Nélida Marques: “Existe uma grande desconexão entre o que é Cabo Verde e o turismo que temos”

Foi uma dos sete oradores da 3ª edição do TEDx Praia. Com o tema Turismo Sustentável, Autenticidade e Identidade, a formadora cabo-verdiana Nélida Marques quis chamar a atenção da plateia presente no evento para o turismo sustentável. Numa entrevista ao Balai, a turismóloga fez uma análise da oferta turística atual em Cabo Verde, do impacto da pandemia da covid-19 no sector e da necessidade de se apostar em alternativas mais sustentáveis e que dão a conhecer a verdadeira identidade do arquipélago.

A primeira pergunta que se coloca é porquê a escolha deste tema?

Porque achei que em Cabo Verde existe uma grande desconexão entre o que é Cabo Verde e o turismo que aqui temos. Se repararmos, a nossa oferta turística está muito centrada nos hotéis à beira mar, all-inclusive e num tipo de turismo de massas, que no fundo não traz benefícios à população nem mostra o que realmente é Cabo Verde. Para ter uma ideia, em Portugal cada vez que conheço pessoas que estiveram em Cabo Verde, geralmente ingleses, que me dizem que já estiveram em Cabo Verde e quando lhes pergunto em que ilha, a resposta por norma é: Hotel Riu. É um tema que me toca bastante.

Quando entrei na universidade (2001) foi quando começou o ‘boom’ do turismo em Cabo Verde, na Boa Vista, principalmente, e apercebi-me que era um modelo que não tinha sustentabilidade, porque na altura Boa Vista tinha 4 mil habitantes, aproximadamente, e iam construir dois a três hotéis com cerca de 750 quartos (…) Fazendo umas contas de cabeça com 2 hotéis com 1500 quartos, traduzindo por ocupação dá cerca de 3 mil pessoas só em dois hotéis, desconsiderando o resto. Significaria que iríamos ter mais turistas do que residentes. O resultado está à vista no que é Boa Vista a nível de turismo. Depois construíram mais hotéis e aquilo foi chocante. Escolhi esse tema para mostrar que Cabo Verde é muito mais do que isso e estamos a desvalorizar o que nós temos.

Mas se deixarmos de ter hotéis deste género, os turistas vão para outro lado qualquer onde haja oferta semelhante…

Não desconsidero isso. A solução não é deixar de ter hotéis all-inclusive. Só que os projetos que realmente são sustentáveis têm as 3 componentes: a proteção do ambiente, a proteção da população local e o proveito económico.

Que alternativas sugere?

Como disse no meu talk, não basta construirmos hotéis sem plásticos ou instalarmos fotovoltáicos ou, então, criarmos empregos porque empregos qualquer indústria cria, é tentar canalizar isso para outras áreas que temos necessidades, por exemplo, o sistema de tratamento de resíduos em Cabo Verde ainda deixa muito a desejar. Outra coisa que falta é analisar a capacidade de carga de destinos, de Cabo Verde. Não quer dizer que não possamos ter hotéis com três ou dois mil quartos, mas tem de ser de forma faseada e acompanhar o desenvolvimento da população. Se agora pegarmos num hotel de três mil quartos e colocarmos numa ilha, vai acontecer o que aconteceu na Boa Vista. Isso é um modelo a evitar. Esses projetos maiores são bem-vindos e devem continuar, porque existe uma procura, mas tem de existir uma diversificação para uma oferta mais seletiva já que existe uma grande procura a nível de sustentabilidade, temos uma nova geração de viajantes, que são a geração Z e os millenials, que procura exatamente essas experiências de estarem ligados à população, de conhecer realmente o que é o país. E cada vez mais vai ser uma tendência esse tipo de procura turística e aí é importante que Cabo Verde também esteja preparado para dar esse tipo de resposta, e não focar apenas nos grandes hotéis e projetos, dar possibilidade que o turismo seja diversificado com diferentes tipos de hotéis, de alojamento, com experiências completares, no fundo criar uma experiência Cabo Verde.

