugar nas sondagens, com uma projeção de 28,5%, ficou a ampla coligação de esquerda, a Nova Frente Popular. A aliança, que inclui os socialistas de centro-esquerda, verdes e comunistas, é liderada por Jean-Luc Mélenchon do partido “França Insubmissa”.

Os centristas de Macron ficaram em terceiro lugar, com a sua aliança centrista, ganhando apenas 22% dos votos, de acordo com a contagem. Embora a posição de Macron não esteja em perigo (ele foi reeleito para um segundo mandato em 2022), a sua grande aposta ao convocar eleições antecipadas parece ter saído pela culatra.

Depois de, em junho, a RN ter obtido uns impressionantes 31% nas eleições para o Parlamento Europeu, contra 14% do grupo de Macron, o Presidente, que se viu encurralado num parlamento fragmentado, lançou o desafio. Os franceses responderam votando na RN, como mostram as projecções de domingo.

Segundo o guineense, Flávio Batican Freira, residente há três décadas em Paris, muitos franceses de origem estrangeira, e especial os africanos em França, estão preocupados com a possibilidade da entrada do Rassemblement National de Marine Le Pen e Jordan Bardella no Governo, uma vez que o partido mantém um discurso marcadamente anti-imigração.

“Aqui em França está a sentir-se um clima de medo e de preocupação. A politica deles é virada praticamente contra a migração e a população da origem africana está realmente preocupada”.

Animosidade por todo o lado

Para Sophie Pornschlegel, analista do grupo de reflexão Europa Jacques Delors, muito depende do bloco de esquerda NPF e do tradicional partido de direita Republicanos.

A posição do Partido Republicano, no que diz respeito à RN, é menos clara. O chefe do partido, Eric Ciotti, tem vindo a pressionar o seu outrora poderoso partido, que ficou em último lugar com 10% dos votos no domingo, a juntar-se à RN. Bardella também se dirigiu aos republicanos no seu discurso. Mas, como salientou Pornschlegel, os republicanos estão ferozmente divididos sobre se devem trabalhar com o RN.

Ao mesmo tempo, alguns eleitores centristas terão dificuldade em votar numa coligação liderada pelo populista de esquerda Melenchon, nos lugares em que o partido de Macron se retira por ter ficado em terceiro lugar, salienta.

“Depende muito se haverá algum tipo de coligação contra a extrema-direita ou se ela se desintegrará diz o guineense residente em Paris Flávio Batican Fereira: “O Presidente Macron reuniu hoje todos os seus ministros para pedir que haja uma especie de uniao contra A Frente Nacional. Na segunda volta está a preparar uma mobilização para evitar que um o Partido da extrema direita possa chegar a testa de um governo Frances.

Parlamento francês “quase ingovernável”

Com tantas negociações políticas previstas, a composição efectiva da futura Assembleia Nacional é muito difícil de prever neste momento, diz Pornschlegel. “Depende muito se haverá algum tipo de coligação contra a extrema-direita, ou se esta se vai desintegrar”, disse à DW por telefone.

De acordo com Mujtaba Rahman, analista do Eurasia Group, a câmara baixa parece estar polarizada. “Com estes números, a extrema-direita terá dificuldade em obter uma maioria no próximo domingo”, escreveu Rahman na rede social X. “Mas a nova Assembleia [Nacional] de França será provavelmente um lugar barulhento e quase ingovernável.”

Para Pornschlegel, um parlamento suspenso parece bastante provável nesta fase. “Penso que Macron ainda tem muito poder, constitucionalmente, para tomar as decisões sobre quem será o próximo primeiro-ministro.”

Flávio Batican Fereira também acha que Emmannuel Macron, cujo mandato termina em 2027 terá uma palavra decisiva sobre quem será o próximo primeiro-ministro, inclusive não descartou a possibilidade de convocação de eleições presidenciais antecipadas.

Aconteça o que acontecer, Macron acredita que a França está provavelmente a caminhar para um impasse político de uma forma ou de outra, ou possivelmente para um governo tecnocrático de gestão. As coisas podem ficar tão más que Macron poderá mesmo convocar eleições presidenciais antecipadas, argumenta. “É impossível governar no tipo de cenários que estamos a ver”, acrescenta Pornschlegel.

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