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A Comissão Nacional de Eleições (CNE) proclamou hoje, dia 29 de maio, oficialmente os resultados definitivos das eleições legislativas de 17 de maio de 2026, confirmando a vitória do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), num escrutínio marcado por uma elevada taxa de abstenção 53,5% no total, com destaque para os círculos da Europa e Resto Mundo (77%) e Santiago Norte (55%).
Segundo os dados apresentados pela CNE, o universo eleitoral contou com 416.096 eleitores inscritos, excluindo os inscritos da Argentina, Cuba e Moçambique, onde inicialmente estavam contabilizados os eleitores, mas não houve votação.
Do total de inscritos, exerceram o direito de voto 193.329 eleitores, correspondendo a uma taxa de participação de 46,5%. Em contrapartida, a abstenção atingiu 222.767 eleitores, equivalente a 53,5% dos inscritos.
A maior taxa de abstenção foi registada no círculo eleitoral da Europa e Resto do Mundo, com 77%, correspondente a 37.498 eleitores que não foram às urnas. Entre os círculos nacionais, Santiago Norte apresentou a taxa mais elevada, com 55% de abstenção, o equivalente a 41.771 eleitores.
Os círculos da diáspora registaram, no conjunto, uma taxa de abstenção de 72%, enquanto no território nacional os níveis mais elevados foram observados em Santiago Norte (55%), Maio (54%), Fogo (52%) e Brava (51%).
Relativamente aos votos expressos, foram contabilizados 188.727 votos válidos, além de 2.709 votos brancos e 1.893 votos nulos.
Na distribuição dos votos válidos, o PAICV obteve 90.660 votos, correspondentes a 48,04%, elegendo 37 dos 72 deputados. O Movimento para a Democracia (MpD) arrecadou 84.458 votos, equivalente a 44,75%, elegendo 33 deputados. Já a UCID conseguiu 9.812 votos, representando 5,2%, tendo garantido dois deputados.
O Partido do Trabalho e Solidariedade (PTS), com 3.268 votos, equivalentes a 1,73%, e o Partido Popular (PP), com 529 votos (0,28%), não conseguiram eleger deputados.
Com estes resultados, a nova composição parlamentar será formada por 37 deputados do PAICV, 33 do MpD e dois da UCID.
A nível da representatividade de género, o novo Parlamento vai contar com 38 homens (52,78%) e 34 mulheres (47,22%).
Quanto à distribuição etária dos deputados eleitos, a faixa entre os 41 e os 50 anos concentra o maior número de parlamentares, com 33 deputados. Seguem-se 23 deputados entre os 51 e os 60 anos, 10 entre os 61 e os 70 anos, quatro entre os 31 e os 40 anos e dois deputados entre os 25 e os 30 anos.
Durante a conferência de imprensa, a presidente da CNE, Maria do Rosário Pereira Gonçalves, manifestou a sua preocupação com o aumento da abstenção eleitoral em Cabo Verde, sublinhando que o fenómeno “precisa ser analisado, estudado com profundidade”, no sentido de se promover cada vez maior participação e adesão dos cidadãos cabo-verdianos ao processo eleitoral.
“De facto de 2016 a esta data, Cabo Verde vem registando um agravamento da taxa de abstenção, sendo que de 2016 para 2021 situava-se numa taxa de 3,11% em termos de diminuição e de 2021 para 2026, a tendência de variação é de menos 16,91%”, avançou, referindo mais adiante que a sustentabilidade do processo democrático só se consegue com a participação ativa dos cidadãos, sobretudo na fase de escolha daqueles que vão governar o país.
Para a presidente da CNE, fatores como o conformismo político e a perceção de estabilidade democrática podem estar a contribuir para o afastamento dos cidadãos das urnas.
“ (…) este sentimento precisa ser trabalhado e combatido no sentido de que em democracia nada está adquirido, nada é perene, é preciso haver um trabalho consistente, atenção diária e a cada pleito eleitoral dos cidadãos cabo-verdianos e para isso é preciso haver maior interesse, não só no debate político que nós consideramos que vem aumentando, sobretudo com o advento das redes sociais, mas ir além dessa participação no debate político e expressar-se na hora da escolha daqueles que vão governar o país”, acrescentou, apontando que é preciso chamar a atenção de todos sobretudo das universidades, dos partidos políticos e da administração eleitoral, no sentido de despertar maior paixão e interesse dos cabo-verdianos ao processo de escolha democrática.
Maria do Rosário Pereira Gonçalves defendeu ainda a modernização do sistema eleitoral cabo-verdiano, admitindo que mecanismos como o voto eletrónico ou via internet poderão aproximar os cidadãos do processo eleitoral e facilitar a participação.
Segundo a responsável, é preciso dotar o país de uma lei eleitoral moderna que acompanhe a dinâmica e a vicissitude do processo eleitoral em Cabo Verde, visto que se tem verificado uma dinâmica diferente em cada processo eleitoral.
No que se refere às alegadas compras de votos ocorridas durante a campanha eleitoral, a presidente da CNE afirmou que a instituição não está em condições de fazer esta avaliação, referindo que a Procuradoria-Geral da República e o Ministério Público estão melhor vocacionados para trabalhar essas questões.
A responsável apela a todos os atores políticos para aguardarem com serenidade o resultado das investigações feito pelas autoridades competentes para esclarecer estas questões.
Cerca de 218 observadores internacionais acompanharam as eleições de 17 de maio, Além de tecer elogios à forma como decorreram as eleições de forma livre e transparente, a comitiva deixou algumas recomendações a CNE, nomeadamente a necessidade de se disponibilizar os materiais, os cadernos eleitorais nas assembleias de voto e nas mesas de voto atempadamente.
“Nós entendemos, sobretudo, que a logística eleitoral de um país é a maior logística de qualquer país em tempo de paz. É um processo complexo, vários intervenientes, várias entidades e sujeitos a falhas e que esta Comissão Nacional de Eleições tem procurado a cada pleito eleitoral minimizando e melhorando”, disse, acrescentando que “nas próximas eleições os ganhos conseguidos em termos de melhorias na logística eleitoral, sobretudo no concelho da Praia, serão consolidados e as falhas detectadas serão corrigidas”.
Os resultados definitivos do processo eleitoral vão constar a partir desta sexta-feira, 29, no Boletim Oficial e o Presidente da República, José Maria Neves, já pode ouvir os partidos políticos para indigitar o partido vencedor a formar o próximo Governo.
A Assembleia Nacional deve reunir-se no prazo de 20 dias, a contar a partir desta sexta-feira, 29, para dar início à nova legislatura com o empossamento dos 72 novos deputados eleitos.
“Nós já consideramos que todas as condições estão criadas para a efetiva entrada em função dos novos deputados e o empossamento do novo governo da República por um mandato de 5 anos respectivamente”, disse.
Balai Notícias