Cabo Verde deve trabalhar para evitar consequências por excesso de masculinidade – presidente LBCV

O presidente do Laço Branco de Cabo Verde (LBCV) defende que o país deve mudar o foco e começar a trabalhar os homens para evitar as consequências que transformam a mulher na maior vítima do excesso de masculinidade.

Clóvis Silva fez essa afirmação numa entrevista à Inforpress para falar da atitude do homem face a necessidade de ter mais atenção em relação à própria saúde e mais consciência sobre questões ligadas a igualdade e equidade de direitos entre homens e mulheres, no âmbito do Dia Internacional do Homem que se assinala hoje, 19 de Novembro.

Dentre as várias justificativas quanto ao homem cuidar pouco da sua saúde e violar direitos ligados à igualdade e equidade do género, Clóvis Silva explica a questão da saúde como um quesito cultural em que este é criado e motivado pela sociedade como alguém que deve “aguentar a dor já que o facto de o mostrar é uma covardia” e daí buscar um médico e ir ao hospital seja visto como “fragilidade”.

“Todo isso, subconscientemente, leva a que o homem passe uma impressão de que é forte e que nada o abala. E quando consultamos as estatísticas damos conta que o homem dificilmente procura o médico a não ser em caso estremo”, disse, afirmando que esta atitude tem a sua falha na educação.

Sublinhou ainda que a sociedade cabo-verdiana deve lutar para dar a mesma educação destinada às mulheres aos homens, uma vez que se incute a ideia de que a mulher deve cuidar da sua imagem e da sua saúde, enquanto ao homem ninguém o diz o que fazer.

“A ideia do cuidado deve começar a ser passado aos rapazes para que aprendam a cuidar da sua imagem e saúde.

A questão da dor está também ligada às reclamações e aos ensinamentos de que o homem não deve chorar quando sente dor, mas a dor é igual em qualquer ser humano e é um sinal de que algo não está bem”, advogou.

Quanto à questão de direitos assegurou que acontece o mesmo quanto a saúde, ressaltando que as famílias e os educandos ensinam aos meninos determinados comportamentos e que infringir regras é o mais normal, passando a ideia do “macho poderoso” que tudo pode.

No que se relaciona a este tema, Clóvis Silva disse que as famílias estão a falhar na educação dos filhos ao fazer a distinção entre “homem e mulher” e o que devem e não devem fazer.

“A sociedade e a escola estão a falhar nesse ensinamento que se torna tão natural ao homem devido a nossa cultura machista”, lembrou, apontando ainda as causas sociais, as estruturas familiares, o problema da ausência parental e a falta de cuidados como responsáveis por esta atitude.

Reconheceu ainda que se trata de um estereótipo que não vai ser combatido de um momento para outro, mas alerta para a necessidade de se começar a falar do tema nas escolas e nas famílias para que os rapazes tenham uma outra realidade da vida.

“Basta ver que na nossa sociedade temos mais homens em conflito com a lei do que mulheres”, enfatizou.
Referindo ao Laço Branco Cabo Verde, Clóvis Silva ressaltou que a organização tem vindo a trabalhar estes conceitos, já que a sua existência está ligada à mudança de comportamento masculino.

“A masculinidade não é transmitida apenas pelo homem, mas está essencialmente na característica do homem e nós enquanto organização não estamos a conseguir chegar aos homens porque estes quase não participam nos eventos”, disse.

Neste processo, admite a necessidade de se trabalhar a mentalidade masculina para que este esteja aberto a receber e partilhar informações, sublinhado que para trazer os homens à realidade a organização tem estado a utilizar os grupos efectivos nas cadeias e formações no sentido de haver multiplicadores de informação.

Frisou ainda que devido ao parco recurso financeiro, o Laço Branco Cabo Verde tem utilizado voluntários para ajudar na partilha de informações.

Clóvis Silva realça ainda o facto de que o Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género (ICIEG), apesar de ser uma instituição que deve trabalhar a questão da igualdade de género, tem trabalhado mais voltado para a mulher do que para os homens.

Lembra ainda que o próprio Estado tem estado a trabalhar mais na consequência do que na causa, alegando que quando se apoia as mulheres está-se a trabalhar depois da violência e do ponto onde ocorre a força.

“Devemos começar a trabalhar a educação dos homens para poderemos colher frutos mais consistentes na matéria de igualdade do género”, afirmou, realçando a necessidade de se trabalhar o homem durante o ano e não apenas nas datas comemorativas.

Segundo Clóvis Silva, se as instituições responsáveis conseguirem entrar nas escolas, nas forças armadas e no desporto vai mudar o estado das coisas.

“Estamos a fazer o mínimo e temos de pensar nisso, pois, estamos numa situação difícil em que a violência está a tomar conta do país devido ao exercício da masculinidade toxica”, frisou apelando o homem a pensar nas consequências do exercício da sua masculinidade.

O presidente do Laço Branco de Cabo Verde conclui afirmando que qualquer homem que exerce masculinidade positiva em relação ao filho e ao pai, está a marcar a diferença na matéria da igualdade do género.

O Dia Internacional do Homem é celebrado desde 1999, tendo a iniciativa começado em Trinidad e Tobago onde foi despoletado por Jerome Teelucksingh e apoiado pela ONU e por vários grupos de defesa dos direitos masculinos da Europa, América do Norte, África e Ásia.

A data tem como objetivo a promoção de modelos masculinos positivos, com vidas decentes e honestas, celebrar as contribuições masculinas positivas para a sociedade, promover a saúde masculina, melhorar as relações entre géneros e combater o sexismo.

A data é celebrada em Novembro, mês em que se chama a atenção para a campanha Novembro Azul que tem como principal mote os cuidados com a próstata e as doenças relacionadas a esse órgão.

Inforpress

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