Moradores pedem à ministra retoma de projeto de reabilitação urbana em São Vicente

Mais de 100 cidadãos enviaram uma carta aberta à ministra das Infraestruturas, Ordenamento do Território e Habitação de Cabo Verde a pedir a retoma das obras de um projeto de reabilitação urbana em São Vicente, premiado internacionalmente.

A carta foi enviada por moradores que querem ver retomada as obras do projeto “Outros Bairros”, de reabilitação urbana em São Vicente, do Ministério de Infraestruturas, Ordenamento do Território e Habitação, que pretende intervir nos bairros informais de Cabo Verde.

O projeto permite a sua transformação, através da reabilitação, revitalização e acessibilidades, e arrancou há mais de dois anos com uma intervenção piloto no bairro de Alto de Bomba, seguindo-se outras áreas na envolvência da cidade do Mindelo.

Entretanto, os moradores mostram-se perplexos com a “continuada paragem das obras” deste projeto que em abril foi distinguido com o prémio “Obra do Ano 2022″, na arquitetura lusófona, atribuída pela revista online de especialidade “ArchDaily”, na versão do Brasil, e é integrante da lista de finalistas do prémio Aga Khan Award for Architecture.

“A retoma anunciada em janeiro passado pela Ministra das Infraestruturas, Ordenamento do Território e Habitação, a efetivar-se a partir de março de 2022, constituiu motivo para os signatários desta carta se alarmarem pelo não cumprimento do prometido”, protestam os signatários da missiva, entre eles muitos artistas e arquitetos.

As mesmas fontes consideram que a paragem está a “bloquear a melhoria das condições de vida de todos os moradores, que continuam sem respostas sobre a construção do espaço público, do depósito de água e das redes de eletricidade, de abastecimento de água, de esgoto e de drenagem pluvial”.

O trabalho no espaço público envolve uma área de 6.965 metros quadrados, nos bairros de Cova e Alto de Bomba, Canelona, Covada de Bruxa e Fernando Pó, em São Vicente, incluindo o calcetamento de vias antes em terra batida, trabalho garantido por mulheres que residem nos próprios bairros e que foram formadas e pagas para o efeito.

Os signatários consideram que a iniciativa é “exemplar, exequível e relevante” para São Vicente, explicando que trabalha na compreensão dos territórios semelhantes a estas zonas, pensando o futuro, e constrói uma abordagem para a melhoria do espaço público.

“Ao contrário de outras ações, que se centram apenas na construção de habitações com uma localização e projetos de arquitetura desajustados ao modo de vida das populações, a Iniciativa Outros Bairros (IOB) promove a construção de uma população consciente da importância do direito ao lugar e à cidade”, lembram.

Por entenderem que a suspensão das obras “congela” um projeto de “correção política, habitacional e urbana”, os signatários solicitaram à ministra a retoma de todo o projeto, reconhecido nacional e internacionalmente.

Alto de Bomba é um bairro de São Vicente, com uma das melhores vistas para a cidade do Mindelo, mas nasceu de forma informal, com a população a construir casas clandestinas, onde o ordenamento do território não foi tido em conta.

Por este motivo, as autoridades locais apontam a dificuldade inicial de fazer chegar saneamento, estradas e outras infraestruturas primordiais para o desenvolvimento, ultrapassadas com a pedagogia envolvida com o projeto “Outros Bairros”.

De acordo com o coordenador deste trabalho, Nuno Flores, um dos signatários, a reabilitação urbana tinha como ponto de partida o modo de vida da população local, com uma equipa técnica no terreno a “escutar” as necessidades locais e a estabelecer a forma de atuar.

Além da obra, a equipa do “Outros Bairros” promoveu a criação de espaços públicos, avaliando o “saber fazer” dos moradores. Apesar de mudar a vida destes moradores, o projeto foi concretizado, até ao momento, em cerca de 40% do inicialmente previsto.

Em dois anos foram aplicados mais de 20 milhões de escudos (180 mil euros) em obras que permitiram mudar a vida aos moradores destes assentamentos, que cresceram ao longo dos anos na ilha de São Vicente.

Lusa

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