Oposição nota “crise de governação” e partido no poder rejeita caos

O maior partido da oposição (PAICV) responsabilizou hoje o Governo pelo estado “crítico” do país, enquanto o partido no poder (MpD) rejeitou o caos, considerando que, apesar das crises, há esperança

Na sua intervenção no início do debate sobre o estado da Nação na Assembleia Nacional, o líder parlamentar do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), João Baptista Pereira, avaliou o estado como “crítico”, notando que o contexto atual está a empurrar as pessoas para “níveis extremos de sacrifícios”.

Para o líder parlamentar do maior partido da oposição cabo-verdiana, a recessão económica histórica de 14,8% em 2020 e as “políticas desajustadas do Governo” inverteram a “caminhada de sucesso” para redução da pobreza em Cabo Verde, notando que a se situação agravou.

“A situação que Cabo Verde está a atravessar tem, inegavelmente, a contribuição da chamada tripla crise. Porém, olhando para o todo nacional, temos de dizer que o Governo tem também a sua quota parte de responsabilidades, diante das dificuldades que o país e os cabo-verdianos atravessam presentemente, gerando uma quarta dimensão da crise, que podemos designar crise de governação”, afirmou o político, no debate que acontece no final de cada sessão legislativa e foi aberto pelo primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva.

João Baptista Pereira sustentou a sua posição com, entre outros pontos, a perda de mais de 20 mil empregos em quatro anos, mais de 53 mil pessoas inativas, 181 mil a viver em situação de insegurança alimentar, elevado défice habitacional, aumento exponencial da dívida pública, bem como um “quadro sombrio” na Educação, problemas nos transportes, tanto aéreos como marítimos, e insegurança.

“A crise não pode servir de desculpas”, insistiu o político, para quem o estado da Nação é também de incertezas e privação, em virtude de “políticas de intolerância, partidarização, opacidade, dívida e défice” do Governo.

“A nação tem um Governo gordo, ineficaz, ineficiente e sorvedouro dos serviços públicos, um Governo de promessas e compromissos falhados”, criticou o representante do PAICV, entendendo que o país precisa de consensos quanto à natureza dos desafios atuais e quanto aos compromissos para os enfrentar.

Para o líder parlamentar do Movimento para a Democracia (MpD), João Gomes, a palavra crise é uma “verdade indesmentível” que caracteriza o estado do país e vai constar de todas as intervenções no debate anual que encerra o ano parlamentar em Cabo Verde.

“Negá-la ou tentar fingir é um enorme pecado. Também não queremos, nem pretendemos, que com o presente debate se pinte de verde o estado da Nação, mas também rejeitamos, em absoluto, que se tente resumir o estado da Nação a uma situação de caos”, avisou.

João Gomes notou que o país vive crises sucessivas desde 2017 – o atual Governo foi eleito em 2016 e reeleito em 2021 – que não permitiram pôr em prática o programa de governação, mas sublinhou que, se não fossem as “medidas assertivas e atempadas”, a situação seria pior.

“As secas severas, as piores dos últimos 40 anos e que ainda continuam a fazer os seus efeitos, a pandemia da covid-19 e agora a guerra na Ucrânia não deram tréguas ao Governo nem aos cabo-verdianos, cujos efeitos, por certo, vão se fazer sentir por muitos anos”, insistiu o político do partido que suporta o Governo, entendendo que, apesar das crises, o momento é de esperança.

“Nenhum Governo de Cabo Verde governou em épocas de crise como o de Ulisses Correia e Silva, nenhum Governo em Cabo Verde, desde a sua independência [1975] teve necessidade de tomar medidas corajosas, atempadas para acudir às necessidades das pessoas”, enfatizou João Gomes, que pediu união para “mostrar a fibra do cabo-verdiano” nos momentos difíceis.

O arquipélago enfrenta uma profunda crise económica e financeira, decorrente da forte quebra na procura turística desde março de 2020, devido à pandemia de covid-19.

Em 2020, registou uma recessão económica histórica, equivalente a 14,8% do PIB, seguindo-se um crescimento de 7% em 2021 impulsionado pela retoma da procura turística. Para 2022, devido às consequências económicas da guerra na Ucrânia, nomeadamente a escalada de preços, o Governo cabo-verdiano baixou a previsão de crescimento de 6% para 4%.

Lusa

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