Bissau: “Está consumada a rotura entre os aliados do regime”

Fernando Dias, presidente em exercício do PRS, anunciou o fim do acordo parlamentar com o MADEM-G15 e APU-PDGB, que sustenta o Governo. Analista considerada que o PRS se quer agora aproximar de um novo aliado: o PAIGC.

Fernando Dias, presidente em exercício do Partido da Renovação Social (PRS), que tem vários dos seus dirigentes no Governo e que ajudou a instalar o atual regime guineense, anunciou no sábado (12.11) o fim do acordo político de incidência parlamentar com o Movimento para Alternância Democrática (MADEM-G15) e a Assembleia do Povo Unido-Partido Democrático da Guiné-Bissau (APU-PDGB).

O dirigente dos “renovadores” justificou a decisão, entre outros, com os problemas relacionados com o aumento do custo de vida, a alegada “falta de seriedade” para a realização das eleições legislativas no país e até a detenção, que considera “ilegal”, dos suspeitos do envolvimento na tentativa de golpe de Estado de 1 de fevereiro.

Sobre este assunto, Fernando Dias denunciou o alegado processo de criação de um tribunal ad hoc para julgar os detidos: “Nós não vamos admitir. Porquê um tribunal ad hoc? Isso quer dizer [que vão] formatar o tribunal, orientando os juízes para atuarem de acordo com as [suas] orientações e pretensões”, afirmou.

O político ameaçou convocar uma manifestação de rua caso as autoridades decidam avançar com essa “pretensão”. Alegou ainda que os verdadeiros envolvidos no caso “1 de fevereiro” estão soltos e a andar na rua, enquanto os inocentes se encontram detidos. Segundo Fernando Dias, isso deve-se ao medo das autoridades de a verdade ser conhecida.

Em declarações à DW África, o jornalista Armando Lona diz que, com o anúncio do presidente em exercício do PRS, “está praticamente consumada a rotura entre os aliados do regime”.

Agora, “resta saber como o PRS, já denunciante, pode continuar a fazer parte do regime de que passa a ser visto como opositor interno”.

Aproximação ao PAIGC?

No fim de semana, o dirigente do PRS, Fernando Dias, defendeu que o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) deve realizar o seu congresso, pondo assim fim aos sucessivos impedimentos para a realização do evento, por ordem judicial.

Para o jornalista Armando Lona, este é um sinal de uma nova aliança política entre os “libertadores” e os “renovadores”.

“Vê-se claramente que há uma aproximação progressiva entre o PRS e o PAIGC, tudo na perspetiva das próximas eleições”, comenta.

O congresso do PAIGC está agora marcado para 18 a 20 de novembro e, segundo Armando Lona, “há uma clara vontade de preparar o terreno para discussões que poderão levar a um acordo entre estes dois grandes partidos”.

Apelo ao diálogo

Entretanto, Guerry Gomes Lopes, coordenador nacional do Fórum das Organizações da Sociedade Civil da África Ocidental, diz-se “profundamente” preocupado com o ambiente político na Guiné-Bissau e apela ao diálogo entre os vários partidos.

“Temos a questão da Comissão Nacional de Eleições (CNE), sobre a qual é preciso criar consenso, e a própria questão da data das eleições legislativas. Esse diálogo tem que ser uma iniciativa da sociedade civil. Mas, para que o Presidente da República tenha uma intervenção de criar pontes de diálogo, tem que se revestir da figura de garante de estabilidade.”

Nenhuma autoridade, nem partidos políticos que compõem o Governo guineense reagiu, para já, à posição assumida pelo Partido da Renovação Social.

No discurso do fim de semana, o presidente em exercício do PRS falou também abertamente sobre o recente escândalo de tráfico de droga, em que supostamente estão envolvidos altos responsáveis do país.

Fernando Dias exigiu um pronunciamento do Governo sobre o assunto: “Nós não somos consumidores de droga, a Guiné-Bissau não conhece droga”, assegurou.

“Porque é que o atual Governo permite que se fale da droga no país e não faz nenhum pronunciamento sobre a versão real do que se diz?”, questionou Fernando Dias.

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