Cereais da Rússia: Ajuda alimentar como instrumento diplomático?

A Rússia doou cereais ao Zimbabué para ajudar o país a enfrentar uma seca devastadora. Embora os cereais sejam bem-vindos, observadores questionam doações e duvidam que a ajuda seja puramente humanitária.

A Rússia doou ao Zimbabué 25.000 toneladas de trigo e 23.000 toneladas de fertilizantes, numa altura em que o país da África Austral enfrenta uma grave seca que está a deixar mais de 3 milhões de pessoas em risco de fome.

Enny Nyashanu, de 79 anos, plantou e não colheu. Diz que a situação é preocupante: “Tinha grandes expectativas com esta safra. Tinha a certeza que iriamos sobreviver da nossa colheita. Mas não há esperança nem para onde fugir. O país inteiro está assim”, lamenta.

O Programa Alimentar Mundial (PAM) prevê que os próximos meses serão difíceis, uma vez que faltam recursos para suprir as necessidades das famílias em situação de insegurança alimentar.

Sherita Manyika, da agência humanitária no Zimbabué, lamenta que “o financiamento tem sido um desafio” e continuará a ser. “Os recursos nem sempre estão disponíveis. Das necessidades atuais, apenas 35% são financiadas pelo PAM. Temos um enorme défice de recursos”, diz.

Muitos zimbabuanos depositam esperança em doações como a da Rússia. No entanto, especialistas questionam as motivações do Kremlin em África.

Na última cimeira Rússia-África, em 2023, o país prometeu 200 mil toneladas de cereais a distribuir por seis países africanos: Burkina Faso, Mali, Eritreia, República Centro-Africana, Somália e Zimbabué.

Estratégia política?

Para Alex Vines, diretor do Programa para África da Chatham House, a doação da Rússia é uma estratégia política e não uma questão humanitária.

“Não se trata de reforçar a diplomacia russa em África, mas sim de recompensar os melhores aliados da Rússia, ou os países com os quais quer aumentar os seus compromissos. Há outros países africanos que provavelmente precisam mais de cereais do que estes”, lembra.

À medida que as ajudas continuam, surgem questões sobre as implicações a longo prazo do envolvimento da Rússia em África, particularmente depois da reeleição do Presidente Vladimir Putin.

Apesar da perspetiva de cooperação e laços reforçados, Vines defende que “a Rússia está sobrecarregada”.

“Os seus recursos são limitados, está concentrada em questões mais amplas, particularmente a guerra na Ucrânia. Assistimos, por exemplo, a um declínio significativo na ajuda à defesa dos países africanos, devido à reorientação do equipamento militar para a guerra em que a Rússia está envolvida”, observa.

Este cenário abre espaço para outros países, como a China, aumentarem a sua influência em África, diz Alex Vines.

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