Centenária conserveira Sucla tenta crescer mas falta de peixe não deixa

Com quase 100 anos de atividade, a Sociedade Ultramarina de Conservas (Sucla) é a maior exportadora de São Nicolau, mas a falta de peixe está a limitar o crescimento da também maior empregadora daquela ilha.

“Qualquer dia nós não temos matéria-prima para trabalhar. Só com os barcos nacionais não conseguiremos lá chegar”, explica à Lusa Francisco Almeida Spencer, 58 anos, sócio-gerente da Sucla desde 1998, a terceira geração da família na mais antiga conserveira cabo-verdiana.

A fábrica foi criada em 1931 na ilha de Santo Antão pelo português António Cadório, nome ainda presente nos rótulos das latas de conserva de atum, tal como os navios do período dos descobrimentos portugueses que ainda hoje as ilustram. Em 1935, a fábrica mudou-se para Tarrafal de São Nicolau, onde ainda hoje funciona, embora com dificuldades face à falta de peixe que se agrava há vários anos.

“Acho que trabalhamos uns cinco meses por ano”, admite o administrador, recordando que, ainda assim, a fábrica emprega 170 trabalhadores, apesar de estar projetada para 210 – que “podiam ainda ser mais” -, na produção de conservas de tunídeos, como gaiato ou albacora, além de melva e cavala, mas cujas descargas em terra vão rareando.

Até 2000, a Sucla tinha uma capacidade instalada de processamento anual de 2.500 toneladas de conservas, que duplicou após um investimento de modernização de quase um milhão de euros concluído em 2004. A expetativa era aproveitar a sinergia de um programa estatal cabo-verdiano para aumentar a frota pesqueira nacional e com isso impulsionar a compra e descarga de peixe.

Contudo, o investimento nunca chegou a ser totalmente rentabilizado. “Nós fizemos isso, mas infelizmente o projeto não funcionou. Os barcos não funcionaram e continuamos aqui com uma capacidade de 5.000 toneladas e a trabalhar cerca de 1.000 toneladas por ano”, lamenta.

Só em 2021 a fábrica conseguiu ultrapassar essa marca: Mais de 1.300 toneladas de conservas processadas, equivalente a um milhão de latas, 65% das quais para exportação, totalmente para os Estados Unidos da América, mas não por falta de interesse de outros destinos.

Simplesmente, explica, porque a matéria-prima não chega para as encomendas das conservas que chegam de todo o mundo. Chegam mesmo a passar-se semanas sem descarga de peixe na fábrica, localizada precisamente no centro da vila piscatória do Tarrafal.

“Temos sempre procura, para exportação (…) Temos outros países sempre a solicitar e a ver se algum dia há a possibilidade de exportar também para esses”, reconhece Francisco Almeida Spencer, que em conjunto com os pais detém há quase vinte anos a totalidade da Sucla.

“[na altura] Era preciso fazer investimento. Os outros sócios não estavam interessados em investir, alguns viviam em Portugal e já tinham uma certa idade”, recorda, sobre a progressiva aquisição de quotas da conserveira pela família, desde o período em que o avô trabalhou com o fundador.

Com as exportações das conservas da Sucla totalmente direcionadas para os Estados Unidos, Francisco não esconde o desejo de voltar a exportar também para a Europa, como chegou a acontecer na década de noventa. Mas para tal diz que são necessárias medidas de proteção ao setor.

“Não exportamos para a União Europeia porque não temos mesmo produção para isso. Mas temos solicitações”, aponta.

A solução, garante, passaria por “obrigar” as embarcações que pescam no mar de Cabo Verde, incluindo estrangeiras, a “descarregar uma parte” do peixe nos portos locais: “Isso era uma medida de imediato para resolver esta situação e sem grandes investimentos”.

A atual gestão da família Spencer na Sucla foi criada ao longo dos anos pela visão do pai, Joaquim Spencer, ao comprar progressivamente as quotas de outros sócios, numa fábrica na qual entrou ainda em miúdo. Aos 89 anos ainda passa diariamente pelas oficinas, viradas ao portinho do Tarrafal, mas raramente sobe as longas escadas para o escritório, agora liderado pelo filho.

“Isto praticamente mudou tudo. Desde a forma de trabalhar, ao equipamento, às instalações. Mudou tudo. O que era naquela altura e o que é agora”, recorda Joaquim, que entrou na Sucla também pela mão do seu pai, Joaquim Pinheiro Villa, deportado político de Portugal para São Nicolau, onde acabaria por se tornar o braço direito do fundador da conserveira.

E se Joaquim compreende que a tecnologia tenha mudado ao longo dos quase 80 anos a que assistiu à evolução da fábrica, da mecânica e força de braços para máquinas elétricas – com exceção das receitas, ainda originais do fundador -, admite que a captura de peixe, a base do negócio, “é que mudou para pior”.

“Praticamente já não trabalhamos com o atum, trabalhamos com o gaiato. E ultimamente até o gaiato tem andado a desaparecer. E com a melva é que estamos a viver”, conta ainda, apontando as diferenças para o passado, em que por ali não faltava atum.

A importância da Sucla para o Tarrafal, concelho com pouco mais de 5.000 habitantes, e para a ilha de São Nicolau é reconhecida pela autarquia local, que há cerca de dois anos abraçou o projeto estatal de criação do complexo de pesca, incluindo a ampliação do cais para melhorar as condições de descarga do pescado, também de embarcações de outras ilhas.

“As preocupações da fábrica também são as nossas”, afirma à Lusa o presidente da Câmara de Tarrafal de São Nicolau, José Freitas de Brito.

Até porque o peso social da fábrica é redobrado no contexto de crise atual.

“Não há família em Tarrafal que não esteja ligada à fábrica, que não trabalhe na fábrica”, observa o autarca.

Lusa

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