Joana Sousa vende postais de Natal em São Vicente há 45 anos mas redes sociais ameaçam negócio

Joana Sousa vende postais de Natal em São Vicente há 45 anos mas redes sociais ameaçam negócio

Joana Rosa Sousa vende “postais de verdade” há 45 anos na cidade do Mindelo, mas vê agora a tradição dar lugar à tecnologia e às redes sociais, perante o receio da perda destas lembranças natalícias.

“Antigamente vendiam-se postais em vários lugares da cidade e quando saía de casa com um cesto cheio, voltava na maior parte das vezes com ele vazio. As pessoas ofereciam aos pais, padrinhos, amigos e familiares mais próximos. Porém, depois que inventaram o Facebook, esqueceram do prazer que é oferecer e receber um postal de verdade de alguém”, lamenta Joana Rosa, 77 anos, em declarações à Lusa.

O negócio da venda de postais de Natal permitiu-lhe uma vida estável e ajudou-a até a construir sua casa, no Mindelo, ilha de São Vicente.

“Eu vendi peixe, verduras, mas em dezembro é que via maior rendimento. Consegui construir a minha casa em Alto Mira-Mar [centro da cidade], fazia criação de porcos e criei todos os 13 filhos que tive”, explica Joana, que sempre se posiciona no seu posto de venda improvisado com cadeiras e cestos na Rua de Lisboa, em pleno centro do Mindelo.

Além das vendas não serem hoje as mesmas, também passou a ter dificuldades em encontrar postais no mercado nacional, contando neste momento apenas com o auxílio de amigos que conhecem a sua ocupação e os trazem do exterior.

“Os postais natalícios chegam de fora e sei que a maioria das empresas que os produziam fecharam as portas e fica difícil encontrar à venda aqui em São Vicente. Este ano não comprei para revender porque tenho uma parte que ficou do ano passado, que vieram dos Estados Unidos e de Portugal, trazidos por alguns amigos e aproveito para vender este ano”, frisa.

O preço de custo dos postais tem vindo a aumentar, mas Joana prefere deixar o mesmo valor na venda no Mindelo, de 50 a 200 escudos, como o faz há já alguns anos, para não perder os poucos clientes que ainda restam.

“Se o aumentar não conseguirei vender nenhum”, lamenta.

A venda de postais é um trabalho que Joana Rosa opta por fazer apenas em dezembro, apesar de vender também postais turísticos, além dos natalícios como tradição, para completar a pensão social que recebe, já que ainda tem a responsabilidade de cuidar da família.

Antes da independência de Cabo Verde, em 1975, foi uma das cabo-verdianas que tentou a vida nas roças de São Tomé e Príncipe, deixando em Cabo Verde um filho. Cinco anos depois, em 1979, regressou com mais dois filhos.

“A minha vida nunca foi fácil e tive de procurar sustento, que antigamente era através da emigração. Fui para São Tomé com 20 anos e voltei com 25 anos, comecei a apanhar cascalho para vender, fiz uma casa de bidão em Fernando Pau. Depois, com venda de postais, roupas e brinquedos, fiz a minha atual casa em Alto Mira-Mar e minha vida era bastante estável”, recorda.

Ao todo teve 13, mas nesse momento apenas 11 filhos estão vivos e admite que já perdeu a conta do número de netos que tem.

A sua saúde já não é a mesma e a venda de postais é a única herança que quer deixar verdadeiramente para um filho ou um neto que se interessar pela atividade.

“De todos os meus filhos, apenas uma filha agarrou esta tradição e vende postais numa zona mais abaixo e cheguei a dizer para ela que o meu cesto de postais será dela quando já não estiver mais aqui”, conta ainda.

 

Lusa

 

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