Cabo Verde encara com pouca seriedade sinais de descrença nos políticos, diz sociólogo

O sociólogo Redy Lima disse hoje à Lusa que o país tem encarado com pouca seriedade os inquéritos à população que revelam uma descrença crescente nos políticos, tal como o que foi divulgado na última semana.

“Estes relatórios são importantes, mas acho que não são levados muito a sério”, reagiu o estudioso, ao analisar o terceiro inquérito sobre Governança, Paz e Segurança, referente a 2023, publicado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), segundo o qual cada vez menos pessoas sentem que os políticos respondem às suas necessidades.

Em relação aos inquéritos anteriores, “os dados mostram que esta perceção tem diminuído nos últimos anos, passando de 17,1% [da população residente o arquipélago] em 2013, para 15,7% em 2016 e 14,2%, em 2023”, lê-se no resumo dos resultados.

Para Redy Lima, o documento é a continuação de outros, elaborados também pela Afrobarometer (organização não-governamental dedicada a inquéritos e estatísticas), que tem analisado desde há cerca de 15 anos.

Segundo o sociólogo, os cabo-verdianos não se sentem muito representados porque “não há uma política de proximidade” no arquipélago.

“Em Cabo Verde, temos uma espécie de ditadura partidária, onde quem é eleito, em vez de responder às necessidades dos cidadãos, responde às suas próprias necessidades, do seu grupo e do seu partido”, criticou, pedindo “novas abordagens” para inverter essa tendência.

O sociólogo disse que um grande indicador da “desconfiança” dos cabo-verdianos em relação aos políticos é a elevada abstenção nas eleições.

“É preciso refletir e dizer: estamos a falhar e é preciso mudar e fazer as coisas de forma diferente”, insistiu, nas declarações à Lusa.

Outras das conclusões do último inquérito do INE é que o número de cabo-verdianos preocupados com a corrupção diminuiu, mas ainda representa a maioria da população (65,4%).

Redy Lima notou que ainda há “muito tráfico de influência” em Cabo Verde, que é também uma forma de corrupção, mas que não vem nos relatórios.

O inquérito mostrou ainda que os cabo-verdianos sentem que as liberdades de imprensa e de expressão estão a ser menos respeitadas no arquipélago.

O inquérito baseou-se numa amostra de 4.962 agregados familiares, sendo que em cada agregado foi inquirida apenas uma pessoa com pelo menos 18 anos, cobrindo os 22 concelhos de Cabo Verde, entre outubro e dezembro de 2023.

Lusa

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