Câmara do Turismo alerta para “razia” da emigração de quadros para Portugal

A Câmara do Turismo de Cabo Verde antevê problemas de falta de quadros nos hotéis face ao anunciado recrutamento de milhares de trabalhadores para Portugal, salientando que a formação profissional no arquipélago não está preparada para “essa razia”.

Em entrevista à agência Lusa, Jorge Spencer Lima, presidente da Câmara do Turismo de Cabo Verde, não escondeu a preocupação com o cenário que se antevê, depois de em julho último uma missão da Região de Turismo do Algarve já ter estado no arquipélago à procura de trabalhadores, anunciando que tem cerca de 5.000 vagas por preencher.

“Vejo com preocupação porque o que poderia ser um ato normal deixa de ser porque não foi preparado, por ser um processo que vai esvaziar os hotéis de quadros, sem alternativas. Porque o sistema de ensino que forma quadros em Cabo Verde ainda não está preparado para essa razia”, afirmou Jorge Spencer Lima.

Para o empresário e dirigente do setor, a perspetiva é de “haver problemas de quadros” a breve prazo, num setor que garante 25% do Produto Interno Bruto (PIB) e do emprego em Cabo Verde, sobretudo em áreas da cozinha ou restauração, sem que o país tenha “base para substituição” dos que partem.

“Pode criar problemas no funcionamento dos hotéis e na qualidade do serviço que é prestado. As pessoas são livres para emigrarem quando entenderem e para onde entenderem. O que não faz sentido é o próprio Governo de Cabo Verde estar a apoiar esse tipo de recrutamento sem preparar o país para essa eventualidade”, disse ainda Spencer Lima.

A prioridade, acrescentou, deve passar por reforçar o sistema de formação profissional: “A emigração vai ser uma fatalidade, já começou e não é a primeira vez. A questão é que o nosso sistema não está preparado para formar mais quadros, que possam substituir aqueles que vão emigrar, tem que ser essa a via, porque nós não vamos poder impedir as pessoas de emigrarem. As pessoas são livres. Mas o sistema tem de funcionar, sai um, tem que ter dois preparados, que não é o caso neste momento. Esse é que é o verdadeiro problema”.

O número de trabalhadores ao serviço nos estabelecimentos hoteleiros de Cabo Verde cresceu cinco vezes em 2021, para 8.400, indicam dados divulgados em junho pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) cabo-verdiano.

Segundo o Inventário Anual de Estabelecimento Hoteleiros divulgado, esses estabelecimentos empregavam diretamente 1.577 trabalhadores no final de 2020 (após um máximo de 9.417 em 2018), registo que assim subiu fortemente (432,7%) no final do ano passado, devido à reabertura progressiva das unidades de alojamento, após as restrições impostas pela pandemia de covid-19.

No final de 2021, segundo o mesmo inventário, Cabo Verde contava com 292 estabelecimentos de alojamento hoteleiro, número que compara com os 124 no ano anterior e os 284 em 2019.

O número de camas disponíveis também voltou a crescer, para 24.156, quando em 2020 eram 4.094 e em 2019 um total 21.059.

Cabo Verde enfrenta uma profunda crise económica e financeira, decorrente da forte quebra na procura turística desde março de 2020, devido às restrições impostas para controlar a pandemia de covid-19.

O país registou em 2020 uma recessão económica histórica, equivalente a 14,8% do PIB, e um crescimento económico de 7% em 2021, impulsionado pela retoma da procura turística no quarto trimestre.

De acordo com o anterior relatório da Movimentação de Hóspedes no país em 2021, a hotelaria cabo-verdiana contabilizou em todo o ano passado 169.068 hóspedes, contra os 207.125 em 2020, em ambos os casos longe do recorde de mais de 819 mil turistas em 2019.

O presidente da Região de Turismo do Algarve disse em 13 de julho, na Praia, que há cerca de 5.000 empregos por preencher naquele setor e está à procura de trabalhadores em Cabo Verde.

“Nós temos cerca de 5.000 ofertas de emprego com necessidade de serem preenchidas, podem ser por cabo-verdianos ou por outras nacionalidades”, disse à imprensa o presidente da Região de Turismo do Algarve, João Fernandes, durante uma missão na capital cabo-verdiana.

Realizada no âmbito do projeto “Promoção de uma Boa Gestão da Migração Laboral para Portugal”, a missão pretendia explorar mecanismos que facilitem a mobilidade de trabalhadores entre os dois países no setor do Turismo.

O representante do Turismo do Algarve disse que a mobilidade de trabalhadores e os fluxos migratórios entre os dois países já acontecem, mas o que se pretende agora é que sejam reforçados e aconteçam de forma regulada e mais célere.

“Evitando situações que nenhum de nós deseja, de forma a garantir que toda a gente que vai de Cabo Verde para Portugal ou até de Portugal para Cabo Verde tenha a garantia de todos dos seus direitos. E essa é uma preocupação presente em todos os parceiros”, salientou o presidente, à margem de um primeiro encontro com o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) de Cabo Verde.

Além da Região de Turismo do Algarve (RTA), a delegação portuguesa integrou a Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) e o Gabinete da Secretaria de Estado do Trabalho de Portugal.

João Fernandes notou que há uma “grande necessidade” de recursos humanos no Algarve, a maior região turística de Portugal, explicada pela rápida retoma após o interregno provocado pela pandemia da covid-19.

“Agora necessitamos reforçar a nossa capacidade de resposta em termos de serviços e Cabo Verde tem uma grande comunidade na nossa região perfeitamente integrada, que goza de uma boa imagem, de serem pessoas que estão disponíveis para o trabalho e que são competentes nas suas funções, nomeadamente no setor do turismo”, avaliou.

O mesmo responsável disse que a missão privilegia Cabo Verde por causa da relação que existe entre os dois países, mas também porque, no âmbito da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), foi assinado um acordo de mobilidade.

Lusa

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