Balaios carregados nas ruas do Mindelo ainda são sinónimo de informalidade

A venda informal com os tradicionais cestos cabo-verdianos conhecidos por balaios nas ruas do Mindelo é uma prática de gerações, negócio onde imperam mulheres e os anos de serviço são guiados pela data do nascimento do primeiro filho.

Carregando o produto no seu grande balaio de palha, Maria Cesarina Fortes, ou ‘Ía’, como é conhecida, de 63 anos, mãe de quatro filhos, vende junto ao antigo Liceu Gil Eanes, na ilha cabo-verdiana de São Vicente, há mais de quatro décadas. À conversa com a Lusa, confessa que as dificuldades financeiras, com o desemprego e a gravidez, empurraram-na para a informalidade da venda de rua, de doces a tabaco.

“Tinha 21 anos quando comecei a vender aqui, a minha primeira filha ia nascer e criei todos os meus filhos atrás do ‘balói’ [balaio], nesta mesma rua que me encontro até hoje. Antes trabalhava de empregada doméstica, mas depois que fui mãe, tive que passar a vender, para poder ao mesmo tempo cuidar dos meus filhos”, explica a vendedeira.

Com poucos estudos, ‘Ía’ teve como prioridade a educação formal dos filhos, para que pudessem ter outras condições de vida. Agora que já pode pensar na reforma, assume que deixar a venda e o seu balaio é o objetivo, no entanto admite que dependerá dos filhos para a sustentarem. Ainda assim, a venda e o balaio que a acompanha todos os dias carregado de tudo um pouco, também se tornou num “vício”.

“Continuo a vender até que meus filhos consigam tirar-me daqui. A mais velha já tem condições para isso, mas não sei se seria capaz de sair daqui algum dia para me acostumar com outra realidade ou ficar em casa”, ressalta.

O que começou há mais de 40 anos como uma forma de subsistência acabou por se tornar numa forma de vida. Uma renda que se faz de pouco a pouco, ao longo do dia, ou como estas vendedeiras apelidam, de “catar” o sustento. Períodos como o festival da Baía das Gatas, em agosto, o carnaval ou as festas de São João são melhores épocas para estas vendas ambulantes informais, em que carregam os balaios com tudo o que podem ou interessa aos clientes de ocasião.

A venda informal é uma realidade há muito enraizada na sociedade cabo-verdiana, embora com o número de mulheres que se dedicam à atividade em aparente queda.

Ainda no Mindelo, junto aos antigos correios da cidade, Isaura Neves, conhecida naquele ponto por ‘Zau’, procura clientes para as centenas de “drops” que carrega no balaio. Também já vendeu peixe e frutas para ajudar a mãe.

“Ainda nem havia calçada por aqui, ia comprar peixe e manga para revender e ajudar a minha mãe”, explica.

São quase 40 anos neste negócio, tendo interrompido a venda apenas quando se casou.

“Quando comecei a vender o meu primeiro filho tinha 04 anos e hoje tem 40. Éramos muitas a vender ‘drops’”, garante esta vendedeira, de 59 anos, sempre na mesma paragem.

‘Zau’ admite que o movimento já não é o mesmo, mas mesmo assim insiste em retornar todos os dias ao mesmo ponto.

“Temos que teimar, já que não consigo ficar em casa sem fazer nada. Este ano, para ter uma noção, não tenho como ir vender no festival da Baía das Gatas porque não tenho quem me ajude na venda e sinto-me doente. Porque já é tradição para mim”, desabafa.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) identificou em 2015 mais de 1.800 unidades de produção informal de comércio em São Vicente, mais de metade (58,8%) mulheres.

Um dos grandes desafios para estas mulheres é a incerteza de uma reforma, pelo que algumas tentam a dada altura uma pensão social, que em Cabo Verde ronda os 5.900 escudos (53 euros).

É o caso de Maria de Fátima, que faz a sua venda de balaio junto à Praça Nova do Mindelo. Com problemas de saúde, diz-se sem condições para continuar por muito mais tempo nesta vida, mas também confessa que não pode parar porque preciso do sustento do balaio.

Com 63 anos, ‘Fatu’, como também é conhecida, mãe de seis filhos, prefere trabalhar a partir das 19:00 e por vezes retorna de madrugada para casa, por vezes com o balaio ainda cheio de ‘drops’, chicletes ou cigarros, o que não corresponde a um bom dia de vendas.

“Já não tenho forças como antigamente para estar a vender aqui, pelos meus problemas de saúde, e estou para ser evacuada para Portugal. Há alguns anos que pedi uma pensão social, mas ainda estou à espera para ser contemplada”, remata.

Lusa

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