“O nosso objetivo é mostrar que Cabo Verde é capaz de desenvolver um produto útil para os restantes países do mundo”, dizem mentores da startup Chuva

Nilson Nascimento e Danila Silva são dois dos mentores da Chuva, startup mindelense de inovação, tecnologia e desenvolvimento, focada na capacitação de pessoas como forma de fazer transpor o nome de Cabo Verde além-fronteiras.

Há cerca de seis anos os caminhos do engenheiro informático Nilson Nascimento, hoje com 31 anos, e da agente comunitária e violinista Danila Silva, 27, se cruzaram. Apesar de atuarem na altura em áreas distintas, foram “unidos” por uma causa em comum: “juntar as pessoas, muni-las de conhecimento e desenvolver o ecossistema social e económico do país”.

“A ideia surgiu da paixão por Cabo Verde juntada ao privilégio de poder sair do país e ver as coisas em perspetivas diferentes, poder comparar as vantagens e desvantagens de estar aqui e de estar em outros lugares. Com isso, identificar que há recursos, ferramentas e conhecimentos que podemos trazer para o nosso país a custo zero e investir no seu desenvolvimento”, explica Nilson Nascimento.

Filho de pais cabo-verdianos, nascido nos Estados Unidos da América, EUA, Nilson sentiu “paixão pela terra mãe” assim que chegou ao arquipélago pela primeira vez, aos 12 anos. Permaneceu no país durante quatro anos, regressou aos EUA, onde se formou em Engenharia de Informática e Programação, mas manteve-se com o “propósito” de voltar a Cabo Verde e “contribuir” para o seu desenvolvimento.

Por outro lado, Danila Silva, nascida em São Vicente, formada em contabilidade, agente comunitária e violonista desde os 11 anos, encontrava-se como maestra numa associação comunitária em Mindelo, onde também leciona violino aos mais pequenos.

“Antes de entrar na Chuva a tecnologia era uma área que sempre gostava mas nunca conseguia saber o que realmente poderia encontrar na mesma, foi ao entrar para a equipa que pude perceber que de facto quero aprofundar e também dar o meu contributo, juntando as minhas habilidades”, conta Danila, que em meio aos seus trabalhos comunitários acabou por conhecer Nilson e decidiu juntar-se ao projeto.

“O nosso contributo abraça diferentes áreas, desde arte, ciência, tecnologia entre tantos outros. Isso, focado tanto dentro do nosso escritório, no desenvolvimento dos produtos que lançamos, como também fora, através das atividades que fazemos com as comunidades que são workshops, aulas, formações, etc. Pois, não podemos ter uma indústria de desenvolvimento de tecnologia se não tivermos pessoas capacitadas para tal”, realça Nilson, defendendo que desta forma o país “sairá deste ciclo de exportar todo o conhecimento para o exterior e investir mais no interior”.

Há quatro anos registrada oficialmente como empresa, os dois mentores da Chuva defendem que durante esses primeiros anos têm-se focado em “construir a base” da organização, “persistindo na consistência” da mesma e “fazer muito com pouco”. Foco esse que conforme avançaram em entrevista ao Balai, permitiu-lhes desenvolver uma nova tecnologia, a ferramenta Less, que apresentaram na Web Summit 2023 em Lisboa, que terminou ontem, 16 de novembro.

Na feira onde Chuva marcou presença pela terceira vez consecutiva, a startup participou desta vez na categoria Alpha, que é o nome que se dá às startups que se encontram numa fase de “desenvolvimento maior”, dando-lhes “melhores condições” de receber investimentos.

A tecnologia Less refere-se aos serviços de serverless, como adiantou Nilson, que envolve o conceito de cloud (armazenamento na nuvem), que de acordo com o mentor, “o mundo prepara-se para transitar para este sistema de computação, mas o problema é que é pouco acessível, por ser complexo e caro, sendo necessário pessoas altamente especializadas para o fazer”.

“Se é para lá que todos vão, sendo que Cabo Verde ainda não tem uma legislação com termos e condições específicas, como é que podemos conseguir lá chegar também? Em meio a todos os projetos que desenvolvemos na Chuva, identificamos o que a maioria tinha em comum, que é justamente essa questão do armazenamento, algo que todas as empresas aqui têm feito com os dados, mas de forma repetitiva, o “Less”, consegue fazer 60% desse trabalho automaticamente e de forma mais acessível.”, explica Nilson Nascimento.

Para os mentores, a ida à Web Summit deste ano teve como objetivo “conseguir investidores” para a tecnologia “Less”, além de dar “visibilidade” ao país, algo que segundo a mentora Danila Silva, é “louvável” uma vez que é a primeira vez em que levaram um produto “nacional” que poderá ser usado “em todo mundo”.

“O nosso objetivo com “Less” é mostrar que Cabo Verde, mesmo quase imperceptível no mapa, é capaz de desenvolver um produto útil para os restantes países do mundo. “Less” não é útil somente à Chuva, mas para todo Cabo Verde, no sentido de trazer pessoas para vir beber e deixar conhecimento no país.”, realça Danila.

Além da Web Summit, os mentores também marcaram presença neste mês de novembro, no evento Cheetah Generation, promovido pela ONG, Cheetah Start. Em entrevista, Nilson que esteve como um dos oradores no Master Class, manifestou a sua “preocupação” sobre a “disponibilidade” das pessoas em aderir a eventos do género, para “questionar” e “discutir” temas com propósito de “mudar” a mentalidade “em prol do desenvolvimento do país”.

Atualmente a startup Chuva conta com uma equipa formada por 12 pessoas, sendo na sua maioria da área de engenharia. Para além da “Less”, a empresa é também proprietária de mais duas ferramentas, o Samba, software de gestão cloud que permite emitir e gerir faturas, bem como o Ping, uma app para transações monetárias nacionais e internacionais.

Os dois mentores da startup almejam chegar a outras cidades, além de Mindelo, onde possam contar com equipamentos necessários, que segundo os próprios, poderão servir a todos os criativos e desenvolvedores, para que possam trabalhar em projetos ligados à inovação e a tecnologia, algo que na ótica de Nilton Nascimento e Danila Silva, deverá ser “o forte” de Cabo Verde nessa “nova era”.

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