Cabo-verdianos que superaram adversidades e transformaram dificuldades em oportunidades após os 30 

Maria Conceição, Moisés Rocha, Marlete Correia e Hernani Lima são cabo-verdianos que em meio às circunstâncias da vida optaram por escrever novos capítulos nas suas histórias através do autoemprego já após completar os 30 anos.

De uma produção artesanal de bolos em Ribeirão Chiqueiro a uma mercearia do bairro em São Vicente, de um serviço de entregas sustentáveis na cidade da Praia ao artesanato em Santo Antão, os quatro empreendedores contaram em entrevista ao Balai, como as experiências de vida os levaram a diferentes oportunidades de negócio.

Da venda ambulante à produção de biscoitos

Oriunda da ilha do Fogo, Maria Conceição ou Djudju, como é conhecida, tem 52 anos e vive desde os 20 anos em Ribeirão Chiqueiro, interior de Santiago, ao lado do marido, onde chegaram a sustentar uma casa com 15 pessoas. Esta situação levou-a a confecionar lanches para vender nas ruas e à porta das escolas.

“Embora o meu marido fosse professor na altura, só o salário dele não era suficiente para sustentar a casa. Se queríamos uma vida estável e honesta para a nossa família, tínhamos de trabalhar os dois”, conta.

Maria Conceição – Pasteleira

Para aumentar o rendimento, Conceição começou a vender no mercado do Sucupira, na cidade da Praia, onde oferecia bolos secos, sumos e água. Mais tarde, mudou-se para o Plateau, onde explorou diferentes pontos de venda até se tornar conhecida.

Com pouco mais de 40 anos, Maria Conceição oficializou o seu negócio de pastelaria, com uma cozinha instalada nos fundos de casa. Hoje, doze anos depois, outras mulheres da comunidade aprendem a confecionar biscoitos e doces diversos e prestam serviços quando há muita demanda.

“Queremos ajudar os nossos familiares e cuidar de nós, para isso, vemos a necessidade de ter o nosso próprio rendimento”, afirma.

Inovar nos serviços de entrega

Moisés Rocha – Informático

Ainda na capital, onde Djudju encontrou a oportunidade de aumentar o rendimento familiar, mais precisamente no bairro de Achadinha-Meio, nasceu Moisés Rocha, técnico de manutenção de equipamentos informáticos, de 42 anos, que fez o ensino técnico em Portugal.

Em 2004, com pouco mais de 20 anos, regressou a Cabo Verde para trabalhar como técnico de informática na autarquia da Praia. Contudo, deparou-se com uma realidade inesperada.

Percebi que para conseguir um bom emprego era necessário pertencer a uma ala política ou ser “apadrinhado”, e eu não tinha nenhum dos dois. Isso causou-me bastante constrangimento e decidi sair”, explica.

Moisés decidiu então criar a sua própria empresa no ramo da informática, mas por motivos adversos não pôde ir à frente com o empreendimento. Desta forma, resolveu apostar num curso superior em Engenharia de Computação no Brasil.

Após regressar do Brasil com cerca de 32 anos, Moisés Rocha apostou num novo negócio e atualmente cria postos de trabalho na comunidade de Achadinha.

Tudo começou quando transformou uma viatura antiga do pai num bar ambulante, o Gilera Cheio, onde vendia bebidas em eventos e festivais. Mais tarde, expandiu para a distribuição de cerveja e um serviço abrangente de entregas. Durante a pandemia da covid-19, o Gilera Cheio cresceu significativamente, atendendo às necessidades emergentes das pessoas.

De empregada doméstica a dona de uma mercearia do bairro

Marlete Correia – Merceeira

Mais a norte do país, Marlete Correia, santantonense de 38 anos, também viu na formação uma forma de crescer. A viver em São Vicente desde os cinco anos, sob os cuidados da avó paterna, até esta falecer, a jovem começou a trabalhar aos 23 anos como empregada doméstica para pagar os estudos e concluir o secundário. Mais tarde, decidiu fazer um curso profissional em Atendimento e Administração, que completou “mesmo estando grávida e condicionada pelos efeitos da gestação”.

