Cabo-verdiano residente nos EUA desenvolve fertilizantes orgânicos a partir de algas selvagens

Com o projeto Plant’Águ, Jailton Pereira foi vencedor do 1.º programa de incubação online para projetos cabo-verdianos virados para a economia azul (IDEA APP CV).

Jailton Pereira é um jovem cabo-verdiano, oriundo do bairro de Vila Nova, cidade da Praia, e que vive há nove anos nos Estados Unidos da América. Em entrevista ao Balai, contou como a preocupação com a qualidade dos alimentos consumidos em Cabo Verde e os produtos utilizados pelos agricultores como adubo deram origem ao Plant’Águ, um projeto de fabrico de fertilizantes orgânicos a partir de algas que o jovem quer implementar localmente.

O tradutor que resolveu empreender na área da agricultura

A ida de Jailton para os Estados Unidos ocorreu em 2015, após ter sido um dos premiados no programa da lotaria de vistos que lhe deu direitos à cidadania americana. Na altura, o jovem de apenas 23 anos que tinha terminado a licenciatura em Estudos Ingleses, tinha um negócio próprio na área de Tradução.

Segundo conta, um dos principais motivos que o fez agarrar a oportunidade de viajar para os EUA deveu-se a alguns estigmas que notava em relação à sua idade no ramo da Tradução, dado que algumas pessoas apresentavam uma certa resistência na contratação do serviço que prestava.

“Viajei com o intuito de aprender mais. Ao chegar, consegui um trabalho na minha área de formação, onde atuei como professor durante sete anos e também como freelancer em traduções”, conta o profissional de Línguas que hoje trabalha no departamento de gestão de projetos de tradução num hospital da cidade onde vive.

“Enquanto estava nos EUA, algumas pessoas de Cabo Verde, pediam que lhes enviasse alguns produtos que os ajudassem no combate às pragas, mas eu estava ciente de que embora sejam eficientes, esses produtos são prejudiciais para a nossa saúde, o que não me deixava confortável”, conta o jovem com origens do interior da ilha de Santiago.

Diante disso, Jailton conta que começou a levantar preocupações em relação à agricultura e à qualidade dos alimentos consumidos em Cabo Verde, devido à experiência pessoal com os alimentos nos EUA que continham adubos e aos quais não conseguiu adaptar-se.

Algas selvagens transformadas em fertilizante

Mesmo formado numa área distinta ao do projeto desenvolvido atualmente, Jailton, hoje com 32 anos, contou que tudo começou em outubro de 2023, quando decidiu aprofundar os conhecimentos acerca de algas selvagens, oriundas do oceano Atlântico, que poluíram as águas do mar da cidade americana onde mora.

“Comecei a pesquisar acerca das algas e vi que na verdade elas não eram assim tão más, passei a saber também que quando bem aproveitadas, podem ser usadas como matéria-prima e serem reutilizadas”, explica.

Segundo Jailton, o único ponto negativo destas algas, são os metais pesados presentes, mas que podem ser removidos. Por outro lado, defende que possuem algumas propriedades consideradas boas, como por exemplo, o facto de serem compostas por 80% de água e 10% de minerais.

“Estas são as propriedades que podem ser transferidas para o fertilizante, que possui duas versões: em pó, que pode ser aplicado no solo e permite enriquecê-lo, e a versão líquida, que é um concentrado que pode ser diluído em água e depois aplicado nas folhas”, acrescenta.

Conforme explicado pelo mentor, as propriedades presentes no fertilizante em pó, podem ser comparadas ao adubo, que faz com que as plantas cresçam mais depressa e quando postas no solo, tornando-o mais fértil, além de reter a água e poupar cerca de 20% da que é utilizada na rega.

Por outro lado, o jovem explica que a versão líquida ajuda na alimentação das folhas, uma vez que “as plantas precisam manter as folhas saudáveis, já que os insetos tendem a alimentar-se delas e com isso, matam as plantas”.

Além dos benefícios apontados, outra razão que motivou o jovem a desenvolver os fertilizantes, é o facto dos que são distribuídos em Cabo Verde serem importados de outros países, o que os tornam “mais caros e numa quantidade limitada”.

“Estes fertilizantes são produtos que podem ser produzidos em Cabo Verde, com uma matéria-prima orgânica”, diz e completa que o fabrico deste fertilizante pode gerar empregos.

Oportunidade de empreender em Cabo Verde

Em finais de 2023, Jailton deparou-se com uma publicação que falava de um concurso promovido por um programa nacional de incubação para projetos de Economia Azul, o IDEA APP CV, promovido pelo governo e financiado pelo Fundo Conjunto das Nações Unidas para os ODS (Joint SDG Fund). O jovem que até essa altura não tinha qualquer perspetiva em arrancar com um empreendimento em Cabo Verde viu uma oportunidade mais segura de apostar na ideia de produzir os fertilizantes a partir de algas em Cabo Verde.

“Nunca pensei em empreender na agricultura ou criar um negócio a partir de fertilizantes, foi por causa do concurso que comecei a investigar mais a fundo sobre os mesmos e até ao final do concurso consegui ter em mãos o meu primeiro protótipo”, revela.

O projeto de fertilizantes apresentado caiu no agrado dos jurados e Jailton Pereira acabou por vencer o concurso. O valor do prémio, em dinheiro, o jovem diz que parte será destinado à aquisição dos primeiros equipamentos para a construção de uma pequena “horta aquática”, um espaço para a criação de algas.

Conforme a explicação de Jailton, o próximo passo é conseguir acesso ao financiamento e encontrar investidores. Atualmente, o foco tem sido os testes de qualidade do protótipo, a ser aplicado nas plantações, através de parcerias com agricultores ou outras entidades interessadas.

Com o novo caminho traçado, o jovem que já tinha experiências como empreendedor com um primeiro negócio virado para as traduções, mantém-se positivo em relação ao novo empreendimento, dado que já tem interessados em conhecer o projeto, inclusive instituições financeiras.

A visão de Jailton Pereira é de alavancar o projeto em volta da produção de fertilizantes e distribuí-los, primeiramente, em toda ilha de Santiago e depois a nível nacional.

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