Paola Mariani, a italiana que veio para Cabo Verde para apostar no turismo imobiliário, mas que acabou por singrar no eco-empreendedorismo no Sal

Paola Mariani é uma italiana de 41 anos que vive há mais de 10 anos na ilha do Sal, onde hoje é proprietária de dois empreendimentos na cidade de Santa Maria, um dos quais um parque ecológico com mais de 200 animais.

Paola Mariani chegou a Cabo Verde pela primeira vez em 1997 como turista. Tinha 16 anos e estava acompanhada dos pais e irmãos com os quais ficou durante uma semana hospedada no Sal, num hotel italiano que existia na altura.

Como conta em entrevista ao Balai, o primeiro contacto com a ilha não foi de “grande impacto” para a adolescente, uma vez que na época não se desfrutavam de “grandes empreendimentos” e as opções de lazer eram escassas. Porém, ao chegarem na praia de Santa Maria, Paola e a família sentiram-se encantados pelo lugar e, a partir daí, a ilha tornou-se no principal destino turístico dos Mariani durante as férias em Cabo Verde.

À medida que o tempo passava, Paola cresceu e começou a passar boa parte de sua vida na Europa, formou-se em Línguas, trabalhou como recepcionista num hotel nas ilhas Canárias, onde conheceu o seu atual companheiro e onde os dois se casaram.

Depois de três anos de matrimónio, os dois decidiram viajar para Cabo Verde em 2007 com o objetivo de empreender.

“Na época o meu pai já se encontrava aqui a atuar no setor imobiliário, que estava super em alta”, recorda Paola e explica que tanto ela como o marido começaram a trabalhar num dos hotéis no Sal, mas que a intenção era de arriscar no turismo imobiliário.

Porém, com a crise económica que se estendeu no mundo em 2008, ao sentir que os negócios estariam em “risco”, o casal decidiu apostar na produção de plantas, como forma de dar resposta a um outro projeto que o pai de Paola tinha idealizado em 2000 – a construção de um campo relvado de golfe.

“Desde o início tínhamos decidido ser totalmente independentes na questão de ajardinamento e na criação de espaços verdes no local. Já sabíamos da dificuldade que era trazer espécies de plantas para o arquipélago, principalmente por conta do clima da ilha do Sal”, explica. Foi assim que a empreendedora começou a ter em atenção a questão da ecologia e da sustentabilidade.

Durante anos, Paola e o marido fizeram uma “intensa e incansável” pesquisa e estudos de campo para perceber o solo e o clima de Cabo Verde, isso sem nenhum dos dois ter formação em Botânica ou área semelhante.

No fim, conseguiram transformar o lugar em um “autêntico viveiro”, que as pessoas e organizações infantis começaram a visitar e a levar crianças para “se conectar com a natureza”. Começava a nascer o parque ecológico Pachamama, que significa “Mãe Terra” em quechua, uma das línguas faladas na Argentina, terra natal do seu esposo.

“O que vemos no Pachamama hoje é tudo fruto de um trabalho de “djunta mon” com as pessoas de cá. Quando estamos numa terra que não tem quase nada, temos que inventar tudo, e foi isso que aconteceu aqui, construímos tudo com os recursos daqui, desde o cultivo das plantas, do tratamento da água dos esgotos dos hóteis para a rega das áreas verdes à reciclagem de resíduos para recriar algo útil no viveiro”, realça.

Com o foco ainda na concretização do projeto inicial, em janeiro de 2021 foi inaugurado o campo de golfe, com nove buracos.

Segundo a entrevistada, o pai por ser um golfista pensou na criação do espaço como forma de proporcionar mais entretenimento aos turistas que visitam a ilha e que, na visão da filha, “hoje também carrega o papel de levar o nome de Cabo Verde como um destino para os golfistas de todo o mundo e fazer a ponte com as demais iniciativas no país relacionadas com esta prática”.

A rotina do parque, que até então era composta apenas por plantas, começou a ganhar uma nova dinâmica com a chegada de animais em 2013, devido à adoção pelo casal de uma burra que foi encontrada numa lixeira local.

“Nesta época trabalhava apenas com a população local, mas ainda não haviam surgido ideias de como atrair turistas para visitar o jardim. Foi quando reparei que os meus sobrinhos ao visitarem o espaço começaram a se afeiçoar pela burrinha e vi que a presença de animais também poderia ser uma atração”.

Segundo a proprietária, hoje o Pachamama conta com mais de 250 animais, entre cabras, macacos, papagaios, coelhos e outras espécies que, à semelhança das plantas, são locais e a empreendedora explica que “não foram comprados, alguns foram ofertados e outros resgatados”.

Ainda em entrevista, Paola afirma que atualmente o parque já se encontra como uma das paragens de grupos de turistas que decidem fazer um tour pela ilha. Além dos turistas, a empreendedora diz que “o espaço é aberto para qualquer pessoa que deseja passar um momento relaxante com a família e amigos ou apenas descansar a mente”.

“Tudo o que as pessoas desejam consumir no parque é produzido com os produtos da terra, cultivados por nós”, destaca sobre os serviços de restauração oferecidos no parque, que emprega atualmente 14 pessoas, entre os cuidadores de plantas, de animais e outros trabalhos de logística, sendo a maioria cabo-verdianos.

Enquanto uma estrangeira que escolheu viver e investir num empreendimento “do zero” na ilha do Sal, Paola sublinha os desafios relacionados à adaptação de um mercado “novo e virgem”, uma vez que “não encontrou modelos de negócios a seguir”. Além disso, a mesma lamenta a falta de acesso a alguns recursos e assistências na ilha, que apesar de ser turística “não possui muita oferta de produtos e serviços”.

Além dos dois negócios, outro cenário da vida que Paola Mariani destaca é a sua “paixão pela vida e pelas pessoas”, ao ponto que a mesma se considera “uma cidadã do mundo” e diz defender as causas que acredita independentemente do lugar que esteja, sublinhando que “quando se passa por um lugar, deve o fazer deixando uma marca positiva”.

Em agosto deste ano, Paola marcou presença na segunda edição da TEDx Mindelo como uma das oradoras, enquanto eco- empreendedora na ilha do Sal, falou sobre o equilíbrio ambiental, conexão humana com a natureza e o desenvolvimento pessoal. Onde também mostrou o seu contentamento com a presença da diáspora cabo-verdiana no evento.

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