No fundo, quer dizer que estes turistas que vêm para os grandes hotéis não estão a ter uma experiência de Cabo Verde. Poderiam estar cá como na Tunísia ou em Varadero?

Exatamente, para eles qualquer hotel que desse as mesmas condições, serviria. O único contacto que eles acabam por ter com a população é através de tours que também são vendidos através de operadores que não são cabo-verdianos. Acabam por sair do hotel uma vez, e se estão cá 7 dias, cinco são dentro do hotel na praia ou na piscina. Então é diversificar essa oferta turística não só em Santiago como nas outras ilhas. Compreendo que existem dificuldades acrescidas porque somos ilhas. Também não valerá a pena investir num projeto turístico de diversificação, por exemplo, na Brava, se não existe infraestrutura de suporte. É um trabalho multissectorial, onde as várias entidades responsáveis pelas várias áreas têm de se juntar e desenvolver um projeto. Não vale a pena apostar em ilhas onde ainda não temos acessos nem estruturas para fazer as pessoas lá chegar. Temos muita coisa que está subaproveitada.

,

Miriam Livramento ao lado dos oradores do TEDx Praia 2021

Se repararmos, a nossa oferta turística está muito centrada nos hotéis à beira mar, all-inclusive e num tipo de turismo de massas, que no fundo não traz benefícios à população nem mostra o que realmente é Cabo Verde

Isto acaba por ser uma questão do ovo e da galinha, se houver investimento nessas ilhas, há uma maior motivação para se criar alternativas de transportes, etc. ou não?

Sim, pode ser. Se existir um investimento inicial na ilha (…). Acho que Brava é uma das ilhas que tem um potencial enorme, estive no Fogo em 2019, queria ir à Brava, mas a única forma de ir era ficando lá uma semana. Só que eu não tinha uma semana nem a Brava tem oferta para um turista estar lá durante uma semana. Agora, conjugando Praia, Fogo e Brava, seria um circuito bastante interessante porque combinava várias coisas: a natureza, a cultura, etc. Mas lá está tem de ser parcerias público-privadas e um investimento multissectorial dentro do próprio sistema.

Nesta retoma turística gradual, com o regresso dos turistas e reabertura dos hotéis, acha que agora é na mesma necessário segmentar e diversificar?

Para mim, a covid-19 foi um ponto de viragem para várias áreas e o turismo é uma delas. O turismo mundial parou, as restrições de circulação puseram um STOP no turismo. Acho que os investidores e quem trabalha no turismo deveriam usar esta pausa para repensar o que nós estamos a fazer a nível de impacto ambiental, o turismo, por exemplo, é um dos setores com maior pegada carbónica (…) Para Cabo Verde, acabou o all-inclusive, ficamos sem alternativa de turismo. Acho que uma alternativa mais sustentável, quando  apostamos na nossa autenticidade e identidade, os próprios cabo-verdianos que não conhecem, vão querer conhecer. Isto pode incentivar o turismo interno. Mais uma vez vamos bater nos custos de acessibilidades e dos custos de deslocação entre as ilhas. Mas lá está, o mercado cria-se. Temos de tentar criar a vontade dos próprios cabo-verdianos de consumirem o produto Cabo Verde. Por exemplo, eu moro em Portugal e venho sempre a Cabo Verde. Por norma, como emigrante, vou sempre ver os meus pais, faço sempre Praia – Boa Vista. Mas decidi que não, que como cabo-verdiana tenho o direito e devo conhecer todas as ilhas. Por isso que em 2019 comecei a descobrir as ilhas de Cabo Verde e acredito que outros emigrantes também têm essa vontade e possibilidade de o fazer. Agora temos de criar o produto e criar a necessidade das pessoas fazerem. O marketing aqui tem um papel fundamental…

Mas de quem será a responsabilidade de fazer esse marketing? Das instituições públicas ou privadas?