Apesar de não ter conseguido emprego na área de formação, Marlete continuava a trabalhar como auxiliar doméstica quando foi convidada para uma formação de curta duração sobre como planear e abrir um negócio. Desta forma, começou a dar os primeiros passos rumo ao autoemprego e em 2019, abriu uma mercearia, com fundos obtidos através de empréstimos de familiares e amigos.

“Inicialmente, tinha idealizado uma lanchonete, mas, por questões de licenciamento, decidi apostar na criação de uma mercearia, isso quando tinha 34 anos”.

Do hobby a uma renda extra através do artesanato

Hernani Lima – Artesão

Ainda no Barlavento, Hernani Lima, um patrício de Marlete de 38 anos e natural de Ponta do Sol, Santo Antão. Pirça, como também é conhecido, dedicou-se ao artesanato, gosto adquirido desde a escola primária, após perder a mãe aos 13 anos e enfrentar uma doença cardíaca.

O artesanato serviu-me de refúgio. Passei a produzir peças para presentear familiares e amigos, que me incentivaram a encará-lo como uma fonte de rendimento”, conta.

Entre tratamentos médicos, conciliou o artesanato com a manutenção de computadores. Não tardou muito, recebeu uma proposta para produzir peças para uma loja local e, em 2016, aos 30 anos, começou a divulgar o seu trabalho nas redes sociais sob a marca Carteiras Kriolas, regularizada em 2021.

Hoje, aos 38 anos, defende que uma das contribuições da maturidade é a autoconfiança nas artes que produz. Destaca a qualidade dos trabalhos como uma das grandes evoluções ao longo do tempo e que resultou em reconhecimentos.

“Alcancei um patamar em que passei a ensinar aos outros aquilo que sei. Lembro-me de uma vez ter sido convidado por uma organização para formar cerca de 50 mulheres em cartonagem. Agora, cruzo-me com algumas delas em feiras e exposições e isso deixa-me bastante orgulhoso”.

Por outro lado, Hernani, que ainda trabalha sozinho, lamenta o facto de não haver jovens interessados em aprender artesanato e seguir o ofício, embora muitos valorizem as peças criadas manualmente.

Aposta na formação financeira e persistência

Embora Maria Conceição, Moisés e Hernani não tenham enfrentado grandes dificuldades no início, Marlete Correia teve de lutar contra as barreiras financeiras e recorrer a empréstimos para abrir e abastecer a mercearia. Situação que ainda permanece.

“É frustrante não poder trazer tudo aquilo que realmente queremos. Isso ainda acontece, mas é a minha fé e a persistência que me mantém de pé e me impedem de desistir”, desabafa.

A doceira Maria Conceição destaca a importância da educação financeira, adquirida em várias formações nos últimos seis anos, para gerir melhor o negócio e diferenciar os lucros dos ganhos pessoais.

Nós, cabo-verdianos, não temos educação financeira. Os nossos pais não tiveram e nós também crescemos sem ela. Durante as formações, pude aprender isso e foi assim que comecei a alavancar o meu negócio”, conta.

Atualmente, Maria lamenta não poder beneficiar dos programas do Estado para o fomento do empreendedorismo devido à idade, mesmo quando o seu projeto se destaca. Por outro lado, Maria Conceição aconselha as cabo-verdianas a não se acomodarem, sublinhando que “até com um copo de água pode-se fazer dinheiro”.

Hernani, que só em 2021 regularizou o negócio, sublinha a importância de organizar as finanças. “Mais do que produzir e ganhar dinheiro, é necessário ver onde estão as despesas e os lucros“, salienta.

O artesão de Santo Antão, que quer abrir uma loja de artesanato, aconselha os jovens a legalizar os negócios. “Há pessoas que perdem encomendas por não legalizarem o negócio, privando-se de oportunidades maiores”, conclui.

Já Marlete, que sempre quis ser contabilista, agora sonha em ter um minimercado e ser gestora. Por outro lado, vê a “maturidade” como um ganho e confessa que, se tivesse iniciado o negócio mais cedo, talvez não o tivesse ativo ainda. “Quando atingimos a maturidade, sabemos o que realmente queremos para a nossa vida. Isso ajudou-me bastante no meu negócio”.

Satisfeito com os resultados conseguidos, Moisés Ramos mostra-se esperançoso em expandir o negócio para a CEDEAO, mantendo o foco em contribuir para Cabo Verde, ao mesmo tempo em que afirma que “a persistência é a chave do sucesso“.

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