União Africana vê como “mais do que urgente” reforma das instituições internacionais

O presidente da comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat, afirmou hoje, em Nairobi, que “é mais do que urgente trabalhar numa reforma profunda” das instituições de governação financeira internacional, que não respondem às necessidades do continente.

“A gestão do sistema financeiro internacional, que escapa totalmente ao controlo de África, impõe-lhe custos de financiamento elevados, bem como o impacto negativo das crises financeiras”, criticou Faki Mahamat, na sessão oficial de abertura dos encontros anuais do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), que decorrem desde segunda-feira na capital do Quénia.

“A contribuição dos financiamentos externos para a gestão do desenvolvimento de África ficou muito aquém das expectativas, o que reflete mais uma injustiça para África”, apontou ainda, sublinhando tratar-se de uma “injustiça que tem muitas faces”.

“Embora não seja responsável pelo aquecimento global, África tem sofrido as consequências sem beneficiar da solidariedade financeira consagrada nas sucessivas declarações das várias conferências”, disse, na presença de uma dezena de chefes de Estado e de Governo do continente.

O Grupo Banco Africano de Desenvolvimento é a principal instituição africana de financiamento do desenvolvimento e reúne-se em Nairobi até sexta-feira para debater “A Transformação de África, o Grupo Banco Africano de Desenvolvimento e a Reforma da Arquitetura Financeira Global”, prevendo a presença de 3.000 participantes, entre políticos, governantes, economistas e especialistas de várias áreas, de todo o mundo.

Neste contexto, Faki Mahamat defende a “urgente” reforma das instituições internacionais, desde logo com o objetivo de “adotar soluções adequadas para os países confrontados com problemas de notação soberana, de endividamento excessivo, de efeitos das alterações climáticas, de evasão fiscal e de fluxos ilícitos, de reforço dos bancos multilaterais”.

“Para defender os interesses de África neste domínio, parece-me lógico convidar todas as instituições financeiras africanas aqui presentes, e mesmo as que estão ausentes, a apoiar a União Africana nestas mudanças nos equilíbrios económicos e financeiros mundiais”, apelou Faki Mahamat.

Acrescentou que a recente adesão da União Africana como membro permanente do G20 “marca um ponto de viragem decisivo” e “uma nova esperança para África se envolver no processo dinâmico de reforma da governação económica e financeira mundial”.

Lamentou o atraso na implementação das instituições financeiras da União Africana, que continuam adiadas, como o Banco Central Africano, o Banco Africano de Investimento, o Fundo Monetário Africanos ou a Bolsa Pan-Africana de Valores, que têm de avançar agora: “Chegou o momento de adotar um plano concreto para pôr no bom caminho”.

Estes encontros incluem a 59.ª Reunião Anual do Conselho de Governadores do Banco Africano de Desenvolvimento e a 50.ª Reunião do Conselho de Governadores do Fundo Africano de Desenvolvimento, decorrendo no Centro Internacional de Conferências Kenyatta, em Nairobi.

Segundo informação do BAD, apesar de um “crescimento económico sustentado ao longo das duas últimas décadas, a transformação económica de África continua incompleta”. O Produto Interno Bruto (PIB) real do continente cresceu 4,3% por ano entre 2000 e 2022, “em comparação com a média mundial de 2,9%, e muitas das 10 economias de crescimento mais rápido do mundo situavam-se em África”.

“Apesar deste sólido desempenho em termos de crescimento, a estrutura das economias africanas não se alterou significativamente nas últimas duas décadas, com os setores da agricultura, da indústria e dos serviços a representarem, em média, 16, 33 e 51%, respetivamente, do PIB global de África entre 2000 e 2022. Estes níveis são semelhantes aos registados na década de 1990”, recorda a instituição.

O Grupo BAD conta com 81 Estados-membros, entre 53 países africanos e 28 países fora do continente, incluindo Portugal e Brasil.

Lusa

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