Pessoalmente, defendo que a promoção do destino turístico é das entidades públicas. Porquê? Nós é que conhecemos Cabo Verde. Não há privados que venham investir, por norma são capitais estrangeiros, que vão promover Cabo Verde como nós. Para mim, a promoção turística é responsabilidade da Direção-geral do Turismo ou do Instituto do turismo. E tem de ser um trabalho com cabeça, tronco e membros. Não é criar um site novo e deixar o site que por si só não vai funcionar. Existe toda uma estratégia que o marketing digital veio facilitar bastante que mais uma vez Cabo Verde está a subestimar. Procuramos no Google, existem várias páginas sobre Cabo Verde, não sabemos qual é a oficial. Depois, a nível das redes sociais no turismo, Cabo Verde não tem autoridade nas redes sociais. Por exemplo, já o ministério da Cultura já tem essa presença mais forte no campo digital. Isso tudo, tem de ser um projeto criado de raiz: criar um plano de marketing, temos de ‘ressegmentar’, se queremos entrar no turismo sustentável, temos de reposicionar ou criar um produto que dê resposta e temos de comunicar lá fora. Como disse, é um circuito multissectorial, mas o marketing, com certeza, é uma das chaves fundamentais que tem de ser feito pelo regime público. Nós é que sabemos o que temos e o que vendemos. Outra coisa que achei muito interessante, foi todos os relatórios e planos de turismo que li focavam muito no que nós não temos, não temos água, agricultura suficiente, riquezas naturais, etc. e esquecem-se do que nós temos. Isso é outro problema que tem de ser resolvido. Temos de focar no que nós temos e temos coisas muito bonitas.

Refere que sempre visita a ilha da Boa Vista. Como é que avalia a evolução da ilha nestes últimos anos?

Há uma coisa que aprecio bastante – é a genuinidade do povo da Boa Vista. Em 2001, quando fui estudar, era muito comum chegares na Boa Vista e as pessoas terem a chave na porta ou os portões de trás terem uma linha e isso já não existe e até pelo contrário, nós vemos grades nas janelas. A própria cidade perdeu a sua essência – acabou por ter um grande número de pessoas que são de fora tanto turistas como residentes, o que mudou bastante, pelo menos em Sal Rei. No interior, ainda é mais acolhedor. No entretanto, a zona norte não beneficiou nada com o turismo. O projeto que apresentei no TEDx , o hotel Spingueira ecolodge, hoje está para a venda é um projeto lindíssimo e é quase que único em Cabo Verde. Na Zone Norte, não vejo quase evolução e o que vejo da cidade de Sal Rei é que perdeu alguma autenticidade, mas também a mistura cultural que agora existe na Boa Vista é fantástica. Vamos ao liceu e temos meninos de vários países africanos e isso é muito enriquecedor se for bem aproveitado. Nós temos uma grande diversidade de línguas naquele liceu e isso é um lado positivo desse crescimento. A nível de infraestruturas e serviços acho que fica muito aquém para o que era esperado para uma ilha com quatro ou cinco grandes hotéis. Acho que perdeu identidade e não ganhou tanto a nível social, para além do problema social que existe a nível de alojamento, nomeadamente na zona da Barraca. Lá está ninguém esperava que a covid-19 fosse aparecer, mas também acredito que com a abertura dos destinos isto vai voltar ao normal, a nível imobiliário pode demorar um bocadinho, mas acredito que o turismo vai ser o que era, agora é aproveitar e repensar e fazer melhor.

E a nível pessoal tem algum projeto que gostaria de desenvolver em Cabo Verde?

Ainda não. Mas acho que se fizesse alguma coisa a nível do turismo seria na Boa Vista na zona de onde sou e tentava realmente recuperar o que nós temos. Acho que faz muita falta, por exemplo, um museu. Todas as ilhas deveriam ter um museu porque as localidades têm coisas que são únicas. Por exemplo, na Boa Vista era comum encontrar panelas que eram feitas de bóias dos barcos, nós tirávamos a parte de cima e usávamos aquilo para a cachupa. O moinho, o ferro de carvão, tudo isso acho que é algo que deveria ser preservado.

