Porque os PALOP apreciam mais o futebol da ex-colónia do que o seu?

A adoração pelo futebol português é para alguns fruto da herança cultural. Outros alegam que falta qualidade ao futebol africano. Um “amor não correspondido”, já que o futebol africano não interessa a muitos portugueses.

Não é novidade que nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) há uma adoração quase divina pelo futebol português. Temos todos um conhecido que decora com orgulho as paredes da sua sala com a águia do “glorioso” Benfica ou um parente que não descola a camisola “oficial” do Sporting nos momentos de laser.

E quando a seleção das quinas está em campo, como aconteceu agora no Euro 2024, o campeonato europeu de futebol, então tudo pára nas ex-colónias portuguesas. A jornalista desportiva moçambicana Rosa Inguane lembra que “o que os une” é o facto de falarmos a mesma língua. “Nos entendemos melhor e partilhamos de alguma forma os mesmos valores culturais, apesar de tudo”, afirma.

O angolano “Jo do Benfica” é a prova viva disso. Na verdade, é o Jo do Sporting. Só tem esta alcunha porque mora no bairro do Benfica, em Luanda. O ferrenho adepto do clube português reflete a herança portuguesa. Jo, que se chama na verdade João Afonso, tem muito orgulho do seu amor incondicional pelo clube leonino.

“Sou adepto do Sporting porque desde pequeno cresci a ver uma das grandes lendas do futebol português: o Luís Figo”, justifica. “E daí decidi que devia me entregar de coração ao Sporting.”

Mas esse amor incondicional não costuma ser dispensado às equipas nacionais. Ninguém pára o trânsito quando o Petro de Luanda ou o Costa do Sol vence algum campeonato. As suas vitórias não são celebradas com efusão nas redes sociais e poucos são os angolanos ou guineenses que gastam os seus parcos recursos para investir nas camisetes do seu clube local ou até mesmo da seleção nacional.

Apoio “excessivo” aos portugueses?

O sociólogo moçambicano Elísio Macamo, que não vê nada contra ser adepto de equipas estrangeiras – até porque ele próprio aprecia o Sporting -, interroga-se, porém, sobre esse amor “excessivo”.

Diz que, em Moçambique, há uma forma de manifestar o apoio pelas equipas portuguesas que lhe parece doentia. “Sobretudo se tomarmos em consideração a história colonial que não podemos esquecer”, explica. “Não estou a dizer que os portugueses são nossos inimigos, mas não consigo perceber essa forma de apoio às equipas portuguesas”, indaga o sociólogo.

“O coração é que decide quem vai amar”, remata Jo do Benfica. O angolano lembra que o futebol africano carece de qualidade, o que leva a essa “traição” dos locais.

Para ele, “não há muito a se dizer e a se mostrar” ao nível do futebol em África. “O nosso futebol é muito desvalorizado e valoriza-se mais o futebol do Ocidente”, lamenta.

Mas talvez muitos adeptos africanos não conhecerão o adágio português que diz que “o amor é cego”. Ou lhes faltará autoestima? O que quer que seja, o sociólogo Elísio Macamo desvaloriza a falta de qualidade como desculpa para desmerecer o futebol africano.

“Como é que o nosso futebol vai ter qualidade se as pessoas não apoiam?”, questiona. “Eu mesmo, estando a viver fora, sou sócio do clube de Gaza, a equipa que sempre apoiei quando vivi em Moçambique, da mesma forma que apoiei o Maxaquene em Maputo”. Para Macamo, “o problema é como isso se manifesta”. E explica em tom crítico: “é esta extraversão que me incomoda, o facto de não termos compromisso com as nossas coisas, mas investir toda a emoção com coisas de fora.”

“Descolonizar o coração”

Por seu lado, Jo do Benfica sustenta que “não basta amor e uma cabana”, a propósito do contributo dos próprios adeptos africanos para elevar a qualidade do futebol local, dedicando-lhe amor igual. “Todos temos vontade de valorizar o que é nosso, mas os clubes devem também se valorizar, por exemplo, criando infraestruturas sérias.”

E, para Jo, também é uma questão de sangue. “Tem adeptos [cuja] família nasce e morre sportinguista”, afirma o angolano. “Isso tem a ver com tradição no futebol e não só em áfrica. Em Angola, em particular, implementamos esse sistema.”

Quando questionado sobre a possibilidade de “descolonizar o seu coração”, o sportinguista evidenciou mais uma vez o seu foco quando o assunto é amor. “A beleza de uma mulher encanta sempre um homem. Então, a beleza de um futebol encanta sempre um adepto”, argumentou Jo.

Estaríamos diante de uma espécie de “Síndrome de Estocolmo” quando o assunto é futebol português? Macamo não responde à questão, mas estranha mais uma vez a excessiva adoração, inclusive de estrelas de futebol como Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi. “Nós estamos a viver no nosso país sem estarmos lá. Isso é estranho”, observa.

Amor não correspondido

Outro facto curioso é que se está diante de um amor não correspondido. O futebol dos PALOP não é amado pelos portugueses e nem a sua imprensa lhe dá o mesmo destaque que a imprensa dos PALOP dá ao futebol português.

Mais uma vez, Elísio Macamo levanta o “cartão vermelho” e questiona a aludida falta de reciprocidade. “Não me incomoda o facto de os portugueses estarem-se nas tintas para o nosso futebol”, desabafa com frontalidade. “Claro, se surgir um jogador angolano, moçambicano ou guineense e tiver sucesso, na RTP África vai-se falar dele como exemplo da lusofonia”, reconhece ainda em tom crítico. “Por vezes não acompanham o nosso futebol, esse amor não correspondido incomoda.”

Fora que o continente africano continua a não ser mais do que fonte de matéria-prima para o futebol português e não só. Nessas Ligas de grande prestígio, às vezes os jogadores africanos são desprestigiados com ataques racistas.

Mas nem tudo são mágoas. O sociólogo moçambicano reconhece que os futebolistas africanos, bem preparados na Europa, beneficiam e engrandecem as seleções dos PALOP.

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