“Não é o sucesso que faz um empreendedor, são os processos”, diz Helder Silva

Começou na indústria musical, passou para a culinária até chegar ao mais recente investimento no ramo da inovação agrícola. Em entrevista ao Balai, Helder Silva, ou Heavy H, como ficou conhecido no cenário musical cabo-verdiano, contou um pouco sobre o seu percurso no mundo dos negócios.

Da gravação de álbuns que fizeram “vibrar” a camada jovem na década de 1990, em Cabo Verde e na diáspora, à produção e promoção de projetos musicais como “Verão” e eventos que agitaram as noites praenses, na extinta discoteca Bomba H, conhecida na altura como a “maior sala de eventos do país”, Heavy sempre mostrou o seu lado empreendedor.

A origem empreendedora

Filho da cidade da Praia, Hélder nasceu em 1974 e concluiu os estudos primários e secundários no país até que aos 15 anos embarcou para os EUA, onde cursou Gestão e Marketing, influenciado pelo histórico familiar ligado ao empreendedorismo.

“Os meus pais sempre foram conhecidos como empresários, durante a minha juventude sempre os via a comandar seus negócios, pelo que também acabei por me envolver em alguns para aprender, isso despertou o meu interesse pelo assunto”, comenta sobre o facto de serem os pais os seus “principais influenciadores” no mundo dos negócios.

A participação nos negócios dos pais fez com que Helder se aproximasse da cozinha, por conta de alguns empreendimentos da família ligados à hotelaria e à gastronomia, tanto que em 2011 decidiu voltar para os Estados Unidos e fazer um curso de chef de cozinha e, posteriormente, de barman e bartender, seguido por mais um curso de turismo, o que segundo diz, foram adicionados a mais outras experiências de trabalho, ainda nos EUA, que lhe deram as habilidades necessárias para aplicar nas atividades recentes.

De regresso ao país

Após um longo período a viver fora, Helder decidiu regressar a Cabo Verde, dado ao falecimento dos pais, primeiro o pai e de seguida a mãe, o que lhe fez ficar no país e apostar num novo empreendimento ligado à restauração, visto que já tinha um curso de cozinha e bar, mas, por razões externas acabou por encerrar e voltar à “terra do Tio Sam” (EUA) com o intuito de ficar de vez por lá.

“A decisão foi revertida por conta do nascimento do meu primeiro filho em 2020, estando com 47 anos e dada a importância da figura paterna na vida de uma criança, regressei a Cabo Verde e decidi ficar”, explica.

Neste regresso em pleno ano da covid-19 e por ficar “condicionalmente” inativo, Heavy conta que durante o período optava por fazer pesquisas como forma de aprofundar o conhecimento, um hábito que o fez descobrir uma nova forma de empreender.

“Num dia, estava a navegar pela internet, acabei por entrar num site e ler um conteúdo que dizia: “Agricultura com menos de 95% de água e menos de 85% do solo”, foi algo que me chamou bastante atenção e deixou-me entusiasmado, logo pensei que já tinha encontrado a resolução para o problema de Cabo Verde no ramo da agricultura”, relata sobre como surgiu o interesse pela aeroponia, uma técnica agrícola utilizada no seu atual empreendimento.

Uma nova forma de fazer agricultura

Com o interesse aguçado, Heavy decidiu ir mais a fundo e absorver o máximo de informações que podia para dominar a técnica aeropónica.

Conforme avançou em entrevista, a aeroponia é uma técnica de cultivo que consiste na plantação de espécies como vegetais e frutas, em um suporte vertical o qual Heavy chama de torre, onde num espaço de 21 dias é possível ter as colheitas em mãos, um resultado que, segundo diz, é 3 vezes maior do que o cultivo em solo firme.

“Enquanto no solo comum é possível ter de 2 a 3 colheitas por ano, na aeroponia é possível ter 16 colheitas num ano, porque algumas espécies se desenvolvem em 3 semanas, como a alface, o pepino e o quiabo. Pode-se plantar todas as espécies que se cultivam aqui e que se adaptam ao nosso clima, com exceção daqueles que consideramos serem raízes, como a batata e a cebola.”, explica.

Para o empreendedor, a iniciativa foi uma forma que o mesmo encontrou para fazer “algo a mais pela sua terra”, uma vez que a aposta na aeroponia significa “economia de recursos, a não aposta em agrotóxicos, o uso racional da água e entre tantos outros benefícios”, que na sua ótica, encaixam-se “perfeitamente” no contexto cabo-verdiano.

“Fala-se muito que se quer tornar Cabo Verde num país digital e apostar mais em novas tecnologias, mas é preciso avaliar essa ideia de que as novas tecnologias não são apenas digitais, o que faço também é uma nova tecnologia, mas só que ligada à agricultura”, realça.

Com uma iniciativa que implica um investimento de 60 mil escudos mensais e um retorno de quatro mil e seiscentos contos anuais, só nas colheitas de alface e a depender das taxas de preço em algumas regiões do país, Heavy lamenta a falta de financiamento formal quando se recorre aos bancos.

“Algumas pessoas manifestaram o seu interesse em apostar nessa tecnologia, mas acabam sempre por desistir quando recorrem aos bancos para o financiamento e não conseguem”, revela sobre o facto de que em Cabo Verde existe “muita resistência a mudanças”, sendo esta, na visão de Heavy, “a razão de poucas iniciativas inovadoras no país e a aposta sempre em negócios semelhantes”.

“Após iniciar o negócio fiz inúmeras ações que mostrassem os seus ganhos e benefícios, mas a realidade não correspondeu àquilo que tinha imaginado, passado um ano só o meu (empreendimento) é que ainda existe”, lamenta.

Apesar dos desafios, Heavy mantém-se satisfeito com os “frutos colhidos” visto que o negócio tem gerado “empregos indiretos”, dado à contratação de terceiros nos processos de escoamento dos produtos, algo que o mesmo afirma não ser o foco do negócio, mas sim, a venda da tecnologia.

“Apostar na comercialização dos produtos seria uma concorrência desleal para com os nossos agricultores, porque a produção é maior e mais barata, a minha atenção está voltada para quem tem interesse na tecnologia”, revela, acrescentando que o mesmo já tem parcerias com o ministério da Justiça para a aplicação da técnica nas cadeias do país, algo que o mantém “esperançoso”.

“Não é o sucesso que faz um empreendedor, são os processos”

Para o artista e empreendedor, Heavy H, “um Homem é um sonho com um dólar”, ditado norte-americano que o mesmo faz uso para defender que “o mínimo é o suficiente para dar avanço a uma ideia na qual se acredita”. Algo que o mesmo considera ser desafiante perante o “sistema bancário do país”.

Diante disso, Heavy afirma que aposta as suas fichas na mudança de mentalidade da juventude cabo-verdiana, para que possam alterar o cenário e torná-lo “mais amigo” da inovação no seu todo, num futuro próximo.

“O segredo do empreendedorismo encontra-se em fazer por nós e não pelos aplausos dos outros, porque só assim focamo-nos em formas de driblar as barreiras e procurar as melhores soluções. Afinal, não é o sucesso que faz um empreendedor, são os processos”, destaca.

Com um trajeto musical preenchido por hits que “marcaram” uma geração, como “Bom pa filme”, “Sampadjudo ku Badio” entre tantos outros, Heavy conta que continua a fazer shows “quando lhe é solicitado”, principalmente na diáspora.

Além disso, o mesmo revela que conta com um trabalho já gravado em colaboração com o artista Zeca di Nha Reinalda, aguardando pelo seu lançamento.

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