Não abordou o ministério da Cultura sobre este plano?

(…) posso sugerir. É importante mantermos isso. Por exemplo, o museu do Fogo acho que está um bocado abandonado. Tem coisas muito interessantes, mas está lá, simplesmente, não tem uma manutenção ou pessoa que vá lá ver se as coisas precisam de manutenção, restauro, etc. isto tudo se não fizermos, vai acabar por diluir no tempo.

Se calhar também cabe às câmaras municipais de estarem envolvidas junto do IPC neste tipo de projeto…

Sim, o poder local também tem uma grande responsabilidade. Não é só dizer que é responsabilidade do Governo. Até porque o poder local que tem acesso à informação em primeira mão. Sabe qual é o estado das coisas, se há um edifício histórico a degradar-se, é da responsabilidade do poder local fazer essa identificação e tentar junto de outras entidades desenvolver um projeto. O poder local é muito importante. Posto de informação turística, de vigilância, etc. tem de ser uma estrutura onde cada um deve ser responsável da sua área e fazer esse desenvolvimento, conjugando todos os esforços acho que assim é que vamos conseguir. A nível de projetos é isso, talvez poderia regressar a Cabo Verde e trabalhar na área de formação. Gostava de fazer um projeto junto dos jovens nos quais temos de focar a nossa energia e tentar fazer uma mudança de paradigma e mentalidade para que eles também comecem a valorizar o que é nosso e criarem também um pouco de brio profissional (…)

Turismo, um sonho sempre presente

Nasceu na Boa Vista, mas cresceu na Praia, onde residiu desde os quatro anos. Diz que sempre quis estudar Turismo, tanto é que as suas cinco opções na candidatura para o ensino superior foram todas para o curso de Turismo. E assim rumou para a universidade de Algarve (Portugal).

Foi mãe durante a época em que ainda estava a fazer a sua formação e acabou por fincar raízes no sul de Portugal. “Sempre trabalhei na área, no Aeroporto de Lisboa, em agências de viagens, operadores de viagens”.

Atualmente mora em Ferragudo, no concelho de Lagoa, no Algarve, e nos últimos três anos trabalhava como Relações Públicas num hotel cinco estrelas na região. Com o covid-19, viu o seu contrato a não ser renovado e acabou por ficar sem emprego.

Entretanto, apostou num curso de Formação de Formadores, bem como em outras formações e começou a estudar. “O turismo sustentável foi algo que desde o início da minha carreira atraiu o meu interesse. Fui aprender mais e comecei a comparar os modelos que existem e como é que são aplicados em Cabo Verde e noutros países. Fui ter à economia circular e sobre como podemos transportar esse modelo ao turismo”.

Tomou conhecimento sobre a abertura das candidaturas para os oradores para o TEDx Praia nas redes sociais. “Candidatei-me e fui aprovada”.

Trabalhou na sua apresentação desde julho que alterou várias vezes. “Queria fazer algo diferente, queria mostrar realmente o que nós temos. Vi que as talks eram todas iguais. Daí surgiu a ideia de fazer uma experiência sensorial para que as pessoas dessem valor. Foi muito arriscado, mas acho que o resultado final foi positivo. Acho que consegui transmitir a minha mensagem”.

A apresentação de Nelida no TEDx Praia foi em inglês e apesar de ser fluente, desde 2007 que esta é a sua língua de trabalho, exigiu algum treino.

Hoje em dia trabalha por conta própria como formadora, principalmente. Questionada sobre se gostaria de voltar a trabalhar num empreendimento hoteleiro semelhante ao que estava anteriormente, a cabo-verdiana diz que é um tipo de trabalho muito exigente e que implica abdicar de aspetos como a vida pessoal.

“Não escolheria outra profissão, gosto de trabalhar em hotéis, em turismo, de estar com pessoas. Mas gosto de ter a minha vida, de ver a minha família no verão (…) é muito complicado. Agora tenho oportunidade de trabalhar por conta própria, fazer os meus horários e ter uma vida mais estável e para já vou continuar”.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest